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Recorde no Tesouro Direto reflete cautela e preferência por liquidez, dizem especialistas do Pará

Com maioria das aplicações em títulos atrelados à Selic e de curto prazo, investidores priorizam segurança diante das incertezas econômicas; no Pará, especialistas apontam avanço do Tesouro Direto como alternativa à poupança

Gabi Gutierrez
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As vendas de títulos públicos por pessoas físicas atingiram um recorde histórico em março, segundo dados divulgados pelo Tesouro Nacional. O volume chegou a R$ 14,79 bilhões, o maior desde a criação do programa, em 2002. A alta é impulsionada principalmente pelos juros elevados e pelo comportamento mais cauteloso dos investidores. No Pará, especialistas ouvidos apontam que o movimento também reflete uma busca crescente por segurança e liquidez em meio às incertezas econômicas.

O resultado representa uma alta de 79,2% em relação a fevereiro e de 26,5% na comparação com o mesmo período do ano passado. Um dos principais fatores foi o vencimento de R$ 7,07 bilhões em títulos atrelados à Selic, que acabaram sendo reinvestidos no mesmo tipo de papel.

Para o assessor de investimentos Antônio Guilherme de Assis, o cenário atual favorece claramente os títulos pós-fixados. “Com a Selic em 14,75%, o custo de oportunidade do risco caiu. Qualquer ativo mais arriscado precisa entregar muito mais para competir com o pós-fixado soberano”, explica. Segundo ele, o fato de 52,7% das aplicações estarem concentradas em títulos atrelados à taxa básica indica que o investidor está menos preocupado em prever o futuro dos juros e mais interessado em garantir a rentabilidade atual.

Esse comportamento também se reflete no perfil das aplicações. A maior parte das operações (73%) foi de até R$ 5 mil, com destaque para aportes de até R$ 1 mil, que representaram 45,6% do total. No Pará, esse padrão é visto como um sinal de popularização do investimento entre pequenos poupadores.

“Isso mostra menos uma mudança de perfil e mais a consolidação do Tesouro Direto como substituto da poupança”, afirma Assis. “Estamos falando de um investidor defensivo, que busca segurança e liquidez, não necessariamente alguém que está fazendo grandes estratégias de alocação.”

Outro dado que chama atenção é a preferência por títulos de curto prazo: 58,2% das vendas foram de papéis com vencimento de até cinco anos. Para o especialista, isso evidencia cautela diante do cenário econômico. “A incerteza sobre inflação e juros faz com que o investidor evite comprometer o dinheiro por longos períodos. É difícil alguém hoje se sentir confortável em investir por 20 anos, por exemplo”, pontua.

Essa leitura é compartilhada pelo também assessor de investimentos Murilo Dias, que destaca uma combinação de fatores para explicar o crescimento. “O recorde não acontece por acaso. Temos a Selic elevada, que coloca o Brasil entre os maiores juros reais do mundo, mas também há um avanço na infraestrutura digital”, diz. Segundo ele, a facilidade de investir por aplicativos e até via Pix reduziu significativamente as barreiras de entrada.

Dias avalia que o movimento é mais resultado de uma postura defensiva do que de uma evolução profunda na educação financeira. “O investidor brasileiro aprendeu o caminho, mas entra em massa quando o juro alto fecha a conta a seu favor”, afirma.

Para ele, o foco em prazos curtos revela um cenário de insegurança. “O investidor quer a rentabilidade do governo, mas com a possibilidade de sair rápido. Isso mostra receio em relação ao ambiente fiscal e político”, explica. Nesse contexto, produtos com maior liquidez ganham espaço, acompanhando a demanda por flexibilidade.

Apesar das incertezas, o estoque total do Tesouro Direto alcançou R$ 234,42 bilhões em março, com crescimento de 41,99% em 12 meses. O número de investidores também avançou, chegando a mais de 35 milhões de cadastrados.

Na avaliação dos especialistas ouvidos, o crescimento do programa indica confiança no instrumento, mas não necessariamente no cenário econômico. “O Tesouro Direto se consolidou como uma infraestrutura sólida, acessível e segura”, afirma Assis. “Mas a concentração em títulos pós-fixados de curto prazo mostra justamente o contrário de apetite ao risco: é uma fuga organizada para o ativo mais seguro.”

Murilo Dias reforça essa leitura ao classificar o Tesouro como o “porto seguro institucional” do país. “O investidor não está necessariamente otimista com o futuro, mas decidiu proteger o patrimônio no único lugar que oferece segurança e liquidez ao mesmo tempo”, conclui.

Criado para democratizar o acesso aos títulos públicos, o Tesouro Direto permite que pessoas físicas invistam pela internet com valores baixos, pagando apenas uma taxa à B3. No atual cenário de juros elevados, o programa se consolida como uma das principais portas de entrada para quem busca rentabilidade com baixo risco — inclusive entre investidores da região Norte.

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