Agrovila quilombola de Macapazinho comemora as tradições e histórias de seus ancestrais

A agrovila de Macapazinho é uma comunidade quilombola, localizada a 15 km do centro de Castanhal, onde moram cerca de 200 famílias. O lugar é tranquilo, cercado de verde e banhado pelas águas do rio Inhangapí

Patrícia Baía

A agrovila de Macapazinho é uma comunidade Quilombola, localizada a 15 km do centro de Castanhal, onde moram cerca de 200 famílias. O lugar é tranquilo, cercado de verde e banhado pelas águas do rio Inhangapí.

A comunidade foi fundada em 15 de novembro de 1894. E lá se vão 128  anos de tradição, histórias e cultura dos moradores remanescentes de quilombolas. E é dessa ancestralidade que todos têm muito orgulho de pertencer, como explica a Janete Oliveira, que faz parte da Associação dos Remanescentes de Quilombola de Mcapazinho e também é secretária de Cultura de Castanhal.

“Em 2017 a comunidade foi titulada Comunidade Quilombola. Técnicos da Fundação Palmares deram a certificação que de fato é uma comunidade quilombola e foi feito um estudo que investigou desde os túmulos nos cemitérios da comunidade que tem datas e serviram de referência, os artefatos e a própria auto declaração da comunidade”, contou.

Bolo gigante para celebrar a vida na comunidade quilombola de Macapazinho (Divulgação/ Associação quilombola)

De acordo com Janete Oliveira teve um momento em que os moradores não entendiam a importância de serem remanescentes de quilombolas. “Ouve uma resistência porque algumas pessoas que viam como se fosse uma coisa ruim. Alguns achavam que ser quilombola era ser macumbeiro.  Aí você tem que explicar para o adulto o que é a sua história e que ser quilombola é sinônimo de luta, de resistência e não é inferioridade. É superioridade de guerreiros e guerreiras que pra se preservar saíram do julgo e fugiram para um lugar onde seriam livres”, explicou.

O começo

A colonização da agrovila de Macapazinho começou com a chegada dos negros que fugiam das fazendas localizadas, no que é hoje a região metropolitana de Belém, como explica Janete Oliveira. Os negros fugiam dessas fazendas que ficavam próximas ao rio Guamá e se jogavam nele vinham descendo até chegar no rio Inhangapí. Depois a correnteza os levava a entrar pelos seus afluentes. Macapazinho fica às margens do rio Apeú que é um afluente do rio Inhangapí e que por sua vez é um afluente do rio Guamá. E dessa forma eles iam parando por aqui “, explicou.

Vila é cercada de verde e banhada pelas águas do rio Inhangapí (Divulgação/ Associação Quilombola)

Janete Oliveira faz parte da quarta geração de filhos de Macapazinho e tudo começou com a chegada da escrava Sabina ao então povoado. “A bisavó da minha mãe era a escrava Sabina. Não se tem registro do seu nome completo, mas a única coisa que sabemos é que era chamada de escrava Sabina. E eu sempre digo pertenço quarta geração da minha família que não foi escravizada, ou seja, da minha vó pra cá. O processo de escravidão acabou ontem e tudo ainda é muito recente”, contou.

Tradição religiosa

Macapazinho é conhecida também pela fé e tradição religiosa de seus moradores que comemoram duas grandes festas: o Círio de Macapazinho e a Festa do Divino. Esta, segundo Janete Oliveira, é tradição dos seus ancestrais, já o Círio foi introduzido por uma pessoa de fora da comunidade.

Macapazinho também é conhecida pela fé e tradição religiosa de seus moradores (Divulgação/ Associação Quilombola)

“A minha família é detentora e guardiã da Coroa do Divino. Um dia alguém do Iphan que já esteve em Macapazinho, disse que ela teria mais de 500 anos. Provavelmente deve ter vindo sabe-se Deus de onde com a família da escrava Sabina. O avô da minha mãe que era o guardiã e ele fazia parte da irmandade de homens pretos que saiam cantando e esmolando para a festa do Divino. Essa festividade é tradição até hoje. O divino peregina por algumas comunidades como Pitimandeua, Itaboca, Raial do Remédio e Boa Vista. A coroa percorre pelo rio Inhangapí e termina com a festa em Macapazinho. A festa ocorre sempre no domingo de pentecostes”, explicou.

Trabalho com a nova geração

“Eu nasci preta mas a partir dos 30 anos eu me tornei uma mulher negra. Porque o ser negro é um posicionamento político”, disse Janete Oliveira.

O trabalho da valorização da identidade quilombola é feito com as crianças da comunidade nas duas escolas da rede municipal de ensino: a Escola Quilombola Professora Maria Bandeira e a Escola Quilombola Francisco Matos.

“As pessoas acham que tudo é preconceito ou “mi mi mim” porque a gente foi adestrado a não ver isso como preconceito e se eu não vejo isso assim eu me engajo naquele processo de querer “branquiar” as nossas características. Temos essa cultura do que é bom é branco. Por isso a necessidade de trabalhar com essas crianças e quebrar esse processo de inferiorizarão em ser negro”, enfatizou.

Pará
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