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Desconstruir o estereótipo de beleza é uma bandeira de muitas mulheres

Vanessa Van Rooijen

"Não é fácil ser mulher nesse mundo cheio de cobranças, de origem desigual, que distorce valores e acrescenta cada vez mais tudo o que é desnecessário". Essa é a afirmação da socióloga Rachel Abreu sobre a definição do padrão de beleza imposto pela sociedade. Esse padrão afeta a vida das mulheres e é tema de diversas pesquisas. Um estudo realizado pelo Núcleo de Doenças da Beleza da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio), Universidade Veiga de Almeida e a marca Dove em 2016, mostrou que, no Brasil, 71% das mulheres se sentem pressionadas para serem perfeitas. Além disso, oito em cada dez das 4 mil mulheres entrevistadas, entre 18 e 64 anos, já evitaram um compromisso social por não se sentirem bem com o próprio corpo. A pesquisa mostrou ainda que 82% revelaram que gostariam de ver outros perfis de mulheres em campanhas, abrangendo etnias e faixas etárias, porque isso influencia. 

Segundo a socióloga, a forma física foi colocada ao longo da história a serviço de propósitos sociais, militares ou, por vezes, religiosos. Ela explica que cada época exigiu um perfil corporal com base na construção cultural. "Hoje vivemos a era da perseguição de um modelo de 'corpo perfeito'. O modelo ideal de beleza atual incentivado é extremamente controlador. Para 'ser' bonita é necessário estar jovem, magra, alta, mas olhando em nossa volta percebemos que é raríssimo alguém ter todas essas características, ou seja, o ideal de beleza ignora a diversidade de corpos e isso é altamente excludente e alienante", explica. 

A especialista afirma que a busca pela padronização pode gerar várias complexidades, desde a insatisfação pessoal até transtornos psicológicos e alimentares. "Mulheres ainda são avaliadas primeiro por sua aparência e não por suas atitudes e qualidades. Isso denota resquícios de uma sociedade desigual e de raízes patriarcais", afirma. Rachel acrescenta que hoje existem Declarações de direitos e ocorrem debates que são fundamentais no combate a todo tipo de discriminação contra as mulheres, objetivando findar o controle de padrões estereotipados de comportamento e práticas sociais e culturais baseados em conceitos de inferioridade ou subordinação", pontua.

A psicóloga Danielle Almeida acrescenta que ações como as citadas por Rachel contribuem para a elevação da autoestima das mulheres. "Quando falamos da autoestima, falamos da valorização da nossa imagem e amor próprio", afirma. A especialista explica que são lutas de anos para conquistas que muitas mulheres ainda travam até hoje, principalmente no mercado de trabalho. "Hoje você percebe que qualquer lugar é lugar para a mulher. Hoje ela está onde quer está. Isso acontece porque existe o amor próprio e a crença do próprio potencial. Vemos também muitas bandeiras que são levantadas contra a desigualdade e opressão. Hoje todas as lutas fazem a diferença e todas somos capazes de mudar a nossa história", afirma.  

ROMPENDO BARREIRAS

Maiara Carmona, 24, é bacharel em Direito, negra e em breve mãe. Ela acredita que os padrões de beleza são uma forma de prisão para a mulher, especialmente para as negras, por isso, o amor próprio é tão elevado e rompe qualquer preconceito. "Para a mulher negra a autoestima é revolucionária, faz nos sentirmos capaz de qualquer coisa. Quando uma mulher se sente bonita do jeito que ela é, ela enfraquece o sistema. Aprender a aceitar o seu biótipo e as mudanças naturais do corpo é um ato de liberdade. Afirmar-se negra é uma tarefa muitas vezes política e que vai exigir uma dedicação e contestação do modelo 'padrão' que foi ensinada a seguir", afirma.

Após 7 anos, quando Adrienne Souza perdeu a perna, tudo em sua vida mudou, menos a autoestima. A atleta usa prótese e afirma que isso não é motivo para ser tratada com inferioridade, mas sim para ser considerada ainda mais linda. "Perder a minha perna me fez ter ainda mais vontade de viver e mostrar para a sociedade 'dita normal' que deficiente não é inferior a ninguém. Nós podemos tudo! A deficiência está na cabeça das pessoas! Não existe padrão de beleza quando você se acha linda, se sente bem ao olhar no espelho e aceita seu corpo!", afirma. 

Adrienne Souza usa prótese e afirma que isso não é motivo para ser tratada com inferioridade (Arquivo Pessoal)

 

Yumi Liz, 26, é body piercing e tatuadora. Ela garante: "Sou bonita e o fato de ter nascido mulher me faz linda por natureza". Por ter grande parte do corpo tatuado, Yumi conta que já sofreu muito preconceito, mas isso não abala sua autoestima. Ela acredita que se houvesse respeito mútuo, os padrões de beleza não existiriam. "Antes eu sofria com os olhares e comentários, mas hoje eu me sinto muito bem e ignoro porque aprendi que eu me amo assim. Eu escolhi ser tatuada, sei do meu caráter e da minha luta como cidadã para sobreviver, por isso, acredito que toda mulher é linda. Todas somos rainhas, a mulher apenas com um sorriso salva o dia".   

BELEZA INTERNA

As mulheres que se aceitam priorizam não só a beleza de seus corpos e suas características estéticas, mas também a beleza interior. A arquiteta e urbanista, também modelo plus size, Ully Santalices, 24, acredita que não há nada mais marcante que os traços individuais. "Eu acredito que a representatividade vem surgindo cada dia mais, quando a mulher gorda, vê outra numa capa de revista; quando a negra, vê outra apresentando num grande jornal. Os paradigmas estão se quebrando aos poucos, a medida que nós mulheres, enxergamos que esse padrão criado é uma ilusão do que é ser bonito e conseguimos entender o quanto somos únicas e lindas justamente por não existir padrão", afirma. 

Da mesma forma acredita Marli Helena da Silva, aposentada, 65. Para ela a maior beleza que uma mulher possui e que pode transmitir está na força, a determinação e o caráter. "A beleza é individual, cada mulher possui suas características e é necessário que não sigamos o mercado da beleza que só serve, na maioria das vezes, para frustar as mulheres. Sejamos lindas principalmente por dentro. É isso que sempre conta!", conclui. 

Belém
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