Eleições: escolha do vice combina estratégia eleitoral e articulação política, dizem especialistas
Cientistas políticos afirmam que experiência, capacidade de diálogo, representatividade e articulação política estão entre os principais fatores considerados pelos partidos
A pouco menos de 100 dias do primeiro turno das eleições gerais deste ano, marcado para 4 de outubro, o processo de oficialização das candidaturas durante as convenções partidárias também coloca em evidência um fator-chave da disputa: a escolha dos candidatos a vice. Segundo especialistas, o companheiro de chapa exerce um papel estratégico na composição do processo eleitoral e, também, na consequente vitória da chapa.
Segundo o cientista político Carlos Siqueira, a definição do candidato a vice leva em conta, antes de tudo, o peso político que o nome possui dentro do próprio partido. De acordo com o especialista, mais do que ampliar alianças, a escolha costuma priorizar um perfil capaz de atrair votos do eleitorado, podendo recair sobre uma liderança consolidada da legenda ou alguém que tenha a confiança dos principais dirigentes partidários.
Por alguns momentos, também é essencial para as estratégias de bastidores durante a campanha. “Essa escolha ocorre em off, em articulação com os lados interessados. Daí a importância da escolha. É uma obra de engenharia política em que só participa a elite do partido. Na escolha do candidato pesa, além da confiança no nome, mas também a capacidade política e gestão da máquina pública, e mais do que isso, contribuir para o resultado eleitoral com o voto do eleitor”, detalha Siqueira.
Também de acordo com o cientista político Rodolfo Marques, fatores como experiência administrativa ou legislativa, credibilidade pública, afinidade política com o cabeça de chapa e baixa rejeição eleitoral também influenciam a escolha dos candidatos a vice.
"O vice pode representar um segmento social, uma região do estado ou do município, um recorte geográfico, um setor econômico ou um grupo político importante para a coalizão. Além disso, espera-se que esse vice ou essa vice tenha capacidade de diálogo, um perfil mais conciliador e a missão de contribuir tanto para a campanha quanto para a gestão em si", enfatiza.
Marques reforça que, em regra, a escolha do vice tem impacto menor do que a do candidato principal, mas pode influenciar determinados segmentos do eleitorado e contribuir, sem dúvida, para consolidar a imagem da chapa. “Um vice bem avaliado, por exemplo, pode transmitir confiança, reforçar a percepção de equilíbrio e ampliar apoios políticos. Ao mesmo tempo, uma escolha controversa pode gerar desgaste, especialmente quando revela conflitos internos”, pondera.
Fortalecimento de projeto político
Para Carlos Siqueira, o nome escolhido para compor a chapa majoritária costuma ser visto pelos partidos como uma forma de fortalecer o projeto político do candidato ao Executivo - seja como governador ou presidente. Segundo Carlos Siqueira, essa lógica é uma das características mais duradouras do presidencialismo de coalizão brasileiro, no qual a composição da chapa também busca favorecer o alinhamento entre os poderes Executivo e Legislativo em torno da agenda pública.
O cientista político ainda frisa que, apesar de haver pontos determinantes na definição do vice, alguns perfis podem ser mais valorizados do que outros, a depender do contexto. No entanto, essa escolha também está relacionada ao cenário político, seja no campo da esquerda ou da direita.
“Se à esquerda busca-se nomes já inseridos e experientes na prática política, geralmente são os mais carismáticos. Se for mais conservador, busca-se nomes do status conservador. Pastores evangélicos, por exemplo, e outros similares que defendem pautas conservadoras. E ainda nome famosos que podem servir aos dois lados”, observa.
O especialista ainda detalha: “Os vices, por vezes, são até mesmo ser um ‘free rider’, chamados de caronas ou aventureiros. O nome deve ter uma série de características: carisma e percepção política, ou seja, falar o que o eleitor deseja ouvir. Conservador em determinado momento, progressista em outros ”, destaca.
“Já na campanha é necessário vestir a camisa e animar a militância. Mostrar que está na campanha E que é um deles, sem hierarquia. Cumprir tarefas estratégicas, que que o nome cabeça de chapa não pode fazer. Por exemplo, ser mais duro nas respostas aos adversários da campanha e acessar grupos políticos que somente ele pode fazer”, completa o especialista.
Vices também têm papel de moderadores
Rodolfo Marques também compartilha da mesma avaliação ao destacar a importância de candidatos moderados na composição da chapa: “Em disputas muito polarizadas, costuma-se buscar um vice que transmita estabilidade e capacidade de diálogo. Quando o candidato principal tem pouca experiência administrativa, pode ser valorizado um vice com trajetória em gestão pública. Já em eleições locais, é comum priorizar nomes com força, inserção regional ou boa articulação com segmentos específicos do eleitorado”, avalia.
“A definição dentro dos prazos das convenções é importante porque oferece segurança jurídica e política para a chapa. Embora as negociações frequentemente avancem até os momentos finais, prolongar excessivamente a indefinição pode transmitir a percepção de dificuldades na construção da aliança e dificultar a organização da campanha”, acrescenta.
Palavras-chave
COMPARTILHE ESSA NOTÍCIA