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Pará virou ‘hub logístico do tráfico de drogas na Amazônia’ com Comando Vermelho, afirma Gaeco

Promotor de Justiça Danyllo Colares diz que facções transformaram o Pará em eixo estratégico do narcotráfico internacional e ampliaram atuação para crimes ambientais, garimpo ilegal e exploração de povos tradicionais

Jéssica Nascimento

O coordenador do Gaeco (Grupo de Atuação Especial no Combate ao Crime Organizado) do Ministério Público do Pará, promotor Danyllo Colares, afirmou em entrevista ao Grupo Liberal que o estado deixou de ser apenas rota de passagem e se tornou uma “plataforma logística do tráfico de drogas”, com atuação predominante do Comando Vermelho em quase todo o território. Segundo ele, a expansão das facções a partir de 2016 reorganizou o crime na Amazônia, conectando narcotráfico internacional, garimpo ilegal e outras economias criminosas em um mesmo ecossistema de violência e poder.

Promotor, quais têm sido as principais ações do Gaeco no Pará no combate ao crime organizado nos últimos anos?  

Danyllo Colares: Nessa atual administração do Procurador-Geral de Justiça, doutor Alexandre Tourinho, que assumiu agora em abril de 2025, nós nos especializamos, mais do que antes, na questão do combate ao crime organizado, notoriamente contra as facções criminosas. Portanto, anteriormente a abril de 25, o Gaeco atuava no combate à improbidade administrativa. Ele atuava também com questões contra servidores públicos que praticavam ilícitos. De abril de 25 para cá, o Gaeco, na atual gestão, atua em auxílio aos promotores de justiça do Estado do Pará inteiro no combate às facções criminosas. 

Portanto, auxiliamos os promotores de justiça, tanto no combate às facções criminosas, notoriamente aqui no Estado do Pará, o Comando Vermelho, quase que exclusivamente, mas também contra o Primeiro Comando da capital e o Comando Classe A. Também auxiliamos os promotores nas demandas mais complexas, por mais que não envolvam facções criminosas. Aquelas demandas que envolvam processos muito complexos, agentes - sejam eles de grande poder econômico ou de elevado poder político -, o Gaeco também atua no auxílio a esses promotores de justiça. 

Quais são os tipos de crimes mais investigados pelo Gaeco no Pará?  

Atualmente é a questão do tráfico internacional de drogas, a questão do tráfico de drogas regional, a questão da cooptação e violência praticada por organizações criminosas ultra-violentas e também a lavagem de dinheiro, oriunda principalmente da questão da exploração da mão de obra do interior do Estado.

Aquela questão de explorar os povos originários é uma questão nova que a gente tem percebido ao longo dos últimos 20 anos. Desde 2016, a gente tem percebido uma atuação maior das facções criminosas aqui na região amazônica como um todo. O Pará, nesse contexto, desde 2016 para cá, tem ganhado uma grande relevância, sobretudo na questão do tráfico de drogas, mas não só no tráfico de drogas. Também na exploração dos crimes ambientais, na questão do garimpo, que a gente chama de narcogarimpo.

Em 15 de junho de 2016, foi assassinado o Jorge Rafaat Toumani na cidade paraguaia de Pedro Juan Caballero, fronteira com o Brasil. O Jorge Rafaat era conhecido como o “rei da fronteira”.  Todo o tráfico e toda a droga que entravam no Brasil passavam por ele. Ele é quem distribuía drogas para o Comando Vermelho e para o PCC. Ele que era o fornecedor exclusivo. A partir da morte do assassinato dele, a rota do tráfico de drogas começou a ser disputada pelo Comando Vermelho e pelo PCC. 

No Brasil, a entrada de drogas tem duas grandes rotas - a chamada Rota Caipira, que vem lá por baixo, pelo Paraguai, Paraná, Mato Grosso e a Rota Solimões.  A Rota Solimões é aqui por cima, que vem pelo Amazonas, pelo Pará. O que acontece? A Rota Caipira, que é Mato Grosso, São Paulo, Minas Gerais, foi dominada pelo PCC. Como o PCC dominou, a partir da morte dele, em 2016, então o Comando Vermelho correu para o Norte para assumir a Rota Solimões. 

Tanto que em 2017, começamos a ver aqueles episódios de massacres nos presídios. Teve o massacre em Altamira, teve o massacre no Amazonas, teve o massacre em Roraima. Então, a disputa dessa Rota Solimões, do tráfico de drogas no Solimões, começa. A droga entra no Amazonas e passa pelo Pará. O Pará ganha um destaque imenso nesse contexto a partir de 2016. Por quê? O estado deixa de ser apenas um corredor de drogas e passa a ser um hub logístico. O Pará passa a ser uma plataforma logística do tráfico de drogas. 

Por quê? Em vez da droga só passar por aqui, o Pará começa a exportar a droga para cá. A droga entra pelo Amazonas, para aqui, no estado do Pará, e daqui, o estado começa a ter duas funções - ele começa a abastecer o mercado nacional e começa a exportar as drogas. Daqui, as drogas vão para Europa e América do Norte.

Tudo aquilo que envolve o estado do Pará, o que era periférico anteriormente, até 2016, começa a ganhar centralidade. A Amazônia começa a deixar de ser vista, primeiramente, pelas facções criminosas, como uma coisa periférica e começa a ganhar um papel central. 

Até hoje, o estado brasileiro só começou a se dar conta disso recentemente - de dois, três anos para cá - coisa que as facções criminosas há dez anos já perceberam.  O Gaeco procura atuar, nesses últimos anos, focado nessa demanda. Por quê? As facções criminosas, notoriamente o Comando Vermelho, percebeu que o estado do Pará é bastante rico, não só nessa questão de servir como hub logístico, como uma plataforma logística, mas também como ecossistema criminoso.

image Segundo Danyllo Colares, a expansão das facções a partir de 2016 reorganizou o crime na Amazônia, conectando narcotráfico internacional, garimpo ilegal e outras economias criminosas em um mesmo ecossistema de violência e poder. (Foto: Thiago Gomes)

Por quê? Eles começaram a perceber que aqui sempre tivemos questões ambientais muito severas, muito graves.  Então, eles começaram a oprimir os povos originários, sejam os indígenas, sejam os quilombolas. Começaram a oprimir e cooptar esses povos. O que já existia de extração de minério, extração ilegal de minério, extração irregular de madeira e a questão da biopirataria as facções criminosas começaram a se inserir nesse mercado. 

Ou seja, aquelas pistas de pouso clandestinas, aqueles portos clandestinos que serviam para escoar o ouro ilegal, a madeira ilegal, que serviam para escoar os animais silvestres começaram a ser utilizados pelos traficantes, pelo narcotráfico internacional, para escoar as drogas também. Então, aquele ouro do narco-garimpo, todas aquelas pistas começaram a ser utilizadas para as drogas. O dinheiro do narcogarimpo começou a servir para comprar drogas. 

A venda de drogas começou a servir para comprar armas. Essas armas começaram a servir para oprimir a população. Então, começou a se formar um ecossistema criminoso aqui na região.  Isso começou a dar trabalho não só para as forças de segurança pública - Polícia Civil, Polícia Militar, Polícia Federal -, mas também e sobretudo para o Ministério Público e a sua inteligência.  No caso do Gaeco, somos um grupo especial. Somos a elite investigatória e persecutória do Ministério Público.

Quantas operações de combate ao crime organizado e à corrupção foram deflagradas pelo Gaeco no Pará nos últimos anos?   

Posso falar especificamente das operações que eu coordenei aqui nos últimos 14 meses. Recentemente, deflagramos a Operação  Babayaga. Até prendemos vários operadores financeiros do Comando Vermelho. Essa operação, por exemplo, funcionou para combater o seguinte esquema criminoso. As principais lideranças do Comando Vermelho que atuam aqui no estado não permanecem aqui no estado do Pará. 

Elas estão localizadas residindo no Rio de Janeiro, sobretudo lá na favela do Morro da Penha. O que acontece? As ordens para cometer os crimes, a ordem para praticar a questão da traficância de drogas, a extorsão que a gente percebe aqui, sobretudo nas periferias de Belém, parte do Rio de Janeiro. Então, o dinheiro sai do Rio de Janeiro, vem para a representante deles aqui.  Daqui do Pará, esse dinheiro vai para o Amazonas, Amapá e outros estados aqui perto. Lá, eles compram drogas, ouro. As drogas voltam para o Pará. Daqui, elas são exportadas. Esse dinheiro que volta de drogas e é transformado em armas, eles voltam para o Rio de Janeiro. 

O Pará se torna um hub logístico, um hub de negociações. Nessa operação que deflagramos agora há pouco, há cerca de um mês, foi justamente contra esses operadores financeiros. Deflagramos aqui também em cooperação com o Gaeco do Rio de Janeiro, a operação Shadowgun, que era de armas 3D, que visava a combater o comércio irregular de armas 3D. As armas são fabricadas em impressoras 3D. A sofisticação do crime organizado é tão grande que até armas que funcionam realmente são armas com letalidade muito grande. Elas são feitas e revendidas na internet, a olhos vistos, claramente, comercializadas na Dark Web, na Deep Web. Também auxiliamos o Gaeco de Minas Gerais. Deflagramos aqui a Operação K9, contra membros do PCC no interior do estado. Deflagramos a Operação Haganá contra membros do PCC, aqui em Marabá, por exemplo, no sudeste do estado. 

Em quase todo o estado do Pará, o Comando Vermelho domina. Apenas no sudeste do estado, sobretudo Marabá, Parauapebas e Canaã dos Carajás são áreas de influência do PCC. Altamira é área de influência do CCA, Comando Classe A. Tirando esses quatro municípios, os outros 140 municípios, a gente pode dizer, quase que com segurança, que são áreas de influência do Comando Vermelho. Então, de acordo com isso, a gente vai fazendo operações em cima de operações. Fases em cima de fases. O Gaeco deflagrou 5 operações nos últimos 14 meses. 

Denunciamos por crime organizado - seja por integrar facção criminosa, seja por colaborar com organização criminosa - 533 pessoas. Essas 533 pessoas eram  homens e mulheres que ou integravam, ou favoreciam, ou colaboravam com crimes. Colaboramos para a prisão de 309 pessoas.  

O Gaeco tem um papel importante porque temos o poder postulatório. A gente tem o poder de postular em juízo. Recorremos em juízo. Somos os titulares da ação penal. Quem pode fazer a denúncia é único e exclusivamente o Ministério Público. Então, o Gaeco, por mais que a Autoridade Policial faça o inquérito policial,  que a Autoridade Policial faça o requerimento de prisão, tudo passa pela gente. Tudo passa pelo Ministério Público. A gente se manifesta favorável ou não pela prisão. Nós que fazemos o requerimento direto da prisão. Quando tem alguma decisão judicial contrária a nós, só quem pode recorrer dessa decisão somos nós.  

Nas investigações concluídas ou em andamento, qual é a estimativa dos valores envolvidos em possíveis desvios de recursos públicos, fraudes ou prejuízos aos cofres públicos? 

Olha, por exemplo, como eu falei da Operação Babayaga, que deflagramos há cerca de um mês, conseguimos levantar que a movimentação feita por esse grupo criminoso foi cerca de 57 milhões de reais que eles movimentaram em quatro anos.  Foram 57 milhões de reais só nessa operação.

Então, daí você consegue perceber de como um pequeno núcleo, a Operação Babayaga teve como alvo apenas cinco pessoas. Só cinco.  É difícil a gente fazer uma estimativa de quanto é lesado os cofres públicos aqui no Estado do Pará, porque teria que fazer o levantamento junto à Sefa junto à questão de tributos, impostos. 

Quais são os maiores desafios que o Gaeco encontra na investigação e repressão de organizações criminosas no Pará? 

Os maiores desafios são identificar essas pessoas que fazem essas atividades ilícitas. Essa questão da complexidade dos atores envolvidos é que gera a maior dificuldade. 

Como o Pará exerce um papel central nessa questão da distribuição de drogas, da questão da exploração ilegal da madeira, da exploração ilegal do minério, da questão da exploração dos povos tradicionais, são vários atores que são responsáveis tanto pelo comércio ilegal da madeira e a sua extração,  quanto são outros atores que são responsáveis pela extração ilegal do minério, que são outros atores que exploram e cooptam os povos tradicionais. 

Para cada crime desse, temos que dedicar alguns investigadores só para quem faz a extração ilegal dos minérios. Temos que dedicar uma série de medidas extrajudiciais e cautelares para ver quem é que pratica as extorsões nas periferias da cidade. Temos que identificar quem é que é responsável pela encomenda de drogas de outros estados. Temos que identificar quem são os atores que recebem o dinheiro do Rio de Janeiro. Porque as facções criminosas são bem estruturadas.

Temos os tesoureiros que cuidam do dinheiro administrado. Temos os organizadores de missão, que são aqueles exclusivos que exercem o papel de dizer a função de cada um. Temos os conselheiros de missão, que são aqueles que ditam as regras. Temos o conselho final, que são aqueles que estão no Rio de Janeiro, que escolhem os que vão fazer as missões. Então, tem toda uma cadeia de comando organizada e estruturada.  

Então, temos que identificar quem deu a ordem, quem faz parte, quem vai designar a pessoa que vai cumprir, quem está cumprindo e quem é que está lá na ponta fazendo tal missão. Então, o nosso maior desafio é identificar quem são essas pessoas e o que elas estão fazendo.

A questão da violência que existia aqui no Pará, que era uma violência só de medo, era uma violência que tinha a função de instrumento, essa violência passou a ser central. A violência utilizada pelas facções criminosas passou a ser uma violência organizadora. Essa violência passou a definir territórios, essa violência passou a coagir populações, essa violência passou a decidir questões, por exemplo, em bairros.  A violência passou a definir territórios. A violência passou a definir hierarquias.

Temos fronteiras porosas aqui na região amazônica como um todo. Não temos gente suficiente pra fiscalizar todas as fronteiras. Fica muito fácil pro crime organizado se locomover, ao passo que a segurança pública e nós do Ministério Público temos dificuldade de correr atrás. 

Pra conseguirmos achar alguém da população que supere essa barreira do medo e fale pra gente, faça uma denúncia pra gente e diga o que está acontecendo, é muito difícil. É mais fácil conseguirmos prender alguém e por meio dessa prisão termos acesso a alguma informação que ela tenha e a partir dessa informação a gente começa a puxar um fio e a partir desse fio conseguimos chegar em uma informação grande. É muito mais fácil através de uma prisão a gente conseguir informações do que alguém do local falando uma coisa pra gente. O papel da violência mudou. Desde 2016 pra cá a violência que tinha um papel secundário passou a ter um papel principal. 





 

 












 

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