Caso Giovanna: Advogado diz estar ‘perplexo’ com as investigações e espera condenação dos 4 médicos
Entre os pontos considerados mais graves pelo advogado Marco Pina está o indiciamento do cirurgião plástico André Melo também por falsidade ideológica
O advogado criminalista Marco Pina, que atua na defesa da família da empresária Giovanna Coelho Gomes, de 29 anos, afirmou, nesta sexta-feira (4), que o resultado das investigações da Polícia Civil do Pará causa “perplexidade” e revelou uma sucessão de supostos erros, negligências e omissões apontados durante a apuração da morte da empresária. Para o advogado, além das falhas que teriam contribuído para o agravamento do quadro de Giovanna, a investigação revelou uma situação considerada ainda mais grave: a inserção, no prontuário da paciente após a morte, de uma informação que, segundo a Polícia Civil, não correspondia à realidade. Ao avaliar o encerramento do inquérito, Marco Pina afirmou que a dimensão das descobertas surpreendeu não apenas os advogados, mas também os familiares da vítima. “Olha, é um inquérito que causa perplexidade, a verdade é essa. Não só em nós, enquanto advogados da família, mas na própria família”, disse.
Segundo o advogado, a investigação apontou uma sequência de condutas que, na avaliação da defesa da família, demonstraria que Giovanna foi vítima de uma série de falhas durante o atendimento médico. Pina afirmou que, além das supostas negligências e omissões, a perícia também teria contribuído para esclarecer as circunstâncias da morte. Para ele, o conjunto de elementos reunidos pela Polícia Civil reforça a suspeita de que a empresária foi submetida a procedimentos e cuidados inadequados. “Porque se não bastasse uma sucessão de erros, de negligência, de omissões, até de perícia, onde se constatou que a Giovanna, infelizmente, foi vítima de péssimos profissionais”, falou.
Entre os pontos considerados mais graves pelo advogado está o indiciamento do cirurgião plástico André Melo também por falsidade ideológica. Segundo a Polícia Civil, o médico teria inserido no prontuário de Giovanna, após a morte da paciente, uma informação que não correspondia aos fatos. Para Marco Pina, a conduta atribuída ao profissional torna o caso ainda mais grave porque teria ocorrido quando Giovanna já estava morta. Ao explicar o que considera uma das principais descobertas da investigação, o advogado afirmou: “O médico, doutor André Mello, que fez a cirurgia na Giovanna, além de ser indiciado por homicídio culposo majorado, ele foi indiciado por falsidade ideológica. E sabem por quê? Porque ele simplesmente, depois da Giovanna já morta, já em óbito, ele acessou o prontuário da Giovanna, já morta, repito, e inseriu uma informação falsa”, disse.
A informação contestada, segundo o advogado, estaria relacionada à participação de André Melo na segunda cirurgia realizada em Giovanna, após o agravamento do quadro clínico. De acordo com Pina, o cirurgião teria registrado que participou da chamada reabordagem, mas os elementos reunidos durante a investigação apontariam que ele não esteve efetivamente envolvido no procedimento. Ao detalhar o conteúdo que teria sido inserido no prontuário, o advogado afirmou: “Ele colocou no prontuário que teria participado da reabordagem, que é um segundo procedimento cirúrgico, que ocorreu no sábado, dia 8, e ele não participou”, revelou.
Marco Pina destacou ainda que a versão atribuída ao cirurgião teria sido confrontada com os depoimentos de outros profissionais que participaram da cirurgia. Segundo o advogado, essas testemunhas teriam negado a presença ou a participação efetiva de André Melo no procedimento. “Ele foi desmascarado, ele foi desmentido no inquérito pelos outros profissionais que fizeram parte do procedimento, que afirmaram que ele não participou, inclusive pessoas que tiveram na reabordagem dele, ele não se fez presente em nenhum momento”, declarou.
Para o advogado da família, a suposta inserção da informação no prontuário, caso confirmada no processo judicial, representa um agravamento da situação envolvendo o cirurgião. Pina afirmou que a família considera especialmente grave o fato de a alteração ter ocorrido depois da morte da empresária. “Então, se não bastasse tudo isso, ele ainda mentiu, o que agrava mais ainda a situação dele”, afirmou.
O advogado também elogiou o trabalho realizado pela Polícia Civil durante a investigação e afirmou que, na avaliação da família, o inquérito conseguiu reunir elementos importantes para esclarecer o que aconteceu com Giovanna. Pina destacou que agora o caso entra em uma nova etapa, que será conduzida pelo Ministério Público e posteriormente pela Justiça. “A Polícia Civil fez um excelente trabalho, um brilhante trabalho, e agora vai para a Justiça”, disse.
Com o encerramento do inquérito, caberá ao Ministério Público do Pará analisar as conclusões apresentadas pela Polícia Civil e decidir se oferece denúncia contra os quatro médicos indiciados. Caso a denúncia seja aceita pela Justiça, os profissionais passarão à condição de réus em uma ação penal. Segundo Pina, a expectativa da família é que os elementos reunidos durante a investigação sejam confirmados ao longo do processo. Ao falar sobre os próximos passos, o advogado afirmou que a defesa espera que a responsabilização avance para a esfera judicial: “E o Ministério Público é que vai ter a incumbência agora, a competência de oferecer a denúncia e fazer com que esses quatro indiciados, todos médicos, três médicos e uma médica, virem réus em uma ação penal que irá tramitar no Fórum Criminal de Belém”, afirmou.
A defesa da família também espera que, durante a eventual ação penal, as provas produzidas no inquérito sejam submetidas ao contraditório e confirmadas ao longo da instrução processual. Marco Pina afirmou que a família pretende acompanhar o processo até o julgamento e espera que os profissionais sejam responsabilizados ao final, caso as acusações sejam comprovadas. “A expectativa é que, durante a ação penal, o que foi produzido no inquérito seja confirmado e, ao final da instrução criminal, garantida ampla defesa, o contraditório, o devido processo legal, todos sejam devidamente condenados”, declarou.
Giovanna Coelho Gomes morreu no dia 8 de agosto, após apresentar complicações no pós-operatório de uma série de cirurgias plásticas realizadas em um hospital particular de Belém. O laudo de necropsia apontou como causa da morte choque circulatório irreversível associado a choque hemorrágico e síndrome compartimental abdominal.
A Polícia Civil indiciou o cirurgião plástico André Melo por homicídio culposo majorado e falsidade ideológica; o anestesista César Collyer por homicídio culposo majorado; o médico Marcelo Antony Dantas, plantonista da madrugada, por homicídio culposo majorado; e a médica Aline Kzam, plantonista da manhã, por homicídio culposo sem a majorante.
A reportagem tenta contato com a defesa de todos os citados. O espaço segue aberto. A defesa do médico Marcelo Dantas, representada pelo advogado criminalista Lucas Sá, comentou o indiciamento e afirmou que o profissional não foi ouvido pela Polícia Civil antes da conclusão do inquérito.
Segundo a defesa, o advogado teve acesso aos autos menos de 18 horas antes da oitiva e pediu o adiamento do depoimento para a próxima semana, alegando a complexidade do caso e o fato de Marcelo ter sido convocado após cumprir um plantão de 24 horas. “Marcelo Dantas foi indiciado sem ter sido ouvido durante a investigação. Apesar do pedido fundamentado apresentado pela defesa, o inquérito foi concluído sem que Marcelo tivesse a oportunidade de prestar seus esclarecimentos”, afirmou Lucas Sá.
A defesa informou que pretende apresentar a versão do médico nas próximas etapas do caso e que possui documentos que, segundo o advogado, demonstrariam que Marcelo não agiu com negligência ou omissão no atendimento à paciente. “A defesa ressalta que Marcelo pretende ser ouvido e apresentar sua versão dos fatos. Também possui documentos que, segundo a defesa, demonstram que o médico não agiu com negligência ou omissão no caso”, concluiu.
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