Conheça a história de Nilson, que resolveu pedir emprego nos sinais de Belém

Aos 29 anos, venezuelano procura oportunidade de trabalho para qualquer área

Tainá Cavalcante / Redação Integrada

Você certamente já viu a foto desse homem na internet, não é? Nos últimos dias, a imagem tem viralizado nas redes sociais e movimentado inúmeros internautas, que compartilham o conteúdo incessantemente.

Resolvemos ir atrás dessa história e descobrimos que a foto foi tirada na avenida João Paulo II com a travessa Lomas Valentina, no bairro do Marco, em Belém. Quem está por trás da placa é o venezuelano Nilson José, de 29 anos, que chegou ao Brasil em maio de 2018 e, há três semanas, desembarcou em Belém.

Em sua mala, Nilson já carrega identidade, CPF (Cadastro de Pessoa Física), Carteira de Trabalho e o protocolo de imigração. A história de sua vida e o seu esforço por um emprego, porém, é o que mais pesa na bagagem.

“Eu trabalhava mesmo com pesca, gosto muito de pescar, mas na Venezuela estava muito difícil. Já não se conseguia comida, a água já batia no nosso joelho e não tinha mais peixe. Acabou tudo. Comida, gasolina e até a água” conta Nilson, que também já trabalhou em uma padaria e como vigilante.

Segundo ele, os cargos antigos, agora, não precisam limitar as oportunidades. “Qualquer trabalho me ajuda. O que eu quero é trabalhar para ajudar a minha mulher e filho, que estão comigo” desabafa, ao reforçar que pode trabalhar “no que for, que eu vou me esforçar para aprender”.

Logo que chegou na capital paraense, Nilson resolveu ir para os sinais de trânsito pedir por emprego. Em suas mãos, uma placa de papelão erguida a cada sinal fechado e um número de contato escrito com caneta pincel atômico. Ao ver a situação, o vigilante Adeilson Amorim resolveu ajudar.

“Fiz uma placa mais visível, com um material mais resistente e escrita com tinta, e coloquei o meu contato, porque o número de antes era de outro venezuelano e ele quase não atendia. Como eu falo português, fica mais fácil até de conversar e conseguir o emprego para ele” explicou Amorim.

Para Nilson, a ajuda do vigilante veio em um momento crucial. “Andar por aí, na rua, é muito difícil, então eu estou procurando trabalho. Quando cheguei a Belém, não consegui emprego e com a placa já recebemos ligações” diz.

Apesar das inúmeras ligações que chegaram ao celular de Adailson depois que a foto de Nilson começou a circular nas redes sociais, nenhuma proposta de emprego foi concretizada. Só a repercussão, porém, já deixa Nilson esperançoso. “Fiquei sabendo que tinha muita gente compartilhando e eu só posso dizer obrigado e que fiquei feliz com o povo paraense”.

Além de Adeilson, o também vigilante Alexandre Silva tem ajudado na busca de emprego para Nilson. Ambos são membros da Assembleia de Deus e reforçam que “é isso que a igreja prega, o cuidado ao próximo, então nos sensibilizamos com a história dele e agora, depois da matéria, a gente espera que ele consiga algo, que alguma proposta se concretize”.

A RELAÇÃO COM O BRASIL E COM BELÉM

Apesar das dificuldades que atravessam a vinda de Nilson às terras brasileiras, ele é enfático ao destacar que “não podemos dizer que o Brasil não nos ajuda”.

“Nos ajuda, sim, e muito! Por isso sempre digo muito obrigado a Deus e ao Brasil, que são pessoas boas que nos ajudam. Nos dão comida, lugar para dormir. Então muito obrigada a Deus, porque acredito que, se nós caímos, podemos levantar outa vez” declara.

Além de Nilson, cerca de 30,8 mil venezuelanos, segundo estatísticas de agosto de 2018 do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), estão vivendo no Brasil. Destes, aproximadamente 10 mil cruzaram a fronteira somente nos seis primeiros meses de 2018.

A principal porta de entrada dessa população no Brasil tem sido Roraima. Segundo o IBGE, 99% dos imigrantes estão na cidade fronteiriça de Pacaraima e, também, na capital Boa Vista. O número de venezuelanos na região é tão alto que estimativas indicam que o total de imigrantes vivendo em Roraima corresponde a mais de 8% do total de habitantes da capital.

Apesar de não apresentar dados tão extremos como Roraima, Belém está entre os cinco municípios que mais tem recebido indígenas venezuelanos. Para a capital paraense estão migrando, majoritariamente, os da etnia Warao. Segundo a Fundação Papa João XXIII (Funpapa), 500 indígenas da etnia vivem em Belém.

ENTENDA A CRISE DA VENEZUELA

A crise econômica, política e social que assola a Venezuela tem se arrastado ao longo de anos. Desde o final do governo de Hugo Chávez, e intensificando-se na atual presidência de Nicolás Maduro - em virtude, principalmente, da queda dos preços do petróleo no começo de 2015 - o país tem passado dias de extrema dificuldade, com pobreza e violência latentes.

Dados oficiais apontam, por exemplo, que em 2016 a inflação do país foi de 800%. Além disso, uma pesquisa indicou que 75% da população, em média, perdeu 8,7 kg por conta da falta de alimentação adequada. A taxa de homicídios também assusta. Segundo o Observatório Venezuelano de Violência, em 2015, o número de homicídios foi de 90 por 100 mil habitantes, sendo o limite considerado tolerável pela ONU de 10 por 100 mil.

Sem vislumbrar caminhos para melhora e assustados com a realidade que vivenciam piorar dia após dia, venezuelanos passaram a fugir do país, na tentativa de se livrar da crise, por países vizinhos, que fazem fronteira com o de origem e o Brasil é um desses países.

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