Paysandu: relembre os protestos da torcida que terminaram em crise e renúncia do presidente
Manifestações na Curuzu, no CT e na sede social marcaram o auge da crise política antes do pedido de recuperação judicial.
A crise que hoje leva o Paysandu a um processo de recuperação judicial não surgiu de forma repentina. Ao longo da última temporada, uma sucessão de protestos escancarou o desgaste entre torcida e diretoria, em um ambiente de pressão crescente que culminaria, meses depois, na renúncia do então presidente Roger Aguilera.
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O primeiro sinal mais visível de ruptura veio ainda na reta final da Série B do Campeonato Brasileiro. Na Curuzu, antes de um confronto decisivo contra o Avaí, torcedores exibiram faixas de repúdio e direcionaram críticas abertas à gestão. O time ocupava a lanterna da competição, com chances de rebaixamento próximas da confirmação matemática, e o clima nas arquibancadas refletia não apenas a frustração com o desempenho dentro de campo, mas também a insatisfação com os rumos administrativos do clube.
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A crise esportiva serviu de estopim para reivindicações mais amplas. Além das cobranças por reforços e mudanças no departamento de futebol, a pauta política ganhou força. Torcedores passaram a defender alterações no estatuto para garantir direito de voto ao sócio-torcedor nas eleições presidenciais — uma demanda antiga, que ressurgiu com vigor em meio ao cenário de instabilidade. O argumento central era de que a base da torcida, responsável por significativa parcela das receitas, deveria ter participação direta nas decisões estratégicas.
A mobilização extrapolou os jogos. Durante uma sessão de treinos, integrantes da torcida foram ao CT Raul Aguilera, em Águas Lindas, para cobrar explicações de jogadores, comissão técnica e dirigentes. O encontro foi classificado pelo clube como pacífico e durou cerca de 30 minutos. Ainda assim, evidenciou a tensão que cercava o ambiente bicolor: a equipe acumulava derrotas, não vencia há várias rodadas e via o risco de queda se transformar em realidade iminente.
Paralelamente, a Comissão de Festas do clube passou a convocar atos públicos em frente à sede social, na avenida Nazaré, especialmente em dias de reunião do Conselho Deliberativo (Condel). As manifestações tinham como foco principal a cobrança por transparência nas contas e a ampliação dos direitos políticos dos associados. Em notas divulgadas nas redes sociais, os organizadores reforçavam o caráter pacífico dos atos e negavam motivações partidárias, sustentando que o objetivo era “fortalecer o clube” por meio de mudanças estruturais.
Um dos episódios mais tensos ocorreu justamente durante uma dessas reuniões do Condel. Dezenas de torcedores se concentraram em frente à sede, com interdição parcial da via. Na saída dos dirigentes, houve registro de empurra-empurra envolvendo um conselheiro, que posteriormente anunciou seu afastamento das funções no clube. O episódio ampliou a repercussão da crise e acirrou o debate interno sobre governança e segurança institucional.
Enquanto isso, os problemas administrativos se acumulavam. O clube enfrentava dificuldades para honrar compromissos, recorria à antecipação de receitas e lidava com sanções internacionais, como transfer ban decorrente de dívida com o Torreense, de Portugal. A combinação de passivo crescente, punições e queda de desempenho esportivo formou um cenário explosivo.