MPF pede medidas urgentes de proteção ao homem em situação de rua vítima de ataque em Belém
O Ministério Público Federal também convocou reunião, para sexta-feira (17/4), com representantes do Centro Universitário do Estado do Pará (Cesupa), instituição na qual os suspeitos no ataque estão matriculados
O Ministério Público Federal (MPF) enviou ofícios, nesta quarta-feira (15/4), a diversas autoridades requerendo a adoção de medidas imediatas de proteção em favor do homem em situação de rua que foi atacado com uma arma de eletrochoque em Belém. O caso em questão ocorreu na segunda (13/4) e repercutiu nacionalmente.
O pedido ocorre após o MPF receber a informação de que a vítima permanece circulando pelas ruas da cidade sem qualquer acolhimento por parte dos órgãos de assistência social, estando exposta a novos riscos à sua integridade física, moral e psicológica.
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Os requerimentos foram direcionados ao procurador-geral de Justiça (PGJ), do Ministério Público do Estado do Pará (MPPA), ao prefeito de Belém e à Fundação Papa João XXIII (Funpapa).
O MPF também convocou reunião na sexta-feira (17/4) com representantes do Centro Universitário do Estado do Pará (Cesupa), instituição na qual os suspeitos no ataque estão matriculados. O Ministério Público Federal espera obter informações atualizadas sobre as providências já adotadas e discutir medidas concretas de reparação e não repetição das condutas constatadas.
Evitar a revitimização
Conforme o MPF, o objetivo é garantir a segurança do homem e a prestação de assistência de saúde e social, evitando a sua revitimização, uma vez que a agressão, registrada em vídeo na tarde da última segunda-feira (13/4), foi amplamente divulgada nas redes sociais, expondo a imagem e a identidade da vítima.
De acordo com o ofício assinado pelo procurador regional dos Direitos do Cidadão no Pará, Sadi Machado, a vítima encontra-se em extrema vulnerabilidade. O quadro é agravado por sua condição de deficiência intelectual e pela ausência de recursos materiais para subsistência. Apesar da gravidade do ataque, o homem não está sendo devidamente atendido pelo poder público, ainda conforme o Ministério.
O pedido do MPF fundamenta-se na Resolução n.º 243/2021 do Conselho Nacional do Ministério Público (CNMP). A norma, em seus artigos 6º e 7º, estabelece o dever institucional de zelar pela proteção, segurança e intimidade das vítimas, garantindo apoio e atendimento especializado por meio de equipes multidisciplinares ou encaminhamento a redes de apoio externo, como forma de reduzir os danos decorrentes do fato criminoso.
Ao procurador-geral de Justiça do estado do Pará, o MPF solicitou o encaminhamento das informações à Promotoria de Justiça com atribuição criminal sobre o caso. A finalidade é avaliar a necessidade de requisições administrativas ou requerimentos judiciais junto aos órgãos de segurança e assistência social. As providências incluem o pedido de medidas protetivas de urgência e a inserção imediata da vítima na rede de apoio.
Histórico do caso
A agressão ocorreu na última segunda-feira (13). O vídeo que circulou nas redes sociais mostra um aluno de universidade particular utilizando o equipamento de eletrochoque contra o homem. No mesmo dia, a Procuradoria Regional dos Direitos do Cidadão (PRDC) instaurou procedimento para apurar o caso, requisitando informações à universidade no prazo de 48 horas e encaminhando representação para apuração criminal ao Ministério Público do Pará (MPPA).
A vítima, segundo levantamentos das instituições de defesa dos direitos humanos, é um homem negro que vive nas ruas há mais de seis anos, sem qualquer tipo de acompanhamento médico ou psicossocial prévio.
O ataque com eletrochoque gerou desdobramentos em outras frentes de atuação institucional. Na terça-feira (14/4), o MPF, o MPPA e as Defensorias Públicas da União (DPU) e do Estado (DPE-PA) acionaram a Justiça Federal exigindo que a União, o estado do Pará e o município de Belém executem, em até 10 dias, uma ampla campanha contra a discriminação à população em situação de rua (aporofobia). As instituições classificam o ataque como uma manifestação estrutural que cruza racismo, capacitismo e aporofobia.
O MPF informou que a atuação do órgão no tema ocorre em um contexto de grave omissão estatal. A população em situação de rua em Belém saltou de 478 pessoas, em 2014, para ao menos 2,1 mil atualmente (um aumento de mais de 500%). Apesar disso, os serviços de acolhimento sofreram reduções e precarizações.
Inspeções realizadas pelo MPF no início de 2026 flagraram irregularidades estruturais em unidades de assistência, como a Casa Rua, que operava sem alvará, sem camas adequadas e com insuficiência de alimentação e itens de higiene. Mesmo após a inauguração de um novo abrigo pela Funpapa em fevereiro deste ano — resultado de uma ação civil pública —, denúncias recentes de movimentos sociais apontam que a capacidade do local já é insuficiente e que falhas na gestão têm gerado filas e exclusão de pessoas vulneráveis do atendimento diário.
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