Pré-candidata à presidência da UP defende socialismo e ruptura com o sistema
Representante chega a Belém para articular candidaturas e apresentar programa de transformações profundas para o país
Até o momento, a corrida pela presidência da República tem como única pré-candidata a cirurgiã-dentista e militante Samara Martins, pela Unidade Popular (UP). Para ela, isso é sintoma e símbolo ao mesmo tempo. "Mesmo sendo a maioria da população brasileira mulher e negra, esses são os menos representados na política", pontuou. Ela defende que pautas como equiparação salarial entre homens e mulheres, combate ao feminicídio e creches públicas são, ao mesmo tempo, agenda de gênero e agenda de classe.
Ela não tem tempo de TV, não tem tempo de rádio e não conta com fundo partidário. A pré-candidata aparece em primeiro lugar nas intenções de voto entre eleitores que não participaram do segundo turno de 2022, segundo levantamento da Atlas Intel. "O sistema eleitoral esconde a nossa pré-candidatura. Mas o trabalho de base que a gente faz não dá like, e mesmo assim tem dado fruto", disse Samara, em entrevista ao Grupo Liberal.
Natural de Belo Horizonte, Samara construiu sua trajetória política nas ruas: do movimento secundarista na capital mineira à direção da UNE, passando pela luta por moradia e pelo movimento de mulheres. Cirurgiã-dentista formada pela UFRN, hoje mora em Natal e atua no sindicato dos odontologistas do Rio Grande do Norte.
Ruptura
O ponto central da sua candidatura é justamente o que a diferencia do restante do campo político: a UP não propõe administrar o capitalismo, mas rompê-lo. "A maioria das pré-candidaturas colocadas até agora se posiciona para manter o sistema. A nossa vai na contramão, de enfrentamento ao imperialismo e de soberania nacional", afirmou.
Na prática, o programa socialista da UP prevê redução da jornada de trabalho sem corte de salário, aumento de 100% no salário mínimo, congelamento do preço dos alimentos e redirecionamento do orçamento público, hoje com 30% destinado ao pagamento de juros da dívida, para saúde e educação. A candidata defende ainda a revogação das reformas trabalhista e da previdência e o fim da escala 6x1.
Para o cientista político paraense Rodolfo Marques, a proposta apresentada pela pré-candidata é coerente com a linha ideológica da sigla. “Ao propor uma revolução socialista e o rompimento com o modo de produção capitalista, ela se posiciona no espectro mais à esquerda, ou até mesmo à extrema esquerda, o que é totalmente alinhado ao que a agremiação partidária defende”, avalia. Ele pondera, no entanto, que a implementação de um modelo socialista no Brasil, seja por via revolucionária ou democrática, é inviável no cenário atual, embora considere a proposta “ousada” e consistente com as convicções da candidata.
A estratégia da campanha aposta no contato direto. Em Belém, onde Samara desembarca neste sábado (2), a expectativa é reunir com filiados e núcleos locais da UP. A movimentação é parte de uma caravana nacional para apresentar o programa e se mobilizar em todos os níveis. "A gente quer chegar com pé no chão e olho no olho. É assim que vamos apresentar esse programa ao nosso povo", concluiu.
Na leitura de Rodolfo Marques, a disputa presidencial de 2026 tende a ser marcada por forte polarização política, semelhante ao cenário observado em 2022. Segundo ele, o embate deve envolver principalmente lideranças já consolidadas no cenário nacional, com predominância masculina entre os candidatos.
“A eleição deve se concentrar entre figuras conhecidas, com a polarização sendo um elemento central, além do debate sobre economia, direitos trabalhistas e programas sociais”, afirma.
O cientista político também destaca que o processo eleitoral ocorrerá sob o pano de fundo de tensões institucionais recentes. Para ele, temas como a relação entre os poderes Executivo, Legislativo e Judiciário e a própria estabilidade democrática devem voltar ao centro do debate. “A democracia passa novamente por um teste, diante de episódios recentes como a tentativa de golpe em 8 de janeiro de 2023 e suas consequências jurídicas”, observa.
Nesse cenário, a presença de Samara como única mulher, até o momento, na disputa presidencial chama atenção, ainda que, segundo Marques, tenha menor peso eleitoral frente aos principais blocos políticos.
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