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Pink money: comunidade LGBT faz a economia girar no Pará

Pesquisas apontam que a média de rendimento é maior e o gasto também

Eduardo Laviano / O Liberal

Uma vez ao ser perguntado sobre as razões do sucesso econômico de Denver, no estado americano do Colorado, o prefeito democrata Michael Hancock optou por uma resposta inusitada: "uma comunidade LGBT poderosa". 

A realidade não é diferente no Brasil. 21,5% da comunidade ganham entre 5 e 10 salários mínimos, de acordo com a Aliança Nacional LGBTI+. A renda mensal 40% maior do que a média dos heterossexuais ganhou nome: pink money, que faz girar mais de R$ 420 bilhões de reais por ano em solo brasileiro.

A comunidade LGBT gasta, no cartão de crédito, 78% a mais que os heterossexuais e 30% a mais quando o assunto são bens duráveis. Mas boa parte de todo este consumo está relacionada ao setor de serviços.

Realizada também no Brasil, uma pesquisa da OutSearch de 2019 mostrou que os homens gays gastam o triplo dos heterossexuais em bares e restaurantes e o motivo é, aparentemente, óbvio: eles preferem drinques e coquetéis do que cervejas.

"Na minha cabeça sempre vem a imagem de heteros consumindo em bar aquele balde de cerveja. Então acho que consumir mais, eles consomem, mas acho que o nosso consumo é mais diferenciado. A gente gosta de sair para provar drinques novos, lugares novos, coisa que eles não fazem, pois sempre ficam na mesmice da cerveja. Não sei se é um estereótipo, mas acho que na quantidade eles superam a gente. Muitos bebem todo final de semana, coisa que eu não faço", conta o professor Victor Coelho.

Planejamento

Ele diz ter um planejamento mensal muito bem definido, mas que de vez em quando precisa ser flexibilizado em nome de noites de drinques entre amigos.

"Eu sempre guardo um dinheiro mensal para os rolês do mês, mas aí chega no dia 10 já acabou. Quando eu passo muito tempo sem ver meus amigos acabo ultrapassando o orçamento e tiro dinheiro da reserva de emergência. É o combo todo que faz valer a pena: o lugar, os amigos, os drinques", conta, sem sinal de arrependimentos.

Os estudos mostram também que a comunidade LGBT tem maior potencial de consumo por atingirem a independência financeira mais cedo e não terem filhos, em sua maioria. Mas o gestor de mídias sociais Rafael Oliveira enxerga outros elementos na equação.

"Culturalmente, acho que a gente se sente mais a vontade para experimentar as coisas da vida, coisas novas. A gente se dá mais liberdade. Esse consumo massivo é um apontamento de que estamos invadindo alguns espaços que eram predominantemente heterossexuais. Estamos invadindo alguns espaços pois queremos não só consumir, mais curtir lugares legais com os nossos amigos, como qualquer outra pessoa. É um privilégio recente para a comunidade", avalia.

Ambiente favorável

O pink money, porém, fez urgir a necessidade de um outro termo: gay-friendly, o inglês para "amigável para os gays". Cunhado por sites de turismo no início dos anos 2000, a categoria serve para identificar bares, restaurantes e hotéis reconhecidos pelo tratamento indistinto aos clientes homossexuais e que não toleram comportamentos homofóbicos nas dependências dos estabelecimentos.

Para Victor e Rafael, um fator primordial na hora de escolher onde gastar o dinheiro.

"Temos que pensar também sobre o quão bem-vindos somos em um lugar. Queremos falar as coisas que queremos falar, nossos assuntos... Nem sempre todo bar é convidativo. Até essa escolha não é aleatória. É muito bom estar em local despreocupado. Quando me chamam para um bar que eu não conheço, a primeira coisa que penso é: será que vai ter muito hetero? será que vou me sentir a vontade?", reflete Victor.

"Queremos sempre pensar em segurança para a gente, mas os outros lugares que não são para a gente só vão começar a ser se estivermos lá. Se tenho a disposição e condição financeira, tenho o direito de estar lá", advoga Rafael.

Tendência de mercado

Daniel Leite é um dos proprietários do bar com uma das cartas de drinques mais celebradas de Belém, o Ôvibe Hostel & Arts. Ele captou esse movimento ainda em 2018, quando a casa abriu, e percebeu que o público LGBT rapidamente elegeu o local como referência na noite da capital paraense, tanto para quem gosta de coquetéis extravagantes e autorais, quanto para quem quer curtir a noite em segurança.

"Temos galeria de arte, festas, gastronomia e coquetelaria. Nossa finalidade é fomentar a cultura local. Acabou que as coisas foram fluindo e a cultura LGBT foi se identificando com a nossa casa não só por isso, mas por conta da nossa cultura de acolhimento, de que todos são um só, iguais, com respeito a todos. Tem um público muito cervejeiro também, mas a nossa carta atrai muitos clientes pela curiosidade. As pessoas experimentam e se surpreendem", afirma ele.

Hoje, 60% do faturamento do negócio vem do bar, que conta com drinques que misturam cachaças e vodkas do mundo todo com açaí, jambu, taperebá e outros ingredientes amazônicos - todos em taças e decorações "instagramáveis" que deixam qualquer um com pena de beber.

"Trabalhar com drinques é muito bom para qualquer negócio, especialmente quando se tem uma comunidade que sempre está consumindo eles. Isso é porque o CMV, custo de mercadorias vendidas, é muito baixo", aponta ele, se referindo ao índice que calcula financeiro que calcula os gastos para produzir ou armazenar um determinado item até que ele seja negociado com o cliente, denotando o quanto foi investido para que tal bem seja vendido.

Além do dinheiro

Para a psicóloga Thaysse Gomes, as raízes do consumo vão além das condições financeiras da comunidade LGBT. Segundo ela, o histórico da rejeição da comunidade é um campo fértil para as empresas faturarem justamente pelo fato de gays, lésbicas, bissexuais e transexuais não estarem acostumado a serem bem tratados ou nem sequer lembrados na hora da concepção de um negócio ou estabelecimento.

"O que está por trás do ato de comprar? Nós, humanos, vamos nos constituindo enquanto parte da sociedade e vamos adquirindo recursos psíquicos para lidar com problemas e, quando não, vamos buscando coisas externas para ajudar com isso. Hoje em dia esse público que era rejeitado é tratado como centro das atenções em muitos lugares, o que aumenta o desejo do consumo", observa.

Apesar do fascínio que a cultura gay exerce na cabeça de muitos heterossexuais, Gomes entende que este consumo está atrelado não só ao caráter naturalmente desbravador da comunidade, mas ao fato de heterossexuais seguirem normas muito rígidas para serem vistos como másculos diante dos olhos de terceiros.

"A heteronormatividade te apresenta um padrão e uma vez que tu quebras aquilo, você já está fora dele mesmo, então tudo é possível. É muito difícil mesmo ver heterossexuais transitando por ambientes diferentes do padrão, pois eles tem um conjunto de regras e símbolos muito frágeis que constituem esse imaginário. Beber cerveja vendo futebol faz parte disso. Uma mulher heterossexual é livre para transitar nesses meios [gays], mas os homens não, pois tem aversão a tudo que é tido como feminino, como é o caso dos drinques", afirma.

E ela completa:  "Os heterossexuais possuem muito conforto também no ambiente familiar, o que atrasa a busca por independência, inclusive financeira. Com a comunidade LGBT é, o contrário. É uma comunidade cuja condição de sobrevivência muitas vezes está ligada ao ato de sair de casa, então óbvio que eles vão estudar mais e trabalhar mais".

Palavras-chave

Economia
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