Contra assédio no carnaval, campanha "Não é não" chega a Belém

Ação mobiliza capitais em todo o País: doações e atos marcarão dias de folia

Tainá Cavalcante

"Não é não!" Frase de efeito muito utilizada pelo movimento feminista, o termo "não é não" pode parecer óbvio, mas ainda precisa de muita luta para que seja, no mínimo, respeitado. A frase é um recado simples e claro de que, quando se diz "não" a alguém, quem o recebeu não deve insistir. Sua explicação é tão singela que pode parecer óbvia, mas ainda é tão necessária que precisou virar campanha nacional para obter espaço nas folias de carnaval do Brasil.

Tudo começou há dois anos, quando uma integrante de um coletivo feminista foi assediada em um carnaval no Rio de Janeiro ao ser segurada pelos braços após negar a investida de um homem. "Ela ficou incomodada com aquilo e compartilhou com as amigas. Nós percebemos que já tinha acontecido algo parecido com várias de nós e começamos a querer fazer alguma coisa. Como estava perto do Carnaval, e a gente sabe que no Carnaval estamos mais vulneráveis, porque comumente estamos mais no espaço público, com menos roupa e muitas vezes bebendo, ficou o desejo de fazer algo nesse período para levantar o debate em relação ao assédio e também criar uma rede de apoio entre mulheres", explica Luiza Campos, uma das idealizadoras da campanha "Não é não".

Campanha Não é Não: reação ao assédio no Carnaval (Divulgação)

Pensando no objetivo que queriam alcançar, o grupo de amigas resolveu confeccionar tatuagens temporárias com a frase "não é não" para distribuir gratuitamente para mulheres que participavam do carnaval do Rio de Janeiro. "A ideia era formar uma rede de apoio e identificação", diz Luiza, ao destacar que em 2017, primeiro ano do projeto, 4 mil tatuagens foram distribuídas.

"Em 2018 já distribuímos 26 mil tatuagens para seis estados brasileiros e agora, que estamos no terceiro ano, a estimativa é que a gente distribua mais de 100 mil tatuagens em nove estados do país", detalha a coordenadora, que avalia o resultado da campanha como extremamente positivo.

"Estamos fazendo um esquema que cada estado participante tem embaixadoras que levam a campanha para lá. Entendemos que regionalizar a campanha faria com que fôssemos mais efetivas na distribuição, chegaríamos a mais mulheres e locais" explica, ao ponderar que "estamos em 270% do ano passado, então eu acho que a ideia está funcionando muito bem".

Para ela, além do sucesso do alcance da campanha, se faz importante, principalmente, destacar a efetividade da mesma. "A gente recebe retorno de homens falando que entenderam com a campanha que a gente não quer que eles insistam. Mulheres falando também que agora se sentem mais seguras de curtir o carnaval, mais seguras no espaço público, mais conscientes do que fazer caso aconteça, como se posicionar, quem acionar, então acredito que estamos sendo efetivas na conscientização e na educação como um todo, que é nosso objetivo final", pondera Luiza.

Rede de apoio nacional começou com ajuda de tatuagens provisórias na folia (Divulgação)


A CAMPANHA

Quando começou a crescer, a campanha precisou ganhar novos braços articuladores. Para isso, em 2019, as organizadoras nacionais decidiram trabalhar com "embaixadoras" de cada região, que têm a função de mobilizar o Estado em que atuam para participar da campanha.

Com o aumento do alcance houve, é claro, o aumento na demanda das tatuagens. Para custear a produção e impressão das mesmas, assim como colocá-las nas ruas de forma organizada, a campanha aderiu a um sistema de financiamento coletivo, pelo qual pessoas de todo o Brasil podem colaborar com determinada quantia e receber recompensas por essa doação. As recompensas variam de acordo com o valor doado, ou seja, se você doa R$ 20, você recebe cinco tatuagens. Se doa R$ 25, ganha cinco tatuagens e um brinco. Homens colaboradores não recebem as tatuagens, apenas a outra recompensa, já que a ideia do projeto é a identificação, reconhecimento e conexão entre mulheres. 

De acordo com Luiza, a adesão à campanha é de suma importância, já que o projeto só sai às ruas se o valor mínimo para cada estado for atingido, sendo essa a única de iniciar a produção das tatuagens.

Números consolidados sobre casos de assédio ainda são desafio no Brasil (Divulgação)

"A gente sabe que para ser resistência não podemos estar sozinhas, então por isso temos uma rede de dez embaixadoras, mais de 100 blocos, 50 marcas e 1000 colaboradores unidos nas campanhas de financiamento espalhadas pelo Brasil", destaca Luiza Campos.

Ela ainda ressalta que, além da distribuição, o grupo pretende passar a movimentar projetos que ajudem no monitoramento e na notificação dos casos de assédio no país.

"A cultura que a gente tem, associada a ausência de políticas públicas, permitem que o assédio não seja visto como algo grave, como um problema no Brasil. Um exemplo disso é que a gente não consegue números sobre assédio, porque muitas vezes quando as mulheres procuram para denunciar, a situação é diminuída. Então o número que temos é subnotificado. Temos uma ausência de monitoramento da segurança pública sobre essa questão e, por isso, estamos com alguns projetos surgindo para tentar movimentar a criação de números e conseguir mensurar o tamanho do problema", explica.


NAS RUAS DE BELÉM

A "Não é não" deve entrar pela primeira vez, esse ano, nas ruas de Belém. A chegada da campanha à capital paraense depende somente do alcance de 100% da primeira meta estipulada para a produção de tatuagens, que é de R$ 3200. Até às 11h de sexta-feira, 25, o total arrecadado equivalia a 78% da meta.

Embaixadora da campanha na cidade das mangueiras, Carolina Aranha, 34, é paraense, mas mora há dez anos no Rio de Janeiro. Ela conta que conheceu o projeto ainda em 2017 e, desde então, tinha vontade de trazê-lo para Belém.

Carolina Aranha: rede local de apoio se fortalece na capital (Divulgação)

"Eu achava que ia ser muito bacana ter na região norte, porque nunca tinha tido. Fiz uma viagem para Belém e consegui, em 10 dias, montar uma rede local e comecei a dar andamento à campanha. Isso ocorreu em dezembro do ano passado, e colocamos no ar a campanha no Estado ainda naquele mês", ressalta Carolina.

De acordo com ela, a ideia de trazer o projeto para a capital paraense surgiu quando ela identificou que vários movimentos feministas estavam se formando na cidade. "As mulheres estão cada vez mais na luta pelos seus direitos, mais empoderadas, estão buscando o lugar que realmente é delas e vendo todo esse movimento na minha cidade eu quis levar essa campanha para reforçar o quão a luta contra o assédio é importante", pondera.

Quanto a aceitação da cidade, Carolina avalia como positiva e diz que a procura tem sido grande. "As pessoas estão empolgadas. Ainda não tive nenhum retorno negativo, nenhum questionamento duvidoso" afirma, ao estimar que até a próxima semana a primeira meta já foi batida. "Caso consigamos alcançar essa meta, produziremos mil tatuagens que serão distribuídas no pré-carnaval e carnaval de Belém".

A embaixadora ainda explica que a campanha de todos os estados tem três metas a serem batidas. "O ideal é que a gente consiga bater a meta o quanto antes para poder já mandar fazer as tatuagens e enviar para Belém. Acredito que no dia 02 de fevereiro alguns blocos já vão ter" estima.
Entre as recompensas de Belém estão acessórios, sandálias, quadros, camisas e até um voucher para um restaurante do Combu. Veja aqui todas as recompensas, que são doadas por empresas parceiras ou "vendidas" a preço de custo, e mais informações sobre a campanha.


RECONHECIMENTO E CONEXÃO

A luta contra o assédio é de todas as mulheres e no processo de empoderamento feminino, muitas passam a se reconhecer e estabelecer conexões. Estimulados pela campanha "Não é não", um grupo de universitários do curso de Design da Universidade do Estado do Pará (Uepa) do campus Paragominas criou uma espécie de linha de produtos com fantasias, latinhas, copos e tirantes, que fazem referência à campanha nacional.

Professora do curso, Larissa Buenano explica que "a partir das problematizações da disciplina Estética aplicada ao design, a equipe que resolveu fazer a aplicação da campanha "Não é não" em produtos e direcionamos as melhores estratégias de midiatização e de consumo no carnaval". Ela ressalta que o grupo criou camisas, tirantes, copos e até campanhas publicitárias hipotéticas, "para trazer o debate para dentro da sala de aula, para falar de respeito e liberdade das mulheres".

Estudantes da UEPA confeccionam produtos para a campanha (Divulgação)
Ação do Não é Não financia redes contra assédio no Carnaval (Divulgação)

Quem também puxou o debate do assédio em outros locais foi a influenciadora digital Natália Paixão. Publicitária, Natália realiza, no carnaval, postagens para seus seguidores do Instagram com dicas de fantasias e adereços carnavalescos por meio da hashtag #NahFolia. Mas, no meio do conteúdo diversificado e divertido, ela decidiu abrir espaço e levantar o debate sobre o assédio.

 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 

O bloco tá batendo na porta, pra chamar todo mundo pra rua, mas INFELIZMENTE, eu e todas as minas precisamos lembrar que #NÃOÉNÃO. 🚫 . Se liga nesse pequeno manual de como não ser um babaca 👇🏼 1- Não puxe a gata pelo braço, pelo cabelo ou por onde vc achar que deve; 2- Pergunte se ela quer ficar com você. Caso a resposta seja “não”, bloco que segue! 3- Não beije ninguém a força e não grite “BEIJA BEIJA” se a mana não quiser, pq ela não é obrigada a NA-DA; 4- Se você ver alguém sendo idiota, intervenha, peça ajuda, não deixa a mina na mão, mesmo que vc não conheça; 5- Nosso corpo, nossas regras! Ninguém tá pedindo nada, então não saia pegando na gente como bem entender. . . O que mais vocês acrescentariam? Vamo fazer desse post um momento perfeito de conscientização, pra fazer desse carna, o melhor! 💖 . 📸: @mairahnrqs

Uma publicação compartilhada por Natália Paixão (@nataliapaixao) em

"Eu sempre gostei muito do carnaval, comecei a frequentar aos 18 anos, e sempre gostei de compartilhar as dicas, mas é importante a gente falar sobre o assédio, porque, apesar de ser triste dizer isso, é algo ainda mais comum no carnaval, nos blocos, muitas pessoas querendo se aproveitar da situação e das fantasias das mulheres que usam. Por isso, é muito importante dizer que a fantasia não é um convite para nada. Ninguém tem o direito de invadir o meu espaço, que é o meu corpo, então é muito importante falar, mesmo sendo algo tão óbvio, 'não me pega, não me puxa, não me empurra, não me beija' ", relata.

Ela conta que, apesar de conhecer a campanha desde 2017, colaborou pela primeira vez esse ano, ao saber que o projeto estava chegando em Belém. "Se as pessoas invadem o nosso corpo, é muito forte a gente ter pregado na nossa pele o "não é não", porque é uma luta no meio da festa. A colaboração pode ser a partir de R$ 10 e será algo muito significativo".

 
ALERTA

A embaixadora Carolina aproveitou a oportunidade para lembrar que o crime do assédio sexual é comum o ano inteiro e em todos os períodos, mas é intensificado durante o carnaval, principalmente pela falsa sensação de que “tudo é permitido”.

"A mensagem "Não é Não!" é simples, objetiva e direta, mas ainda muito necessária. Os números são alarmantes: aconteceram 135 estupros, em média, em 2016. Somente em 2017, uma mulher foi agredida a cada quatro minutos durante o carnaval carioca e no primeiro semestre de 2018 a Central de Atendimento à Mulher em Situação de Violência, recebeu 73 mil denúncias, através do telefone 180" alerta.

Belém
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