São Brás: conheça a história do bairro do santo da garganta, do transporte e do comércio

Imagem, em tamanho real do santo, que dá nome ao bairro está no Mercado de São Brás, no pavilhão de venda de carnes e peixes. A devoção é tímida, mas resiste

Victor Furtado

O bairro de São Brás é homenagem a um santo conhecido por auxiliar pessoas com doenças na garganta. Uma procissão era feita da Igreja das Mercês até o Largo de Nazaré. A devoção foi diminuindo com o tempo, mas resistiu à história e segue com manifestações diversas. E a importância do bairro só cresceu desde a fundação, no final do século XIX. A história da área sempre esteve atrelada ao comércio e ao transporte, características que se mantêm marcantes até hoje.

Diferente do perfil de área central e de ligação a outras áreas, São Brás já foi apenas uma área limítrofe de Belém. Só quando a expansão da capital se intensificou, durante a gestão do intendente Antônio Lemos, é que se percebeu a necessidade de uma nova saída da cidade. E de medidas que fortalecessem também o comércio, como explica o historiador Diego Pereira, professor e coordenador do curso de História da Unama.

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Começa a expansão da estrada de ferro Belém-Bragança. O mercado de São Brás é inaugurado com o propósito de escoamento e recepção de mercadorias. Uma das principais estações da ferrovia estava onde hoje é o Terminal Rodoviário de Belém. Tudo se deu a partir de 1883. Inicialmente, esse núcleo do bairro foi chamado de Largo de São Brás. Um território grande, com 28 hectares.

Diego observa que a ampliação da estrada de ferro também adentrou o centro da cidade e terminava no Horto Municipal. A caixa d'água, feita em ferro fundido importado da França, foi uma das primeiras atrações significativas. Sem os prédios, podia ser vista de longe. Até os dias atuais, São Brás tem uma alta concentração de transportes particulares e públicos.

 

 

Caixa d'água feita em ferro fundido foi importada da França. Apesar das piadas sobre ser um disco voador, é um monumento histórico, aponta o professor Diego. (Victor Furtado / O Liberal)

O Mercado de São Brás simbolizava esse perfil comercial do bairro à época, em 1910. Uma construção imponente e que fez parte da intendência de Antônio Lemos, no perfil de arquitetura que ele admirava. Havia uma conexão forte com mercadorias do Ver-o-Peso. A saída e entrada de mercadorias era ampliada com a criação da avenida Tito Fraco, hoje mais conhecida como avenida Almirante Barroso.

Com o tempo, o bairro teve o perfil de centralidade reconhecido. Residências mais elitizadas começaram a ser construídas, assim como um movimento cultural, com teatro e cinema. Ambos não existem mais. Só uma placa do antigo Cine Independência restou em memória, num edifício que fica na avenida Magalhães Barata, entre as travessas 14 de Abril e Francisco Caldeira Castelo Branco (um dos fundadores de Belém). Esse movimento de ocupação, aponta o historiador, acabou definindo algumas homenagens a figuras políticas e históricas.

É em São Brás que fica o Parque da Residência, onde antes era a Casa dos Governadores. As elites belemenses foi que atraíram medidas de valorização, como praças e obras de arte em metal. O então governador Magalhães Barata acabou ganhando homenagens mais significativas, como uma avenida com o nome dele e um memorial, atualmente em situação de abandono semelhante ao mercado de São Brás. O Governador José Malcher também dá nome a uma avenida principal do bairro.

"São Brás tem muitas obras e pontos interessantes e até recentes, como o Pilar da Infâmia, em memória ao massacre de Eldorado do Carajás. Em verdade, vemos essas obras sem o devido cuidado. O abandono do mercado e do memorial a Magalhães Barata já foram denunciados várias vezes. O mercado só não está mais abandonado porque movimentos culturais tentam se apropriar dele. Mas essa ruptura na preservação, cenário de abandono e problemas sociais são visíveis numa área que conta a história do bairro de Belém. Nossa cidade é belíssima. Só precisa ser melhor cuidada", analisa Diego Pereira.

São Brás (apesar de a grafia original ser com Z) continua sendo cultuado, no pavilhão de carnes do mercado. A festividade dele é no dia 3 de fevereiro. É um santo conhecido por operar milagres na cura de doenças da garganta. (Victor Furtado / O Liberal)

É possível ver o santo que dá nome ao bairro no Mercado de São Brás, no pavilhão destinado à venda de proteína animal. Há um pequeno altar dedicado a uma imagem em tamanho real. Até hoje, há velas sendo acesas ao santo. E acaba por ser um ponto do turismo religioso de Belém que passa despercebido por muita gente. Quem quiser fazer uma homenagem, basta procurar pelo açougueiro que atende pelo apelido de "Velho". Ele é o guardião das chaves.

A Festividade do Santo ocorre dentro do mercado. É sempre no dia 3 de fevereiro, a partir das 7h. Há uma missa, seguida de café da manhã, lanche, almoço e uma série de homenagens que duram o dia inteiro. Há uma capela dedicada a ele, na passagem Tapajós.

Belém
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