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O cemitério e o medo: como as histórias de assombração falam sobre o Guamá

Na Barão de Mamoré, atrás da necrópole de Santa Isabel, comunidade se afirma como corajosa

Valéria Nascimento

Vozes, gritos e passos ouvidos em lugares onde ninguém mais vive. Histórias de assombração em torno de cemitérios são comuns. Ao redor da necrópole de Santa Izabel no bairro do Guamá, em Belém, não é diferente. Mas esta semana, um anúncio inusitado viralizou nas redes sociais, pelo conteúdo da propaganda feita pelo suposto dono ou dona do imóvel, que oferecia o aluguel de uma residência na avenida Barão de Mamoré – uma das ruas do quadrilátero onde fica o cemitério -, por R$ 600, destacando que a casa era "ideal para quem tem fé", por ser assombrada. O anúncio chamou atenção até da gigante do streaming Netflix, que cogitou [de brincadeira] que Belém fosse cenário para a terceira de temporada da série de terror que lançará ainda este ano.

A redação integrada de O Liberal foi à avenida do Guamá, mas não encontrou a casa, nem a placa de aluguel, muito menos a suposta proprietária ou o virtual proprietário. Os moradores da avenida Barão de Mamoré disseram que tudo pode ter sido uma grande brincadeira. E o curioso é que alguns não se furtaram em colocar o medo no seu devido lugar.

'Temos medo é dos vivos', dizem moradores  


Na Barão de Mamoré, a comunidade se afirma como corajosa. Se tem algo que incomoda a todos é a insegurança pública e as mazelas da vida. Todos os ouvidos, à unanimidade, disseram ter medo dos vivos e não dos mortos. Eles também garantem que gostam do local onde moram e até consideram os vizinhos pessoas amáveis. No entanto, quase sempre há uma história de fantasmas rondando no ar.

"Isso é lenda urbana para nós, moradores'', diz sobre o anúncio da casa assombrada o servidor público municipal e microempreendedor individual, Eduardo Benigno, 40 anos, nascido e criado na avenida Barão de Mamoré, ao lado do cemitério de Santa Izabel.

Benigno: nascido e criado ao lado do Santa Izabel (Cristino Martins / O Liberal)

 

Benigno garantiu que em sua residência nunca se viu nada estranho, mas admitiu ter ouvido histórias na vizinhança sobre ruídos sobrenaturais, como choros e gritos, provenientes do Wanda's Bar, na Passagem Jambu, cujo prédio permanece fechado e às escuras desde a execução brutal de 11 pessoas, por um grupo de milicianos armados, em 19 de maio de 2019.

O crime que é considerado a maior chacina num único lugar registrada em Belém. A Passagem Jambu corta a avenida Barão de Mamoré, relativamente próximo à casa de Eduardo Benigno.

Delegacia mudou por causa das visagens 


Tranquilo e satisfeito por ser dono da casa pertencente há décadas à sua família, Benigno recordou situações embaraçosas na vizinhança. Ele conta que, antigamente, bem em frente ao imóvel funcionou o antigo necrotério do cemitério de Santa Izabel, capelinha onde havia as necrópsias, antes mesmo da criação do Instituto Médico Legal (IML). 

Com os anos, o governo estadual criou o IML e o instalou no local. Após a transferência para uma área próxima ao Estádio do Mangueirão, no bairro do Benguí, há cerca de 20 anos, no mesmo lugar foi instalada a Seccional do Guamá, mas a delegacia ficou ali por pouco tempo, segundo o morador, por causa de aparições fantasmagóricas.

"Os presos ficavam na carcerária, apanhavam e não sabiam de quem. Os próprios funcionários escutavam e presenciavam fenômenos paranormais, eles também apanhavam de noite sem saber de quem, escutavam vozes e não sabiam de quem era, gritos, e, por esse motivo, prepararam um relatório e a Seccional saiu daqui e foi lá para frente da UFPA, (na avenida Perimetral) e o Hospital Barros Barreto assumiu esse espaço'', relata Eduardo Benigno.  

"Os presos ficavam na carcerária, apanhavam e não sabiam de quem. Os próprios funcionários escutavam e presenciavam fenômenos paranormais. Também apanhavam de noite sem saber de quem. Escutavam vozes, gritos. Prepararam um relatório e a Seccional saiu daqui e foi lá para frente da UFPA, na avenida Perimetral'', conta Eduardo Benigno

Ele também lembra que, aos 14 anos, brincava de se esconder com alguns colegas de rua no cemitério. Os adolescentes viram quando uma senhora, de preto, passou por eles. 

"Não estranhamos nada nela, nem a roupa. O problema é que, em seguida, ela sumiu, aquilo era impossível, não tinha como ela desaparecer num lugar reto minutos depois de passar por nós. Eu lembro ainda hoje, mas além disso nada mais me aconteceu'', disse o servidor municipal.

De formação católica e com conhecimento da doutrina espírita, o morador conta que adeptos de religiões de matrizes africanas fazem seus rituais dentro do próprio cemitério de Santa Izabel, e inclusive na frente do antigo IML. “Talvez pessoas que não saibam o que está acontecendo ou que escutam barulhos (dos rituais) possam assimilar isso como assombração’’, avalia o morador. 

"Uma senhora de preto passou. Não estranhamos nada nela, nem a roupa. O problema é que, em seguida, ela sumiu. Aquilo era impossível, não tinha como ela desaparecer num lugar reto minutos depois de passar por nós. Eu lembro ainda hoje, mas além disso nada mais me aconteceu''

Anúncio ainda é mistério 


Quanto à casa do anúncio que viralizou nas redes sociais, Eduardo acredita que tanto pode ser uma brincadeira de mau gosto ou até alguma artimanha. “Será que não tem uma questão financeira por trás desse proprietário? De repente, a casa é herança familiar e por não querer alugar, um dos donos fez isso (o anúncio). Agora isso realmente mexe com o imaginário das pessoas’’, pondera Benigno.

Próximo à casa dele, mora a família Sabádo, proprietária de cinco imóveis no entorno do cemitério de Santa Izabel, dois dos quais com grandes placas de aluguel afixadas. Um é uma residência em reforma; outro, o térreo de um ponto comercial onde funcionava uma academia de ginástica, da própria família, fechada por causa da pandemia do novo coronavírus.

Nazaré Sabádo, 51 anos, foi categórica ao falar sobre a realidade do bairro. "Eu moro aqui há 51 anos, é tranquila a nossa Barão, nossos vizinhos são amáveis. Aqui é ótimo. Na verdade, a gente tem medo de ladrão. Alguns se escondem dentro do cemitério e costumam assaltar nas paradas de ônibus e pular para dentro do cemitério. Isso ainda é comum por aqui ao meio-dia, após o almoço e de noitinha. Mas visagem isso não existe''.

"Eu moro aqui desde que nasci. É tranquila a nossa Barão. Nossos vizinhos são amáveis. Aqui é ótimo. Na verdade, a gente tem medo é de ladrão. Alguns se escondem dentro do cemitério e costumam assaltar nas paradas de ônibus, e pular para dentro do cemitério. Isso ainda é comum por aqui ao meio-dia, após o almoço e de noitinha. Mas visagem isso não existe'', diz dona Nazaré Sabádo, de 51 anos

No Wanda's Bar, velas e choro


Irmã de Nazaré, Maria Conceição Sabádo de Souza, 54 anos, mãe de três filhos, incluindo Diego Sábado, (que participou do programa global BBB 2018), levantou outra razão para o anúncio despropositado de aluguel da casa com assombrações.

"Nunca, nunca vimos nada a não ser as histórias que têm da ‘moça do táxi’. Já morei em frente ao cemitério, na avenida José Bonifácio, agora estou aqui atrás, com o meu pai, na avenida Barão de Mamoré e, quando eu morrer, eu vou para o meio do Santa Izabel. Sabe-se lá o que queria essa pessoa que criou esse anúncio. Pode ter sido só brincadeira. Às vezes, é inveja de quem tem casas para alugar'', disse Maria Conceição, cujo imóvel para locação é espaçoso, custando R$ 2.200 por mês. 

Cecília Sabádo, outra irmã da família, contou que ouve na vizinhança que os proprietários do Wanda's Bar querem vender o prédio, mas não conseguem compradores. "As pessoas contam que ouvem gritos vindos de lá, choros, à noite, o pessoal acende velas'', impressiona-se Cecília.

Belém
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