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Jerusalém: A cidade que dá vida a uma história de dois mil anos

Locais narrados nos últimos dias de Jesus Cristo atraem cada vez mais fiéis à Terra Santa

Daniel Nardin

É bastante popular a expressão “ver para crer”, que lembra a atitude do discípulo Tomé ao questionar os relatos das aparições de Jesus Cristo, já ressuscitado. Numa reação bastante humana, ele duvidou. “Se eu não vir o sinal dos cravos em suas mãos, e não puser o meu dedo no lugar dos cravos, e não puser a minha mão no seu lado, de maneira nenhuma o crerei”, disse, de acordo com o Evangelho de João (20:25). Afinal, Tomé tinha testemunhado bem de perto a “Paixão de Cristo”: as acusações, humilhações, a condenação, a violência sofrida e a morte de seu mestre, Jesus, numa cruz - num sádico ritual praticado por soldados romanos, sob o olhar de autoridades religiosas da época, na dominada Judéia dos primeiros anos da hoje chamada “Era Cristã”.

De acordo com o Novo Testamento, oito dias depois, estavam novamente os doze discípulos reunidos quando Jesus surgiu no ambiente e pediu a Tomé que tocasse em suas chagas. “Porque me viste, Tomé, creste; bem-aventurados os que não viram e creram” (João 20:29).  

A passagem bíblica lembra aos cristãos que “ver” não deve ser condição para “crer”. No entanto, vivenciar de perto, pisar e tocar em alguns dos locais onde as conhecidas histórias ocorreram certamente reforça e aumenta a própria crença. “Quem é cristão sempre ouviu ou leu sobre os lugares dos milagres e das passagens descritas na Bíblia. Acreditamos nisso, sem precisar ver. Mas, quando estamos nesses locais, não tem como negar que fortalece a fé, renova, pois comprova que não é uma história e uma imagem que formamos na nossa imaginação. Esses locais, essas histórias existem e são reais”, comenta a jornalista e empresária Cleide Pinheiro, que já esteve em Jerusalém, em Israel, por duas vezes. E ela planeja a terceira. “Com a pandemia, tive que adiar, mas estou planejando viver tudo de novo. Posso ir várias vezes nos mesmos lugares, mas cada vez será uma experiência única e diferente”.

Vista da cidade de Jerusalém, um local com significados da espiritualidade de diferentes pessoas (Daniel Nardin / O Liberal)

É em busca dessa experiência de renovar ou fortalecer a própria fé que o turismo religioso em Israel, especificamente em Jerusalém, só aumenta a cada ano. E espera-se a volta da retomada para os próximos, após o período de restrições impostas pela pandemia. A curva crescente foi interrompida em 2020 e 2021, após um recorde registrado em 2019, quando 4,5 milhões de turistas estrangeiros visitaram o país. Mais de 80% foram até Jerusalém e a maioria (54%) se autodeclarou como cristãos, enquanto 25% eram judeus.

O volume de visitantes é considerável em abril, quando coincidem a Páscoa judaica (Pessach) e a Páscoa Cristã - considerada a data mais importante do Cristianismo, junto com o Natal. “Elas se complementam, pois se no Natal celebramos o nascimento de Deus vivo, na Páscoa celebramos sua vitória sobre a morte, por nós. E esses momentos marcantes da história ocorreram nesses locais. O cristão não precisa ir até Jerusalém para crer, mas quem tem oportunidade de ir certamente renova e vive uma experiência única”, resume o pastor Phelipe Câmara, da Assembleia de Deus.

O que atrai cristãos das mais diferentes correntes são os lugares. Justamente, os que marcam os principais acontecimentos dos chamados “últimos dias de Cristo” antes de sua morte e ressurreição. No roteiro, nomes conhecidos e diversas vezes citados no Novo Testamento, como o Monte das Oliveiras, o Jardim do Getsêmani, a Via Crúcis e o Santo Sepulcro.

O Monte das Oliveiras é tida como uma das mais belas vistas de Jerusalém (Philipe Câmara / Acervo Pessoal)

Monte das Oliveiras: a melhor vista da cidade

O primeiro ponto em boa parte dos roteiros é o mirante localizado no alto do Monte das Oliveiras. De lá, é possível ter uma vista única da cidade velha, os pórticos históricos, o Monte Moriá, onde fica a Cúpula da Rocha revestida de ouro, igrejas, mesquitas, sinagogas e, abaixo, na encosta, um milenar cemitério com túmulos de até três mil anos.

Independentemente da fé e crença individual, a vista é, de fato, deslumbrante a qualquer hora. Especialmente no final da tarde, com o famoso céu dourado de Jerusalém, que pinta a paisagem. O Monte das Oliveiras é citado em vários momentos, tanto no Velho como no Novo Testamento. É lá que, nos últimos dias, Jesus e seus discípulos dialogam, e onde Cristo faz profecias sobre seu destino e o futuro da cidade. Também é neste monte que fica o “Jardim do Getsêmani”, que abriga um caminho com oliveiras, um bom espaço para meditação. Foi nesse local que, segundo os evangelhos, Jesus orou tão profundamente que chegou a suar sangue, e disse a frase: “Pai, se queres, afasta de mim este cálice”. Contudo, que não seja feita a minha vontade, mas a tua” (Lucas 22:42).

O muro das lamentações, em Jerusalém (Daniel Nardin / O Liberal)

O Muro que relembra o Templo

Já no interior da cidade, está um local que lembra um dos episódios mais marcantes da passagem de Jesus Cristo por Jerusalém. A repreensão e expulsão dos mercadores que ocupavam áreas do templo para comércio, relatado no evangelho de Lucas (19:45). O templo, na época de Jesus, era o chamado Segundo Templo, reconstruído após o período em que o povo judeu foi levado em exílio para a Babilônia. Na conquista, em 586 a.C, o Primeiro Templo foi destruído. Ele havia sido erguido pelo rei Salomão, autor do livro de Provérbios e filho de Davi, tido como maior rei da história de Israel.

O Templo da época de Jesus, citado em diversos momentos, foi destruído em 70 d.C. pelos romanos. Da outrora imponente construção restou apenas o Muro Ocidental, conhecido também como Muro das Lamentações. O nome é uma referência por reunir, ao longo dos séculos, judeus que oram em frente ao muro – lamentando a destruição do templo e orando pela vinda do Messias.

No local, judeus e turistas deixam preces escritas em pequenos pedaços de papel, colocados nas frestas da estrutura - e que, anualmente, são recolhidas pelas autoridades e queimadas, durante cerimônias de oração em favor dos pedidos.

Para acessar o espaço e chegar até o muro, não existe restrição. Porém, é necessário lavar as mãos e usar um “kipá”, uma peça usada pelos homens judeus sobre a cabeça. Aos não-judeus, é entregue uma peça gratuitamente, que deve ser devolvida após a visita.

O “kipá” tem uma simbologia: demonstra respeito a Deus e lembra que sempre existe algo acima do homem. O Muro também é dividido: um lado para homens e outro para mulheres, que também devem cobrir a cabeça usando um véu.

A Via Crúcis: sofrimento, morte e ressurreição

Cruzando as ruelas de intenso movimento, basta seguir os grupos de peregrinos para encontrar o início da Via Crúcis, também chamada de Via Dolorosa. São 14 pontos que contam o caminho de Jesus carregando a cruz, da condenação ao sepultamento.

Todos eles estão marcados por pequenas placas metálicas, com o número da estação em números romanos - quase imperceptíveis na paisagem, a não ser pela quantidade de pessoas que sempre param em frente às mesmas, em grupos, durante a peregrinação, em procissão, ou fazendo orações. A breve caminhada tem cerca de 800 metros.

As últimas estações estão localizadas em uma imponente e histórica edificação: a Igreja do Santo Sepulcro. Com diferentes anexos, herdados após reformas ao longo do tempo, o prédio tem origem no século IV d.C. Convertido, o imperador romano Constantino enviou sua mãe, Helena, que era cristã, para a Terra Santa, com o objetivo de encontrar a cruz e outras relíquias.

Após pesquisas, ela identificou então o Gólgota, citado no Novo Testamento como o local da crucificação. Ali foi erguido um templo para proteger o local indicado como a gruta que recebeu o corpo de Jesus. Ao longo dos séculos, o espaço foi sendo ampliado, especialmente no período das Cruzadas, de intensas disputas entre cristãos europeus e muçulmanos árabes.

A história da igreja milenar é rica em detalhes. Alguns cruéis, como mortes durante ocupações, incêndios e outros momentos críticos. Hoje, algumas curiosidades marcam o local, lembram guias locais. Desde 1192, gerações de uma mesma família muçulmana guarda as chaves da entrada principal da Basílica. Sendo de outra religião, a família “neutra” evita que a edificação seja ocupada por uma das correntes que dividem os espaços internos.

A Igreja do Santo Sepulcro representa uma parte da diversidade em torno da crença cristã. Hoje, a administração e a guarda do prédio são responsabilidades de seis comunidades distintas: gregos ortodoxos, armênios, etíopes, sírios, franciscanos e coptas. E, ainda que sob a mesma fé em Cristo, os grupos pouco interagem e não integram celebrações - e até é comum observar discussões frequentes. Literalmente, é cada um no seu quadrado: da limpeza à manutenção, passando pelas celebrações e espaços.

Também conhecida como Basílica da Ressureição, o espaço reúne os locais onde parte do mundo cristão acredita que ocorreu a crucificação, o sepultamento e a ressurreição de Cristo.

Imagem da Basílica do Santo Sepulcro, também chamada de Basílica da Ressurreição (Daniel Nardin / O Liberal)

Ao entrar é preciso respirar fundo e concentrar onde irá focar a atenção, diante da quantidade de gente, das cores, cheiros, luzes, arquitetura e ornamentação. Logo próximo da entrada está a Pedra da Unção, sempre bastante perfumada. Lá, fiéis aguardam o momento para se ajoelhar, beijar e esfregar objetos, fotos de parentes ou lenços na pedra – na qual, se acredita, teria sido deitado o corpo de Cristo após a crucificação, para ser ungido antes do sepultamento.

Mais adiante, estreitas escadas de pedra escura. Subindo, chega-se a uma sala mais alta dentro da estrutura da igreja. Neste local, diz a crença, está o ponto do Monte do Calvário ou Monte Gólgota, onde Jesus foi crucificado. Essa rocha é protegida por uma grossa camada de vidro. E também provoca nova fila, para que fiéis possam se aproximar.

No centro da edificação está o atrativo principal, que causa mais longas e demoradas filas. No meio da igreja, que tem formato circular, está um mausoléu de mármore. É ali que se aponta ter sido o ponto da gruta em que o corpo de Jesus foi sepultado, para então ressuscitar.

Próximo dali, mas sem um grande templo, está a "Tumba do Jardim". O local foi descoberto em 1867 e é considerado pela corrente cristã formada por protestantes e evangélicos como o local do sepultamento e ressurreição de Cristo. No local, com menos visitantes que a Igreja do Santo Sepulcro, é comum encontrar grupos orando e cantando.

"Apesar de algumas divergências de crenças sobre os pontos exatos, o que se tem certeza é que tudo se passou em Jerusalém. E isso está não só nas Escrituras, mas também em documentos históricos. A cidade tem uma rica história, onde se cumprem as profecias, citadas no Velho Testamento. A Páscoa remete diretamente a Jerusalém e nos traz a lembrança e a lição mais importante: que Jesus foi duramente castigado, teve uma morte cruel e violenta e tinha o poder para interromper aquilo. Foi até tentado. Mas resistiu e fez isso por nós, para vencer a morte e ressuscitar glorificado. Essa é a maior história da humanidade. E ter sido nessa cidade, nesses locais, é o que torna esse lugar e essa região tão especiais, e o que inspira tanta gente, todos os anos, por gerações e gerações”, resume Phelipe Câmara.

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