Após chuva forte, moradores de Belém limpam casas e tentam reduzir prejuízos
Muitos adotam medidas preventivas por conta própria, como suspender móveis dentro das residências e aumentar o nível das calçadas
Um dia após a forte chuva que atingiu Belém, moradores de diversas áreas da capital ainda finalizavam, na manhã desta terça-feira (3), a organização de suas casas, limpando a lama, retirando água dos cômodos e tentando salvar móveis e eletrodomésticos. A cena se repetiu em bairros historicamente afetados por alagamentos, onde a população convive com prejuízos frequentes sempre que ocorrem temporais mais intensos.
Para diminuir os impactos das fortes chuvas, sobretudo neste período do chamado inverno amazônico, muitos moradores adotam medidas preventivas por conta própria, como suspender móveis dentro das residências, elevar pisos e até aumentar o nível das calçadas. No entanto, essas soluções improvisadas acabam gerando novos custos e comprometem o orçamento doméstico, especialmente entre famílias que já enfrentam dificuldades financeiras.
De acordo com dados do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden), a chuva atingiu toda a cidade de Belém. No entanto, quatro bairros se destacaram nos registros pluviométricos: Pedreira, Terra Firme, Cremação e Nazaré, áreas que historicamente enfrentam problemas relacionados à drenagem urbana e ao saneamento básico.
Na Pedreira, moradores relatam que os alagamentos fazem parte da rotina há décadas, mas afirmam que a situação tem se agravado nos últimos anos. É o caso do caminhoneiro João Crisóstomo Neto, 71, que mora há cerca de 30 anos na passagem Coelhinho, nas proximidades da avenida Pedro Miranda. Segundo ele, a chuva de segunda-feira foi mais um episódio de grande transtorno. “Foi horrível. Aqui é problemático. Já cheguei a fazer filmagem andando de caiaque na rua, no centro de Belém, por falta de saneamento básico”, contou.
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Móveis sempre suspensos, diz morador
Para tentar evitar prejuízos maiores, João mantém os móveis constantemente suspensos dentro de casa. “Não tenho mais nem conta do número de móveis que já perdi”, afirmou. Morando sozinho, ele contou que precisa lidar sem ajuda com os alagamentos. “Tenho que ficar escorrendo água direto, esperando baixar o nível para poder tirar a água de dentro de casa”, disse. Durante a chuva, ele também precisou lidar com a dificuldade de proteger os cinco cachorros que cria. “Foi sacrificante. Quase machuquei um cachorro quando tentei levar ele para um quarto mais alto. Uma prateleira caiu e machucou a patinha dele”, contou.
João afirmou que os prejuízos financeiros são constantes. “Já perdi três geladeiras. A água entra, queima a parte elétrica. Móveis nem se fala. Esses aqui são caros, e eu mantenho suspensos porque a chuva não avisa quando vem nem o volume que vai trazer”, explicou. “Água, só do bebedouro”, disse. Além disso, ele contou que as paredes da casa permanecem constantemente úmidas, agravando a deterioração do imóvel. Segundo ele, o nível da água chegou a cerca de 30 centímetros durante o alagamento mais recente.
O caminhoneiro também destacou o desgaste emocional provocado pela situação. “É um prejuízo financeiro e um desgaste emocional. Hoje em dia é muito difícil recuperar o que se perde. Começa a chover, a preocupação já começa. Se eu estiver fora de casa, a tensão é maior ainda, porque chego aqui e não consigo entrar. A água vem pelo joelho”, afirmou.
Diante da repetição dos alagamentos, João afirmou que decidiu colocar a casa à venda e pretende deixar o bairro. “Eu não tenho mais idade para viver nessa condição. Aqui tem muitos idosos. A gente não tem ajuda. Eu seco a casa sozinho, limpo, desinfeto. É muito triste”, desabafou. Como apelo às autoridades, ele diz que gostaria, ao menos, de uma explicação. “Eu nem quero que resolvam agora. Eu quero que expliquem por que estamos nessa condição, pagando imposto e sem dignidade".
Pedagoga elevou piso da casa
A pedagoga Rosângela Lopes Trindade, 54, mora na passagem Coelhinho desde os sete anos de idade e afirmou que o problema dos alagamentos é antigo. “Quando asfaltaram, melhorou um pouco. Mas, quando a chuva é muito forte, e combina com a maré alta, a água vem da Curuzu, do Chaco e entra tudo para cá. A rua vira um rio”, disse. Segundo Rosângela, a água já entrou diversas vezes na residência. Para tentar amenizar os impactos, a família elevou o piso da casa ao longo dos anos. “A casa era mais baixa. A gente já levantou o piso três ou quatro vezes”, contou. A obra mais recente foi feita há cerca de dois meses e custou aproximadamente R$ 1,8 mil. “É mais um gasto, porque toda vez que enche, a gente tem que lavar tudo depois”, disse.
Rosângela contou que, na chuva de segunda-feira, a água chegou até a porta da casa, mas não entrou devido à elevação recente do piso. Ainda assim, a rua ficou completamente alagada. “Ontem (segunda) demorou mais para secar, acho que está mais entupido. Normalmente, quando a água começa a descer para o canal, seca rápido”, explicou.
Apesar das dificuldades, Rosângela afirmou que muitos moradores ainda resistem em deixar o bairro. “É um bairro tradicional, tem tudo perto, isso prende a gente aqui. Mas muita gente já pensou em sair, principalmente por causa dos idosos”, disse. Como apelo às autoridades, ela cobra a limpeza dos bueiros da área. “Desde que essa rua foi feita, nunca limparam os bueiros. Junta lixo, entope tudo e, quando chove forte com a maré, acontece isso”, disse.
Transtornos também foram citados por quem mora na passagem Gaspar Dutra, entre João Paulo II e estrada da Ceasa. Eles disseram que, após a chuva, a rua fica com muita lama. Na segunda-feira (2), Belém enfrentou uma forte chuva que voltou a provocar alagamentos em áreas de grande circulação e comprometeu a mobilidade urbana em diferentes bairros da cidade. O temporal teve início por volta das 16h e se estendeu até cerca das 20h, deixando registros de acúmulo de água em vias importantes, trânsito lento e dificuldades no transporte público. Em alguns pontos, motoristas e pedestres tiveram dificuldade para se deslocar, enquanto linhas de ônibus operaram com atrasos.
Prefeitura fala das providências após a chuva
Após o temporal, o prefeito de Belém, Igor Normando, se manifestou por meio das redes sociais. Em vídeo publicado em seu perfil, o gestor afirmou que a capital enfrentou “a maior chuva em cinco meses”, com o registro de 63 milímetros em apenas uma hora. Segundo ele, vários pontos da cidade ficaram alagados e equipes da Defesa Civil e da secretaria responsável pela limpeza urbana estariam atuando para desobstruir bueiros e minimizar os transtornos causados pelo acúmulo de água. Ainda na publicação, o prefeito disse estar acompanhando os trabalhos “pessoalmente” e destacou ações como a dragagem de canais e o uso de caminhões hidrojato, que estariam sendo empregados para acelerar o escoamento da água e reduzir os impactos nos bairros mais atingidos.
A Prefeitura de Belém, por meio da Secretaria Municipal de Zeladoria e Conservação Urbana (Sezel), informa que, após a intensa chuva , as equipes intensificaram as ações emergenciais de limpeza e manutenção da drenagem urbana em diversos pontos da capital. Belém é uma cidade baixa, cortada por canais e com influência direta da maré, além de possuir fatores estruturais antigos que contribuem para pontos críticos de alagamento, razão pela qual a secretaria desenvolve estudos e projetos para enfrentar esse problema histórico.
Até o momento, mais de 10 mil bocas de lobo e poços de visita já passaram por serviços de limpeza e desobstrução, além da limpeza manual de mais de 20 canais, totalizando cerca de 40 quilômetros de canais atendidos. As equipes também realizam a limpeza diária de bocas de canais e comportas, com a retirada de mais de 50 toneladas de resíduos.
A Sezel executa atualmente a Operação Inverno, com mais de 100 trabalhadores, apoio de maquinário pesado e oito caminhões hidrojato, mantendo o monitoramento contínuo das áreas mais suscetíveis a alagamentos e adotando ações preventivas, como a implantação de ecobarreiras.
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