Caso Giovanna: Irmã da vítima afirma que a luta por justiça está ‘apenas começando’
Ana Coelho afirmou que a família passou semanas tentando reunir documentos e informações para entender o que aconteceu
A família da empresária Giovanna Coelho Gomes, de 29 anos, recebeu com uma mistura de alívio e emoção a conclusão do inquérito que investigou a morte da jovem, ocorrida em agosto, após complicações no pós-operatório de uma série de procedimentos cirúrgicos realizados em um hospital particular de Belém. Irmã da vítima, Ana Coelho afirmou que a família passou semanas tentando reunir documentos e informações para entender o que aconteceu e destacou que a busca nunca foi movida por sentimento de vingança ou revolta, mas pela necessidade de encontrar respostas para a morte inesperada de uma mulher que entrou no hospital para realizar procedimentos e morreu no dia seguinte.
Ao falar sobre o encerramento da investigação e o indiciamento de quatro médicos, Ana afirmou que, “desde o início da nossa luta, desde o dia que a Giovanna veio a óbito, no dia 8 de agosto, nós começamos uma luta muito árdua em busca de respostas”. “Com isso, conseguimos o prontuário, conseguimos o laudo do IML, conseguimos a apuração feita pela polícia para conseguir entender o que aconteceu com a minha irmã. Desde o início, a gente não tem o sentimento de ira, de revolta frente a isso. A gente só quer entender por que uma jovem de 29 anos entrou para realizar um procedimento cirúrgico e, 24 horas após, evoluiu a óbito”, disse.
Ana afirmou que o encerramento do inquérito representa, para a família, uma etapa importante no processo de tentar compreender as circunstâncias que levaram à morte de Giovanna. Segundo ela, o acesso ao prontuário, ao laudo do Instituto Médico Legal e às conclusões da Polícia Civil ajudou os familiares a reconstruir parte dos acontecimentos e encontrar algum conforto diante da perda. Ao explicar o significado do resultado da investigação para a família, ela afirmou: “É uma forma de a família encontrar um certo conforto, entender o que aconteceu, e é isso que hoje nós temos. Nós conseguimos encerrar o inquérito hoje. Quatro pessoas foram indiciadas, pessoas que prestaram ou deixaram de prestar assistência à minha irmã, e agora começa a nossa luta”, destacou.
Para Ana, a conclusão da investigação marca o início de uma nova fase: a busca por responsabilização na Justiça. A irmã da empresária afirmou que a família espera que aqueles que forem considerados responsáveis pelos atos apontados na investigação respondam por eles. Ao falar sobre o sentimento da família diante dos próximos passos, ela foi direta. “Por justiça. Agora nós vamos atrás de justiça. Nada mais justo do que as pessoas que foram culpadas serem responsabilizadas pelos seus atos. Então, é agora a nossa maior luta”, afirmou.
Apesar de ter acompanhado de perto a análise do prontuário e buscado compreender os registros médicos relacionados ao atendimento de Giovanna, Ana contou que alguns elementos revelados pela investigação surpreenderam a família. Como o inquérito estava sob sigilo, os familiares só tiveram acesso a determinadas informações após a conclusão da apuração. Entre os pontos que chamaram a atenção está a informação atribuída ao cirurgião plástico André Melo sobre a existência de outro procedimento cirúrgico que seria realizado em um segundo hospital de Belém. Ao relatar a surpresa com o conteúdo do inquérito, Ana afirmou: “Muitos pontos pegaram a gente de surpresa, até porque é um processo sigiloso, e a gente só teve acesso hoje. Como o fato que ele coloca que tinha uma outra cirurgia a ser realizada às 4 da tarde em um outro hospital em Belém. Eu não sabia dessa informação”, revelou.
A irmã de Giovanna também questionou informações registradas pelo cirurgião sobre o horário em que teria terminado o procedimento. Segundo Ana, existe uma divergência entre a evolução registrada no prontuário e o horário que consta em outros documentos relacionados à cirurgia. Para ela, a diferença levantou questionamentos sobre a condução do procedimento e sobre os motivos pelos quais os registros teriam sido feitos daquela maneira. Ao explicar o que encontrou na documentação, Ana afirmou: “Eu não sabia que ele fez às pressas ou não fez às pressas por conta de outra cirurgia, sendo que o ato cirúrgico consta em prontuário que terminou às 17 horas. Mas ele fez uma evolução dizendo que a cirurgia tinha terminado 2h30. Então, um pouco confuso, a gente tentar entender”, disse.
A família também ficou surpresa com a quantidade de procedimentos realizados e com a rapidez com que eles teriam sido conduzidos. Ana afirmou que, diante das informações apresentadas no inquérito, ainda existem questionamentos sobre as decisões tomadas durante o atendimento de Giovanna e sobre o motivo de tantos procedimentos terem sido realizados em sequência. Ao falar sobre as dúvidas que permanecem para os familiares, ela questionou: “Isso nos pegou muito de surpresa para tentar entender por que isso aconteceu com ela, por que foi feito isso, né? Por que foi feito tão rápido tantos procedimentos?”, afirmou.
O indiciamento do cirurgião plástico André Melo por falsidade ideológica também foi um dos pontos destacados por Ana. Segundo ela, embora a família já tivesse levantado suspeitas a partir da análise do prontuário, a confirmação de que a investigação apontou uma possível inserção de informação falsa no documento foi considerada importante. Ana explicou que havia percebido que o nome do médico não aparecia entre os profissionais que participaram da cirurgia de emergência, apesar de ele ter registrado posteriormente que teria participado do procedimento. Ao contar como chegou à suspeita, ela afirmou: “Eu estudei muito o prontuário, devido a entender um pouco, e eu já tinha visto a evolução dele relatando o que ele realizou, fez parte do ato cirúrgico. E eu já tinha visto que ele não fez parte do ato cirúrgico porque todos os documentos dos hospitais são descritos com a equipe que participou, e o nome dele não estava na equipe”, revelou.
Por isso, segundo Ana, a família já imaginava que a questão poderia aparecer na investigação, mas não sabia se a Polícia Civil consideraria o fato suficiente para um indiciamento. A irmã afirmou que a confirmação desse ponto no relatório final foi considerada importante pelos familiares. “Eu já tinha suspeitado disso, mas não sabia se realmente entraria ou não no indiciamento. Então, muito importante ter entrado”, destacou.
Agora, além de acompanhar a tramitação do caso na Justiça, a família pretende buscar medidas na esfera administrativa. Ana afirmou que os familiares pretendem protocolar, por meio do advogado que representa a família, um pedido de suspensão cautelar dos profissionais junto ao Conselho Regional de Medicina (CRM). A iniciativa ocorre após a conclusão do inquérito e diante das condutas apontadas pela Polícia Civil. Ao falar sobre os próximos passos, ela afirmou: “Agora, hoje, por meio do nosso outro advogado, nós estaremos dando entrada no CRM com um pedido de suspensão cautelar para ver se a gente consegue ter algum retorno sobre isso”, disse.
Mesmo com a busca por responsabilização, Ana afirmou que a família ainda enfrenta o processo de luto pela morte de Giovanna. Segundo ela, a luta por justiça acontece ao mesmo tempo em que os familiares tentam reconstruir a própria rotina sem a presença da empresária. Ao falar sobre esse momento, Ana destacou: “Para ser sincera, a gente tá tentando viver o nosso luto, que é muito difícil também, em meio à luta. Agora vamos seguir os trâmites na Justiça. A nossa luta, ela tá começando, esse é o primeiro passo, e seguimos tentando começar e recomeçar a nossa vida sem a Giovanna”, afirmou.
O caso
Giovanna Coelho Gomes morreu no dia 8 de agosto, após apresentar complicações no pós-operatório de uma série de procedimentos estéticos realizados em um hospital particular de Belém. Segundo o laudo de necropsia, a empresária morreu em decorrência de choque circulatório irreversível associado a choque hemorrágico e síndrome compartimental abdominal.
A Polícia Civil indiciou quatro médicos após concluir a investigação. O cirurgião plástico André Melo foi indiciado por homicídio culposo majorado e falsidade ideológica; o anestesista César Collyer, por homicídio culposo majorado; o médico Marcelo Antony Dantas, plantonista da madrugada, por homicídio culposo majorado; e a médica Aline Kzam, plantonista da manhã, por homicídio culposo sem a majorante.
O inquérito será encaminhado ao Ministério Público do Pará, que deverá analisar as conclusões da Polícia Civil e decidir sobre o eventual oferecimento de denúncia. O indiciamento não representa condenação, e os profissionais ainda terão direito à ampla defesa e ao contraditório nas etapas judiciais do processo.
A reportagem tenta contato com a defesa de todos os citados. O espaço segue aberto. A defesa do médico Marcelo Dantas, representada pelo advogado criminalista Lucas Sá, comentou o indiciamento e afirmou que o profissional não foi ouvido pela Polícia Civil antes da conclusão do inquérito.
Segundo a defesa, o advogado teve acesso aos autos menos de 18 horas antes da oitiva e pediu o adiamento do depoimento para a próxima semana, alegando a complexidade do caso e o fato de Marcelo ter sido convocado após cumprir um plantão de 24 horas. “Marcelo Dantas foi indiciado sem ter sido ouvido durante a investigação. Apesar do pedido fundamentado apresentado pela defesa, o inquérito foi concluído sem que Marcelo tivesse a oportunidade de prestar seus esclarecimentos”, afirmou Lucas Sá.
A defesa informou que pretende apresentar a versão do médico nas próximas etapas do caso e que possui documentos que, segundo o advogado, demonstrariam que Marcelo não agiu com negligência ou omissão no atendimento à paciente. “A defesa ressalta que Marcelo pretende ser ouvido e apresentar sua versão dos fatos. Também possui documentos que, segundo a defesa, demonstram que o médico não agiu com negligência ou omissão no caso”, concluiu.
Palavras-chave
COMPARTILHE ESSA NOTÍCIA