'Período de adaptação será turbulento', diz tributarista sobre os impactos da reforma tributária
Principais mudaças para o consumidor devam aparecer de forma gradual a partir de 2027
A reforma tributária entrou na fase de transição e já começa a mudar a rotina das empresas brasileiras. Embora os principais impactos para o consumidor ainda devam aparecer de forma gradual a partir de 2027, empresários, contadores e profissionais da área tributária já se preparam para adaptar sistemas, reorganizar processos internos e conviver, pelos próximos anos, com o atual modelo de tributação e o novo sistema de impostos sobre o consumo.
A mudança exige investimentos em tecnologia, treinamento de equipes e revisão de estratégias financeiras. Especialistas também alertam que o período de adaptação poderá gerar incertezas, influenciar a formação de preços e afetar setores da economia de maneira diferente.
Para o advogado tributarista Domingos Assunção Neto, as empresas precisarão ir além da simples adequação às novas obrigações fiscais. Segundo ele, a reforma terá reflexos diretos na gestão financeira dos negócios.
"As empresas devem se adaptar às obrigações formais, bem como entender como a reforma vai influenciar na política de preços, nas relações com os parceiros comerciais e também no fluxo de caixa. É uma reforma tributária com expressiva repercussão na dinâmica financeira", afirma.
O tributarista destaca que outro desafio será acompanhar a nova legislação.
"Os contribuintes vão precisar lidar com uma legislação nova, o que significa dizer que ainda há muita incerteza e, por conta disso, há uma tendência de aumento das controvérsias judiciais", observa.
Empresas investem em organização e tecnologia
Na avaliação da contadora Leila Márcia, o momento exige que as empresas revisem toda a estrutura de controle interno para atender às novas exigências da reforma.
Segundo ela, a prioridade é investir em sistemas informatizados e integrar os setores responsáveis pelas operações fiscais.
"As empresas precisam estar organizadas e informatizadas. É necessário adquirir sistemas integrados, revisar processos e fazer adequações que vão desde o controle de estoque até a correta classificação de produtos e serviços", explica.
A especialista afirma que a mudança exige a participação de diferentes áreas da empresa.
"É preciso treinar e capacitar equipes de compras, financeiro e contabilidade. A informação precisa nascer correta na origem da operação, porque o setor contábil recebe tudo já processado. Agora, toda a empresa passa a fazer parte desse processo."
Para ela, empresas que já investiam em gestão e tecnologia terão uma adaptação mais tranquila. Já aquelas que ainda mantêm processos pouco estruturados precisarão fazer investimentos para atender às novas exigências.
"Não gosto de chamar de gasto. É um investimento para gerar retorno no futuro. Quem ainda não organizou seus sistemas e estoques precisará olhar para dentro da empresa e fazer essa reorganização. Caso contrário, pode perder dinheiro", afirma.
Impacto diferente entre os setores
Embora o objetivo da reforma seja simplificar a tributação sobre o consumo, os efeitos não serão iguais para todos os segmentos da economia.
Segundo Domingos Assunção Neto, comércio e indústria tendem a ser beneficiados pela ampliação do sistema de créditos tributários, enquanto o setor de serviços pode enfrentar maior impacto.
"Provavelmente o comércio e a indústria vão ser os setores com mais vantagens por conta da política de creditamento. O setor de serviços tende a ser o mais prejudicado", avalia.
O advogado também acredita que a economia paraense poderá enfrentar desafios específicos durante a transição.
"Os benefícios fiscais que eram utilizados como atrativos para a implantação de empresas no Pará vão acabar. Isso pode reduzir parte da competitividade do estado", afirma.
Preços devem mudar gradualmente
Os especialistas concordam que a reforma também deverá alterar a composição dos preços de produtos e serviços, mas os efeitos serão percebidos de forma gradual.
Para Domingos Assunção Neto, as mudanças começam a aparecer já com a implementação da CBS.
"A repercussão sobre a composição dos preços é certa. As mudanças já começam no próximo ano com a implementação da CBS."
Já Leila Márcia explica que 2026 funciona como um período preparatório para empresas e órgãos públicos.
"A reforma começa a produzir resultados efetivos a partir de 2027. Este ano ainda é de adaptação. Muitas regras continuam sendo ajustadas e podem sofrer alterações ou até prorrogações", diz.
Ela explica que o próprio consumidor passará a participar mais diretamente do novo sistema por meio das notas fiscais.
"O contribuinte também faz parte desse processo. Ele começará a perceber as mudanças nas notas fiscais e na forma como os tributos serão apresentados."
Transparência e simplificação
Entre as principais promessas da reforma tributária estão a simplificação do sistema, a redução da burocracia e o aumento da segurança jurídica para empresas e investidores. No entanto, especialistas ponderam que esses benefícios devem aparecer apenas após o período de transição.
"Essa é uma das grandes promessas da reforma: simplificação e diminuição da burocracia. Mas, como ainda estamos no início, o período de adaptação provavelmente será turbulento, porque nem tudo está definido", afirma Domingos Assunção Neto.
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