Prefeitura de Belém ainda não detalhou os gastos da crise dos alagamentos
Situação dura quase 20 dias após gestão decretar situação de emergência em razão das fortes chuvas que atingiram a cpital paraense.
Quase 20 dias após decretar situação de emergência em razão das fortes chuvas que atingiram Belém, a Prefeitura Municipal ainda não detalhou publicamente os gastos realizados durante a crise nem disponibilizou de forma clara no Portal da Transparência informações sobre contratos emergenciais, empresas contratadas e aplicação dos recursos públicos relacionados às ações de resposta aos alagamentos.
O Decreto nº 114.364/2026 – PMB foi publicado no Diário Oficial do Município em 20 de abril, um dia após o temporal que provocou alagamentos em diversos bairros da capital paraense. O documento reconhece oficialmente os impactos causados pelas chuvas intensas, como o transbordamento de canais, danos à infraestrutura urbana, interrupção de serviços essenciais e deslocamento de famílias.
Afetados
Entre as áreas citadas no decreto estão bairros como Tapanã, Condor, Pratinha, Barreiro, Coqueiro, Cidade Velha, Campina e Val-de-Cães. A Prefeitura também anunciou medidas emergenciais como distribuição de cestas básicas, kits dormitório, kits de limpeza, apoio social às famílias atingidas e mobilização de equipes para drenagem, limpeza de canais e desobstrução de bueiros.
Com a decretação da emergência, a gestão do prefeito Igor Normando passou a ter autorização legal para realizar contratações sem licitação destinadas às ações emergenciais. O artigo 3º do decreto prevê a dispensa de licitação para aquisição de bens, contratação de serviços e execução de obras ligadas diretamente ao enfrentamento dos impactos causados pelas chuvas.
Apesar disso, ainda não há detalhamento público consolidado sobre quanto foi gasto, quais empresas foram contratadas, quais serviços foram executados e quantas famílias efetivamente receberam os benefícios anunciados pela administração municipal.
Preocupação
Para o especialista em gestão pública Helder Mello, a falta de transparência em um cenário de emergência preocupa porque justamente nesses períodos há flexibilização de procedimentos administrativos e aceleração de gastos públicos.
“Quando a Prefeitura decreta situação de emergência, ela passa a ter instrumentos legais para acelerar contratações e gastos. Isso exige, automaticamente, um nível ainda maior de prestação de contas à sociedade”, afirma.
Segundo ele, a atual gestão municipal apresentou queda no Radar da Transparência Pública 2025. Belém deixou a categoria Diamante e passou para Prata, com redução do índice de 95,77% em 2024 para 76,91% em 2025.
“Esse recuo significa, na prática, menos acesso da população aos dados públicos, menos fiscalização social e mais dificuldade para acompanhar como o dinheiro está sendo aplicado”, destaca.
Direitos
Helder Mello afirma ainda que a ausência de informações detalhadas pode representar afronta ao princípio constitucional da publicidade e à Lei de Acesso à Informação. “A população tem o direito de saber quem foi contratado, quanto foi gasto, quais serviços foram executados e quais bairros foram beneficiados”, diz.
O especialista ressalta que a dispensa de licitação não elimina a obrigação da Prefeitura de divulgar imediatamente contratos, valores e justificativas administrativas. “Em situações emergenciais, a transparência precisa ser imediata. O fato de existir dispensa de licitação não elimina o dever de publicar contratos, valores, empresas contratadas e critérios adotados pela gestão”, afirma.
Além da questão financeira, Helder Mello destaca que Belém enfrenta um problema estrutural histórico relacionado ao saneamento básico e drenagem urbana. Dados do Instituto Trata Brasil apontam que a capital paraense permanece entre as cidades com piores índices de saneamento do país.
“O alagamento em Belém não é apenas um problema climático. É também consequência de décadas de deficiência em saneamento, drenagem urbana e planejamento”, conclui.
Posicionamento
A reportagem do Grupo Liberal entrou em contato com o Ministério Público do Estado do Pará (MPPA) e com o Tribunal de Contas dos Municípios do Pará (TCM-PA) para que os órgãos se manifestassem sobre a falta de transparência relacionada aos gastos emergenciais da Prefeitura de Belém e esclarecessem quais providências vêm sendo adotadas diante da situação, mas não houve retorno até o fechamento desta reportagem. A Prefeitura de Belém também foi procurada, mas não se manifestou até o momento.
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