Belém tem a segunda maior frota de veículos da Região Norte e enfrenta desafios no trânsito

No recorte estadual, o Pará lidera o ranking; os dados reforçam um cenário de crescimento contínuo da frota, acompanhado por problemas estruturais no trânsito

Fernando Assunção (Especial para O Liberal) e Gabriel Pires

Belém encerrou dezembro de 2025 como a segunda cidade com a maior frota de veículos da Região Norte, totalizando 592.409 veículos, ficando atrás apenas de Manaus, que registrou 1.007.228. No recorte estadual, o Pará lidera o ranking da Região Norte, com 3.028.300 veículos, superando Rondônia (1.295.415) e Amazonas (1.279.847). Os dados da Secretaria Nacional de Trânsito (Senatran).

Além de Belém, o Pará aparece com força no levantamento, com sete municípios paraenses entre as 20 cidades com maior número de veículos da Região Norte. Ananindeua ocupa o 8º lugar, com 208.133 veículos; Marabá, o 9º, com 167.893; Parauapebas aparece em 11º (159.397); Santarém em 12º (149.567); Castanhal em 13º (118.714); Redenção em 18º (88.238); e Altamira em 19º, com 82.671 veículos.

Os números incluem o conjunto completo da frota em circulação, com automóveis, motocicletas, caminhonetes, ônibus, caminhões e demais tipos de veículos. No comparativo com o mesmo período no ano anterior, o Pará apresentou um crescimento expressivo na frota de veículos. Em dezembro de 2024, o estado contabilizava 2.810.011 veículos. O número teve um acréscimo de 218.289 veículos em 2025, subindo para 3.028.300, um aumento de 7,8%. 

Belém também registrou expansão da frota: passou de 560.966 veículos em dezembro de 2024 para 592.409 em dezembro de 2025, um aumento de 31.443 veículos, correspondendo a um crescimento de cerca de 5,6%.

Os dados colocam o estado em posição de destaque no ranking regional e reforçam um cenário de crescimento contínuo da frota, acompanhado por problemas estruturais no trânsito. Para quem utiliza esses meios de locomoção, o aumento do número de veículos é sentido, com reflexo direto na produtividade, no bolso e no tempo perdido no trânsito. A situação é agravada nos horários de pico e nos dias mais chuvosos do inverno amazônico.

Sobre as medidas de enfrentamento à alta de veículos na capital, o Grupo Liberal solicitou um posicionamento à Secretaria Municipal de Segurança, Ordem Pública e Mobilidade de Belém (Segbel) sobre as medidas de organização viária diante disso. A reportagem aguarda retorno.

Crescimento acelerado acende alerta

O especialista em gestão e segurança do trânsito, Wender Morais, destaca que o Pará vem registrando um crescimento vertiginoso da frota veicular nos últimos anos. Para o especialista, esse avanço acelerado acende um alerta para os órgãos responsáveis pelo planejamento urbano, expansão territorial, uso e ocupação do solo e mobilidade. “O reforço da sinalização viária é uma intervenção muito necessária e o controle e a operação de trânsito em conjunto com as tecnologias de vídeo monitoramento que existem”, analisa. 

“Mas também com a operação de trânsito na via a partir dos agentes da autoridade de trânsito, porque isso faz com que o cidadão adquira mais confiança na prestação do serviço público e o serviço é realizado com mais efetividade diariamente. Isso transmite uma mensagem para o cidadão de que a gestão pública está de olho no problema, está acompanhando o problema e está intensificando os esforços para poder fazer frente à problemática enfrentada ali no dia a dia”, acrescenta Morais.

Ponto crítico

Morais observa ainda que esse cenário indica uma aproximação de um ponto crítico de saturação, o que exige atenção redobrada do poder público. O especialista enfatizou a importância de otimizar o planejamento urbano para antecipar demandas, organizar melhor o trânsito e reduzir riscos decorrentes do crescimento acelerado do número de veículos, além de ampliar a educação no trânsito.

“Na linha de ação de planejamento,é interessante que os órgãos públicos, cada vez mais, adotem o uso de outras alternativas de circulação, de mobilidade urbana e mobilidade ativa, para desincentivar o cidadão ao utilizar o seu veículo próprio. Porque o mercado também tem se reinventado e criado oportunidades para que as pessoas possam adquirir os veículos próprios e fazer cada vez mais uso dele. Isso até tem uma relação com a questão do status”, analisa Wender. 

Prudência

Nessa crescente de veículos nas ruas, o especialista ainda destaca que é necessário mais paciência e prudência no trânsito. “E que os condutores que possam cada vez mais adotar os princípios de cidadania no trânsito, praticar as técnicas de direção defensiva, obedecer as regras de circulação e conduta do código de trânsito para que não se envolva no sinistro como causador ou como vítima. Nós queremos o bem-estar de toda a população, mas a população também tem a sua parcela de responsabilidade nesse processo”, ressalta.

Entre as demais dicas: “Manter distância do veículo da frente; manter atenção no trânsito e evitar manusear smartphones ou alguma tela do veículo; dirigir em uma velocidade compatível com a segurança no trânsito, de modo que se vier a se deparar com algum risco ou perigo de se envolver em sinistro de trânsito, a velocidade compatível é aquela que permite a pessoa evitar que o sinistro de trânsito aconteça”.

image Para quem utiliza esses meios de locomoção, o aumento do número de veículos é sentido, com reflexo direto na produtividade, no bolso e no tempo perdido no trânsito (Foto: Ivan Duarte | O Liberal)

Crescimento da frota e impactos na mobilidade

O aumento do número de veículos em circulação tem sido percebido no dia a dia por quem depende do trânsito para trabalhar. Para o administrador e profissional da área de logística Cláudio Valente, o crescimento da frota não foi acompanhado pela expansão da infraestrutura viária.

“O carro é a minha arma de trabalho. O que a gente vê é um aumento considerável da frota dentro de Belém e pouca criação de vias de acesso. A produtividade cai porque o tempo parado no trânsito é muito grande”, afirma.

image Administrador e profissional da área de logística Cláudio Valente (Foto: Ivan Duarte | O Liberal)

Segundo ele, gargalos frequentes em vias que ligam Belém à Região Metropolitana, como a Avenida Almirante Barroso e a Rodovia BR-316, nos trechos entre Ananindeua e Marituba, agravam o problema, especialmente em dias de chuva, como os enfrentados atualmente, quando alagamentos tornam o tráfego ainda mais lento. Cláudio também destaca a falta de educação no trânsito e o alto custo do combustível como fatores que impactam diretamente o bolso dos trabalhadores.

“Não adianta só multar. É preciso investir em educação no trânsito, reestruturação viária e transporte público de qualidade. Senão, as pessoas vão continuar migrando para carros e aplicativos”, completa.

Motociclistas sentem os efeitos do congestionamento

Para quem trabalha sobre duas rodas, os congestionamentos também representam prejuízo. O motociclista de aplicativo Cláudio Alves relata que, mesmo com a maior mobilidade das motos, o trânsito intenso dificulta a rotina.

“Desde a BR até avenidas como Almirante Barroso e João Paulo II, tudo é muito engarrafado. Quanto mais tempo parado, mais corridas a gente perde e menos dinheiro entra”, explica.

image Motociclista de aplicativo Cláudio Alves (Foto: Ivan Duarte | O Liberal)

Ele observa ainda o aumento expressivo do número de motocicletas na capital e defende a ampliação de faixas exclusivas, como a existente na Avenida Pedro Álvares Cabral.

“Se tivesse faixa exclusiva em outras avenidas importantes, o trânsito poderia fluir melhor. Falta organização e presença mais efetiva da fiscalização, principalmente em semáforos com problemas”, afirma.

image Ele observa o aumento expressivo do número de motocicletas na capital (Foto: Ivan Duarte | O Liberal)

Os alagamentos em bairros periféricos como Guamá, Jurunas e Terra Firme também são apontados como obstáculos, sobretudo durante chuvas rápidas, que já são suficientes para comprometer a circulação.

Taxistas enfrentam longas horas no trânsito

O taxista Orlando Pires afirma que o crescimento da frota transformou completamente a dinâmica do trânsito em Belém. “Há 20 anos não tinha esse fluxo de veículos. A estrutura da cidade não acompanhou esse crescimento. Quando chove, tudo piora, e a gente passa horas parado”, relata.

Segundo Orlando, os horários de pico se estendem da manhã até a noite, passando pelo meio-dia e seguindo intensos até por volta das 21h. O impacto é direto no consumo de combustível, que pode chegar a até R$ 150 por dia em períodos chuvosos.

“Isso pesa no orçamento da família e também na tarifa do passageiro. Todo mundo sai perdendo”, conclui.

image Taxista Orlando Pires (Foto: Ivan Duarte | O Liberal)

Frota de veículos nos estados da Região Norte - Dezembro de 2025

Total: 7.551.191

1º Pará: 3.028.300

2º Rondônia: 1.295.415

3º Amazonas: 1.279.847

4º Tocantins: 973.613

5º Acre: 387.557

6º Roraima: 305.045

7º Amapá: 281.414

FONTE: SENATRAN
 

Frota de veículos nas cidades da Região Norte - Dezembro de 2025

1º Manaus (AM): 1.007.228

2º Belém (PA): 592.409

3º Porto Velho (RO): 346.796

4º Palmas (TO): 264.393

5º Boa Vista (RR): 262.264

6º Rio Branco (AC): 233.068

7º Macapá (AP): 215.772

8º Ananindeua (PA): 208.133

9º Marabá (PA): 167.893

10º Araguaína (TO): 161.916

11º Parauapebas (PA): 159.397

12º Santarém (PA): 149.567

13º Castanhal (PA): 118.714

14º Ji-Paraná (RO): 117.476

15º Ariquemes (RO): 95.132

16º Cacoal (RO): 88.807

17º Vilhena (RO): 88.698

18º Redenção (PA): 88.238

19º Altamira (PA): 82.671

20º Gurupi (TO): 80.757

FONTE: SENATRAN

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