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Pesquisadores defendem exploração de petróleo na Margem Equatorial

Projeções apontam potencial para produção de 20 a 30 bilhões de barris em apenas uma bacia sedimentar

Fabrício Queiroz

As prospecções para exploração de petróleo em águas profundas na Margem Equatorial, que inclui a área costeira próxima ao Estado do Pará, envolvem uma polêmica científica que trata da existência do Grande Sistema Recifal do Amazonas (GARS, sigla em inglês) e a viabilidade das operações nesse ecossistema marinho.

Em uma nota técnica assinada por Allan Kardec Duailibe Barros Filho, professor da Universidade Federal do Maranhão (UFMA) e ex-diretor da Agência Nacional do Petróleo (ANP); Ronaldo Gomes Carmona, professor da Escola Superior de Guerra (RJ); e Pedro Victor Zálan, os pesquisadores contestam a existência de corais nas águas que se estendem do Amapá ao Maranhão.

“Na realidade, são bancos de rodolitos (algas vermelhas) fósseis, mortos, sem vida. Corais são organismos que necessitam de luz, e, portanto, tendem a existir – quando presentes – em águas rasas e sem sedimentos em suspensão”, diz a nota publicada em 2021, que classifica a Margem Equatorial como “novo pré-sal”.

Em entrevista a O Liberal, o professor Allan Kardec Barros argumentou ainda que o sistema recifal, caso exista, não estaria ameaçado por futuras atividades petrolíferas, já que é comum que essas estruturas ocorram na margem próxima ao litoral em profundidade que varia de 30 a 300 metros, enquanto que as perfurações de poços ocorreriam além da plataforma continental, de 150 a 300 km distantes da margem e a cerca de 4 mil metros de profundidade. “Não tem sentido afirmar-se que existam corais ali. Isso é que nós sabemos dos estudos de professores que pesquisam a Margem Equatorial há muito tempo”, pontuou Barros.

Além disso, o pesquisador ressaltou que as informações geológicas sobre a formação dos continentes e os resultados obtidos até agora pela exploração de petróleo em outros países sob influência da Margem Equatorial, é possível atestar o grande potencial que a região tem para produção de óleo e gás. Só a Guiana Francesa tem reservas estimadas da ordem de 9 bilhões de barris de petróleo.

No caso da bacia sedimentar Pará-Maranhão, os pesquisadores projetam o potencial de retirada de 20 a 30 bilhões de barris. Em relação a esse dado, Allan Kardec Barros diz que projeção é “modesta”, pois foram utilizados indicadores de apenas 10 dos 100 prospectos de análise sísmica realizados da região.

Para Alberto Figueiredo Jr, doutor em Geologia e Geofísica Marinha e professor da Universidade Federal Fluminense (UFF), a existência do GARS não seria um impeditivo para a perfuração de poços na Margem Equatorial. De acordo com ele, os recifes existentes não são exclusivos da Amazônia, se estendendo desde o Amapá até Santa Catarina, sem apresentar “nada de excepcional”.

“Na minha visão não interferiria em nada. Lógico tem que ser verificados todos os cuidados, mas nossos vizinhos, como a Guiana Francesa e o Suriname, estão explorando óleo com imenso sucesso tendo essa mesma constituição”, disse o pesquisador que complementa: “Acho isso um exagero. Não comungo com essa ideia de que não se pode explorar a região”, frisando que as populações locais já desenvolvem atividades de pesca de lagosta e pargo na região.

CONTRAPONTO

Em 2016, a existência do Grande Sistema Recifal do Amazonas foi detalhada pela primeira vez em um artigo para a revista científica Science Advances, assinado por pesquisadores da Universidade Federal do Rio de Janeiro, Universidade de São Paulo, Universidade Federal do Espírito Santo, Universidade Federal Fluminense, Universidade Federal do Pará, entre outras instituições com apoio de navios da Marinha do Brasil.

O professor Nils Asp, do Instituto de Estudos Costeiros da UFPA, está entre os autores do trabalho e relata que o GARS é considerado um sistema recifal mesofótico, ou seja, que se apresenta em ambientes de águas profundas e que vive em condições limite de penetração de luz. “Quando falamos dos recifes mesofóticos, estamos falando principalmente de algas calcárias, esponjas e briozoários. Os corais não são as formas dominantes”, explica o docente que afirma que a existência do sistema é de conhecimento das próprias petrolíferas.

“A própria TotalEnergies, a BP, a Petrobras, a Queiroz Galvão e outras empresas nunca contestaram pública e oficialmente a existência desses recifes mesofótcos porque pelos estudos de impacto ambiental que eles têm que fazer, eles sabem da sua existência”, diz o pesquisador.

Quanto aos efeitos da atividade de exploração de petróleo sobre o ambiente mesmo a distância da costa, Nils Asp entende que os estudos conduzidos pelas empresas não oferecem garantias para contenção dos danos de um eventual vazamento de óleo. “O sedimento do Amazonas, viaja no Oceano Atlântico milhares de quilômetros. Assim como a água do Amazonas, o óleo pode fazer isso. E na própria modelagem, as empresas tendem a minimizar o efeito das correntes de maré. Na região do entorno da Foz do Amazonas, as correntes de maré são muito fortes e assimétricas. Isso precisa ser estudado com clareza e profundidade”, defende o professor.

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