Microplásticos são encontrados pela primeira vez em girinos da Amazônia, revela UFPA
Pesquisa inédita realizada no Parque Ecológico do Gunma, em Santa Bárbara do Pará, revela contaminação em área considerada preservada e acende alerta ambiental
Uma descoberta inédita feita por pesquisadores da Universidade Federal do Pará (UFPA) acendeu um alerta sobre os impactos da poluição plástica na Amazônia. Pela primeira vez, um estudo identificou a presença de microplásticos em girinos encontrados no Parque Ecológico do Gunma, em Santa Bárbara do Pará, na região metropolitana de Belém. A pesquisa mostra que até mesmo áreas consideradas relativamente preservadas já sofrem os efeitos da contaminação causada pela ação humana e reforça a preocupação sobre os impactos ambientais e os possíveis riscos para a cadeia alimentar, incluindo seres humanos.
Os girinos são a fase larval dos anfíbios anuros. Esse grupo que inclui sapos, rãs e pererecas. Eles vivem os primeiros estágios da vida na água antes de passarem pelo processo de metamorfose. Justamente por dependerem diretamente dos ambientes aquáticos, esses animais são considerados importantes indicadores da qualidade ambiental. O principal diferencial da pesquisa está justamente no local da descoberta. Em geral, estudos sobre microplásticos costumam registrar maior contaminação em áreas urbanas ou locais com intensa presença humana.
No entanto, os girinos analisados foram encontrados em uma área de baixa atividade antrópica e relativamente preservada da Amazônia. Os pesquisadores explicam que os microplásticos são considerados poluentes “onipresentes” - ou seja, já estão espalhados praticamente em todos os ambientes do planeta. Estudos já identificaram essas partículas no ar, na água, nos oceanos e até no corpo humano, incluindo sangue, leite materno e cérebro.
Além do registro inédito em girinos amazônicos, o grupo de pesquisa também já identificou a presença de microplásticos em anfíbios adultos da região, demonstrando que a contaminação acompanha os animais em diferentes fases da vida. O estudo foi desenvolvido a partir da dissertação de mestrado da pesquisadora Fabrielle Araújo, licenciada em Ciências Biológicas, mestre em Ecologia pela UFPA e atualmente doutoranda no Programa de Ecologia Aquática e Pesca da universidade. Ela integra o Laboratório Multidisciplinar de Morfofisiologia Animal (LAMMOA) e o Grupo de Pesquisa em Histologia de Espécies Aquáticas (GPHEA), que desenvolvem pesquisas com peixes, ostras, camarões, mexilhões e anfíbios.
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Resultado surpreendeu pela intensidade
Ela explicou que as coletas ocorreram em abril de 2025, em cinco corpos d’água temporários formados pela água da chuva dentro do Parque Ecológico do Gunma. Os pesquisadores coletaram girinos e amostras da água onde os animais viviam. Ainda em campo, identificaram as espécies e os diferentes estágios de desenvolvimento dos organismos. No laboratório, os pesquisadores utilizaram um sistema de filtragem com bomba a vácuo e filtros de membrana capazes de reter partículas microscópicas. Depois, o material foi analisado em microscópio para identificar forma, cor, tamanho e confirmar se as partículas encontradas eram realmente plásticas.
Embora os cientistas já imaginassem a possibilidade de contaminação, o resultado surpreendeu pela intensidade. Ainda segundo Fabrielle Araújo, a equipe não esperava encontrar níveis tão elevados de microplásticos em uma área considerada preservada. A hipótese levantada pelos pesquisadores é que a contaminação esteja relacionada tanto às características dos corpos d’água temporários - que possuem baixa renovação hídrica e maior capacidade de acumular contaminantes - quanto às atividades humanas desenvolvidas no entorno do parque.
Os microplásticos podem surgir da fragmentação de materiais maiores, como garrafas PET, sacolas e embalagens plásticas. Também podem ser liberados por fibras de roupas sintéticas durante a lavagem ou ainda serem produzidos para compor cosméticos, hidratantes e produtos esfoliantes. Com o tempo, esses materiais passam por um processo chamado “intemperismo”, provocado por fatores físicos, químicos e biológicos, que fragmenta o plástico em partículas cada vez menores até se transformarem em microplásticos invisíveis a olho nu.
Os pesquisadores destacam que até pequenas comunidades podem contribuir para a contaminação ambiental por meio do descarte inadequado de resíduos sólidos próximos aos corpos d’água. Outro fator que preocupa é que essas partículas podem ser transportadas pelo vento e pela chuva, alcançando áreas distantes das fontes originais de poluição. A pesquisa também identificou que os girinos menores e em estágios iniciais de desenvolvimento apresentaram níveis mais altos de contaminação. A hipótese é que isso esteja relacionado à intensa atividade alimentar necessária para sustentar o crescimento e a metamorfose.
Microplásticos podem causar alterações no DNA, diz pesquisadora
Fabrielle Araújo disse que os efeitos da contaminação preocupam porque os microplásticos podem causar alterações no DNA, danos intestinais, alterações sanguíneas e morfológicas, além de possíveis impactos no sistema nervoso e no comportamento dos animais. Em casos mais graves, as partículas podem provocar obstrução intestinal, impedir a absorção de nutrientes e levar os organismos à morte. Segundo os pesquisadores, a perda dos girinos ainda na fase larval compromete a formação de indivíduos adultos e ameaça a continuidade das futuras gerações de anfíbios.
Outro ponto de preocupação é o avanço dos microplásticos pela cadeia alimentar. Um animal contaminado pode ser ingerido por outro, fazendo com que essas partículas se acumulem em diferentes espécies. Isso significa que peixes, aves e outros animais podem consumir organismos contaminados e, futuramente, também serem ingeridos por seres humanos. Os cientistas destacam que os anfíbios funcionam como importantes “biomonitores” ambientais, capazes de indicar a qualidade do ambiente onde vivem. Assim, mesmo que as pessoas não consumam diretamente esses animais, a presença de microplásticos nos girinos revela que o ambiente ao redor já está contaminado.
Segundo os pesquisadores, a investigação ainda está em fase inicial. Até o momento, o estudo confirmou a presença dos microplásticos nos organismos analisados. A próxima etapa será identificar os efeitos diretos dessa contaminação nos anfíbios amazônicos. Diante da descoberta, acrescentou Fabrielle Araújo, os pesquisadores defendem a ampliação do monitoramento ambiental na Amazônia e ações permanentes de conscientização sobre o descarte correto de resíduos sólidos. Para a equipe, o estudo representa um importante alerta: até áreas consideradas preservadas da Amazônia já sofrem os efeitos da poluição plástica produzida pela atividade humana.
O que foi descoberto?
Pesquisadores da Universidade Federal do Pará identificaram, pela primeira vez, a presença de microplásticos em girinos na Amazônia.
Onde ocorreu a pesquisa?
No Parque Ecológico do Gunma, em Santa Bárbara do Pará.
Por que a descoberta preocupa?
Porque os animais contaminados foram encontrados em uma área considerada relativamente preservada, mostrando que a poluição plástica já alcança até ambientes com baixa atividade humana.
O que são microplásticos?
Pequenas partículas de plástico geradas pela fragmentação de garrafas, sacolas, embalagens, roupas sintéticas e produtos cosméticos.
Quais os impactos nos animais?
Os microplásticos podem causar alterações no DNA, problemas intestinais, mudanças morfológicas, dificuldade de absorção de nutrientes e até a morte dos organismos.
Por que os girinos são importantes?
Os anfíbios são considerados “biomonitores” ambientais, ou seja, ajudam a indicar a qualidade do ambiente onde vivem.
Há risco para outros animais e humanos?
Sim. Os microplásticos podem avançar pela cadeia alimentar, contaminando peixes, aves e outros organismos que podem ser consumidos por seres humanos.
O que os pesquisadores defendem?
Ampliação do monitoramento ambiental e ações de conscientização sobre o descarte correto de resíduos sólidos na Amazônia.
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