Belém, 410 anos: A cidade que é berço de fé e símbolo religioso mundial
Além de abrigar a maior manifestação católica do mundo, o Círio de Nazaré, a capital paraense também é o berço de uma das igrejas evangélicas que mais cresce no País: a Assembleia de Deus
Nesta segunda-feira (12), Belém celebra 410 anos de história, marcada por uma característica que atravessa os séculos e se mantém viva no cotidiano de sua gente: a fé. Além de abrigar a maior manifestação católica do mundo, o Círio de Nazaré, a capital paraense também é o berço de uma das igrejas evangélicas que mais cresce no País: a Assembleia de Deus. Entre esses dois grandes marcos religiosos, Belém se consolida como um centro espiritual que une tradição, devoção e crescimento religioso em uma cidade de profunda fé.
A fé católica que une milhões no Círio de Nazaré
Há mais de dois séculos, no segundo domingo de outubro, dois milhões de pessoas tomam as ruas de Belém para participar do Círio de Nazaré, reconhecido pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco) como Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade. A maior procissão católica do mundo é um símbolo da devoção de um povo à Nossa Senhora de Nazaré, padroeira do Pará. Milhares de fiéis, vindos de todos os cantos, unem-se em oração, fé e solidariedade, formando uma das maiores manifestações de religiosidade do planeta.
Mas essa fé não se restringe ao mês de outubro e ganha, cotidianamente, corpo dentro da Basílica Santuário de Nazaré, espaço que, para muitos belenenses, é refúgio, força e ponto de reencontro com a própria história. A doméstica Maura Mourinho, de 69 anos, é um exemplo disso. “A minha fé em Nossa Senhora é inabalável”, afirma, enquanto faz uma promessa pela saúde de sua filha, que enfrenta uma luta contra o câncer. Para ela, a fé é força, cura e sustentação nos momentos difíceis. “A pessoa que não tem fé é vazia. Aqui eu me sinto fortalecida, amparada e realizada”, diz.
A relação entre o povo paraense e Nossa Senhora de Nazaré é histórica. De acordo com a tradição, em 1700, a imagem da santa foi encontrada pelo caboclo Plácido às margens de um igarapé e, mesmo levada para sua casa, sempre retornava ao ponto de origem, onde hoje se ergue a Basílica. “Ela mora aqui na nossa cidade. Ela foi encontrada aqui e sempre voltou para cá. Nós não podemos nos separar dela de jeito algum”, diz Maura, reforçando a ligação profunda do povo com a santa.
A engenheira Melina Pinheiro, de 38 anos, exemplifica o poder transformador da fé em Belém. Frequentadora assídua da Basílica de Nazaré, ela conta como o templo se tornou um espaço de acolhimento e silêncio em sua vida. “Quando a gente perde aquilo que achava que era a nossa base, é a fé que fica. A fé é tudo o que a gente tem”, afirma, lembrando com carinho das memórias de infância em que a sua avó a trazia à Basílica. No período do Círio, sua rotina se transforma completamente: “Eu vivo o Círio com entrega total. Não durmo, mas tudo é vivido com amor, fé e caridade.”
No contexto das dificuldades sociais e desigualdades que ainda marcam a cidade, Melina reflete sobre os pedidos que a fé inspira. “O que eu pediria por Belém seria mais justiça social e menos desigualdade. Que todos possam viver melhor, com mais dignidade”, conclui.
Origem da Assembleia de Deus e do pentecostalismo no Brasil
Belém também é o berço do movimento pentecostal no Brasil, que se consolidaria como uma das maiores expressões do cristianismo no país e no mundo. Foi em 18 de junho de 1911, que os missionários suecos Daniel Berg e Gunnar Vingren fundaram a Assembleia de Deus na cidade. Chegados em 1910, os dois eram batistas que se converteram ao pentecostalismo nos Estados Unidos, um movimento marcado pelo batismo no Espírito Santo e pelos dons espirituais, como o falar em línguas.
Com o tempo, a nova denominação foi crescendo e, em 1911, o pequeno grupo formado por Berg e Vingren fundou oficialmente a Missão da Fé Apostólica, que mais tarde se tornaria a Assembleia de Deus, a maior igreja evangélica do Brasil. A partir de Belém, a igreja se espalhou pelo Pará, pela região Norte e, eventualmente, para todo o Brasil e o mundo. Hoje, a Assembleia de Deus se destaca como a maior igreja evangélica do país, com mais de 43 mil templos e cerca de 22,5 milhões de fiéis. Globalmente, a denominação possui aproximadamente 64 milhões de membros, organizados em mais de 351 mil igrejas e presentes em 217 países.
O pastor Philipe Câmara, líder do Templo Central da Assembleia de Deus de Belém, explica que parte do segredo desse crescimento está na soberania de Deus e na cultura do povo paraense. “Belém é o berço do movimento pentecostal no Brasil. A igreja que mais cresce no Brasil e no mundo nasceu aqui, que é a Assembleia de Deus. Parte do segredo desse crescimento, primeiramente, é a soberania de Deus de ter marcado esse lugar, mas também a cultura do povo paraense e o povo que aqui vivia em 1910, que foi enviado pelo Brasil todo e que foi pioneiro da Assembleia de Deus”, comenta o pastor.
Anualmente, sempre às 9h do dia 12 de janeiro, a igreja Assembleia de Deus promove o tradicional abraço simbólico em Belém, em celebração ao aniversário da cidade. O ato ocorre na praça do Relógio, no bairro da Campina, local simbólico para a congregação. Este ano, a expectativa é receber cerca de 500 fieis. corrija o texto a seguir: “Ali, perto de onde os missionários pisaram, no dia 10 de novembro de 1910, e é ali que vamos fazer algo que, para nós, é muito simbólico e precioso: dobrar os nossos joelhos e abençoar a nossa cidade. O dia 12 é o nosso presente, o nosso abraço de oração e gratidão por Belém", finaliza o pastor.
Uma cidade de fé, tradição e crescimento
Belém, ao longo de 410 anos, se transformou em um local de expressão religiosa diversificada, onde o catolicismo, o pentecostalismo e outras crenças coexistem, compartilhando a fé, mas também as práticas de solidariedade e apoio mútuo. No Círio de Nazaré, por exemplo, não é incomum ver igrejas evangélicas distribuindo água aos fiéis católicos, em um gesto que transcende as diferenças religiosas. A relação inter religiosa é uma característica marcante da cidade, refletindo um ambiente de respeito e solidariedade entre diferentes crenças.
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