Belém não tem orelhões em funcionamento, mas aparelhos inabilitados lembram o passado da cidade
Em todo o Pará, ainda existem mais de 900 orelhões em operação, instalados principalmente em áreas com menor cobertura de telefonia móvel
O Pará ainda concentra 905 orelhões instalados, segundo dados da Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel), mas a capital paraense já não conta com nenhum telefone público em funcionamento. De acordo com a autarquia, todos os equipamentos existentes em Belém foram retirados entre 2024 e 2025. Entretanto, a reportagem de O Liberal flagrou alguns aparelhos inabilitados na cidade, que ajudam a contar a história de seus habitantes.
Grandes cascos que imitam o órgão da audição - daí o nome “orelhão” - pichados e com telefones arrancados são as ruínas de um passado em que esses equipamentos eram o principal meio de comunicação nas cidades. O cenário pode ser visto em pontos como a Travessa Djalma Dutra, em frente ao campus da Universidade do Estado do Pará (Uepa), e na Avenida Generalíssimo Deodoro, nos arredores da Santa Casa de Misericórdia.
Por outro lado, essas verdadeiras relíquias ainda podem ser encontradas em estado mais preservado, ainda que fora de funcionamento. O Bosque Rodrigues Alves, por exemplo, mantém três aparelhos conservados como peças de arte expostas no jardim botânico. Dois deles - um em forma de cuia de açaí e outro que remete a um cupuaçu - foram recentemente revitalizados. O terceiro tem o formato de uma arara.
Dos 905 orelhões instalados no Pará, 64% estão ativos e 36% em manutenção. Todos são adaptados para pessoas com deficiência. Os dados são de setembro de 2025. No contexto nacional, o Brasil mantém 39.188 orelhões, com 87% em funcionamento e 13% em manutenção. Mesmo com o uso cada vez mais raro, os aparelhos ainda cumprem papel estratégico em regiões com menor cobertura de telefonia móvel.
Para utilizar os orelhões ainda ativos, é necessário o Cartão Indutivo, que permite a realização de chamadas. Também é possível fazer ligações a cobrar. Em localidades onde não há ponto de venda do cartão, as operadoras são obrigadas a liberar ligações locais e de longa distância nacional gratuitamente por, no mínimo, cinco minutos, conforme determina a Anatel.
Segundo a agência, os telefones públicos podem continuar operando até 31 de dezembro de 2028, mas podem ser retirados antes caso a localidade passe a ser atendida por telefonia móvel. A responsabilidade pela manutenção dos orelhões cabe às concessionárias ou antigas concessionárias de telefonia, conforme a área onde o equipamento está instalado.
Ruínas lembram capítulo histórico da comunicação
Em Belém, enquanto a agência encerrou oficialmente o serviço, o que restou dos equipamentos conta um capítulo importante da comunicação urbana. A aposentada Nazaré Galvão, de 64 anos, ao passar por um orelhão na Djalma Dutra, relembra o auge desses aparelhos em sua juventude.
“A gente usava demais os orelhões. Na escola, na faculdade, para ligar para casa, falar com um amigo, marcar de estudar ou sair para a balada, quando viajava para Salinas, Mosqueiro ou até fora do Pará… Tinha que ir à antiga Telepará comprar fichinhas ou cartões e enfrentar as filas”, recorda, mencionando a antiga empresa de telefonia do estado.
Entre tantos momentos, Nazaré destaca um dos mais marcantes: quando anunciou aos pais, por telefone público, que havia sido aprovada no vestibular. “Eu liguei para dizer: ‘olha, consegui, passei, já estou fazendo minha matrícula’. Foi uma felicidade imensa”.
“No mesmo dia, eu estava de viagem marcada para passar o carnaval em São Luís com as minhas amigas e, de lá, ficava me comunicando com meus pais, porque, como filha caçula, sempre fui muito agarrada com os dois, então onde parava tinha que ligar para dar satisfação”, conta, emocionada.
Mas Nazaré também lembra dos perrengues da época. Ela conta que nos dias mais disputados, a ligação tinha que ser rápida, porque se formavam filas para usar o telefone. “Tinha gente que reclamava na fila, ‘você está demorando, pare com isso’, xingavam a gente… Mas era divertido, era a única coisa de telefonia para nos comunicar com as pessoas”.
“Quando a ficha acabava, você tinha que falar rápido, que, às vezes, quando o assunto tava bom, a ligação encerrava”, lembra, aos risos.
Há mais de 25 anos atuando como taxista em um ponto na Generalíssimo, Roberto Monteiro, de 63 anos, que mantém um orelhão ao lado, conta que o aparelho era aliado na profissão. “A gente recebia muitas ligações aqui para atender funcionários da Santa Casa, que nos ligavam para pedir um táxi lá dentro, para uma gestante, um cadeirante… Entrava para pegar a pessoa”, diz.
Como um bom taxista, Roberto tem muita história para contar. Dentre elas, ele destacou um momento dramático quando precisou usar o orelhão: lamentar a derrota do Paysandu para o Boca Juniors na Libertadores em 2003. “Eu liguei para perguntar se meu amigo assistiu o jogo. Nós perdemos para o Boca Juniors de 4 a 2, Mangueirão lotado. Liguei para chorar mesmo, só para chorar. Infelizmente nós perdemos. Mas isso aqui traz boas lembranças”.
Roberto também lembra que nas áreas periféricas, onde não era comum ter telefone residencial, os orelhões cumpriam papel importante na comunicação, inclusive para denúncias: “Na periferia, o orelhão ajudou bastante, porque na época não tinha celular e nem todo mundo podia ter um aparelho residencial, que era caro. Era usado até para fazer denúncia, quando precisava falar com o O Liberal”.
Para os nascidos no fim dos anos 90, orelhões são nostálgicos
Izabela Nascimento, de 28 anos, historiadora e produtora de conteúdo sobre história e cultura amazônica, nasceu no final dos anos 90 e não vivenciou de forma muito intensa a época dos orelhões. Mas herdou da mãe uma coleção de centenas de cartões telefônicos, que ajudam a contar sobre o passado. Um vídeo gravado por ela mostrando a diversidade de cartões que coleciona foi postado nas redes sociais e acumula milhares de curtidas.
Ilustrados com fotos da fauna e flora amazônica, manifestações culturais como o Círio de Nazaré e a Marujada de São Benedito, pontos turísticos como o Ver-o-Peso e a Estação das Docas, gastronomia como o açaí e o tucupi e belezas naturais de interiores como Visel, os cartões telefônicos são registros históricos dessa memória e alvo do desejo de colecionadores.
“Desde criança, ainda na alfabetização, eu me encantava que os cartões eram ilustrativos e informativos. Eu gostava porque eu via os nossos animais, a nossa culinária, outras cidades do Pará. A coleção começou com a minha mãe e, hoje, é minha também. Minha mãe tem um pouco de ciúme, mas eu falo que é um pouco da herança dela para mim”, comenta Izabela, aos risos.
Ela enfatiza que os cartões ajudavam a divulgar a cultura das diversas regiões do estado por meio de registros fotográficos, creditados para profissionais como Hely Pamplona, Elza Lima, Octavio Cardoso, João T. Enomoto e Claudio Cordeiro. “O meu preferido era um que trazia uma foto bem antiga da Festividade de São Benedito em Bragança, pelo fato da minha família ser bragantina. Leva representatividade e identidade”, conta.
Ilustração nos cartões moveu realização de sonho
Mas as ilustrações dos cartões telefônicos não eram mera decoração. Para Suely Costa, de 45 anos, cozinheira, uma imagem estampada em um cartão moveu ela em busca de um sonho que foi realizado décadas depois: conhecer as Cataratas do Iguaçu (PR).
"Eu tinha 13 anos quando eu vi esse cartão com as Cataratas do Iguaçu. Eu achei tão lindo, que guardei aquele cartão por muito tempo e disse: ‘um dia vou nesse lugar’. Quando casei, eu fui morar no Paraná, a 300 quilômetros de Foz, onde ficam as Cataratas. Fiquei casada por 14 anos e nunca fui nas Cataratas”.
“Quando eu separei, eu vi uma excursão para lá e decidi ir com meu filho. Quando eu cheguei nas Cataratas, eu chorava tanto. Ele, na época com sete anos, falava: ‘mamãe, você está com medo?’, eu falei ‘não’... Aí eu sempre conto para as pessoas que, com aquela imagem de um cartão telefônico, eu realizei meu sonho. Tudo a gente tem que querer”, emociona-se.
Nascida na zona rural do Pará, Suely, que hoje mora no Paraná, lembra que o orelhão era o principal meio de comunicação com seus familiares. “Eu nasci em um assentamento no interior, na divisa entre o Pará e o Maranhão, e eu vim para Belém aos 13 anos. Usava o orelhão para me comunicar com meus pais, ter notícia de lá e dar notícia daqui”.
Ela lembra ainda da dinâmica da comunicação: “Era um orelhão para atender a comunidade inteira. Eu ligava para lá em certo dia e para quem atendia, eu dizia para avisar meus pais que eu tornaria a ligar em dia e hora marcados, aí eles ficavam lá esperando a ligação.”
De férias em Belém, a cozinheira diz que a nostalgia tomou conta ao chegar no Bosque Rodrigues Alves e dar de cara um orelhão, logo na entrada principal do parque. “Eu entrei aqui na porta e, quando vi o orelhão, veio uma lembrança, que a gente não vê mais. Chegar aqui no Pará é diferente. Ainda tem orelhão, você vê na rua, nos pontos turísticos, mas em determinados lugares não existe mais”, ressalta.
O que fazer com os orelhões inabilitados em Belém?
O desaparecimento dos orelhões das ruas do Pará reflete não apenas o avanço da tecnologia, mas também mudanças profundas nas relações sociais e no uso do espaço urbano. Para quem viveu a época em que o telefone público era essencial, o sentimento é de nostalgia e contraste com a realidade atual.
De acordo com a Anatel, a responsabilidade pela manutenção ou retirada dos orelhões cabe às concessionárias ou antigas concessionárias de telefonia, conforme a área onde o equipamento está instalado. Enquanto isso, os orelhões seguem desaparecendo, levando consigo um capítulo marcante da memória urbana.
Para Suely Costa, os orelhões simbolizavam proximidade familiar. Ela lembra que ligar exigia planejamento e dedicação, o que fortalecia os vínculos. “Quanto mais tecnologia, mais distantes as pessoas ficam umas das outras. Antes, ligar era um ato de afeto e preocupação”, afirma.
Já Roberto Monteiro reconhece os benefícios do celular no dia a dia profissional, mas critica o abandono dos antigos aparelhos. Segundo ele, muitos orelhões viraram obstáculos e alvo constante de vandalismo. “Isso aqui foi abandonado. A empresa responsável deveria recolher, porque virou lixo e até causa acidente”, diz.
Izabela Nascimento avalia que os orelhões poderiam ganhar novos significados. Para ela, alguns modelos poderiam ser preservados e ressignificados como suporte artístico ou até instrumentos de denúncia. “A internet trouxe novas narrativas, mas esses objetos ainda têm força simbólica. Poderiam ser utilizados, por exemplo, para fazer denúncias”, sugere.
Já Nazaré Galvão defende a retirada definitiva. Para ela, a falta de preservação inviabiliza qualquer tentativa de manutenção. “Arrancam fios, quebram tudo. Infelizmente, as pessoas não sabem conservar o patrimônio”, lamenta.
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