Notas de R$ 200 demoram a chegar na mão dos paraenses, mas ainda circulam
Cédula criada por necessidade operacional na pandemia perde espaço com avanço dos meios digitais e tende a ter circulação cada vez mais residual na economia brasileira
A cédula de maior valor nominal do real brasileiro, a nota de R$ 200, ainda é um mito para muitos paraenses, que nunca pegaram a nota em mãos. Ela foi lançada pelo Banco Central em 2 de setembro de 2020, para suprir uma demanda emergencial por dinheiro em espécie durante a pandemia de COVID-19. Agora, a baixa circulação levanta uma questão sobre a sua utilidade para a economia e a dificuldade de circulação, devido ao valor elevado. A tesoureira de uma rede de supermercados de grande porte de Belém Regiana Monteiro explica que os destinos da cédula se resumem a pagamentos altos ou o retorno ao banco.
Nos caixas, a tesoureira conta que as notas chegam e logo saem, já que os operadores possuem a necessidade de passar troco sempre com notas menores constantemente. Isso se soma a um temor com a veracidade das notas, que pedem uma atenção maior para o risco de golpes com cédulas falsas.
“Elas não confiam muito nas notas, devido ao fluxo de cédulas falsas. As operadoras quando pegam por meio de pagamentos, elas logo querem trocar, trazem para trocar e a gente finaliza ela aqui na sala. Até porque no caixa elas não vão conseguir ficar com ela precisando passar troco”, explica Monteiro.
Monteiro ainda relata episódios onde algumas notas falsas de R$ 200 foram utilizadas em pagamentos na unidade do supermercado em que atua, mesmo que esse tipo de situação seja pouco comum. “Já aconteceu, mas, assim, não é comum ao ponto de acontecer todo dia. Geralmente aparecem umas cédulas falsas, de R$ 200 ou até duas outras cédulas mesmo de R$ 50, ou R$ 100”, detalha.
Conforme dados fornecidos pelo Banco Central, ainda há 176.709.101 cédulas de R$ 200 em circulação no país até a última quinta-feira (09/04), em todo o território nacional, que permanecem sendo fornecidas conforme a demanda e necessidade das instituições financeiras. Mas, apesar desse número, o fluxo diário de notas não costuma ultrapassar o volume de R$ 3 mil reais em cédulas de R$ 200, como exemplifica a tesoureira. Segundo ela, de todas as notas, a de duzentos reais ainda é a que menos aparece.
Fora dos estabelecimentos comercias fica ainda mais raro encontrar testemunhas que tenham encontrado a nota de valor mais alto. A designer gráfica Thamires Lameira, de Belém, conta que há cerca de duas semanas viu as cédulas pela primeira vez, quando precisou sacar seu Fundo de Garantia por Tempo de Serviço (FGTS). “Fui retirar meu FGTS em um banco da Caixa e vieram umas quatro notas de R$ 200, mas agora só estou com uma”, explicou Lameira.
Utilidade
A cédula de R$ 200, segundo o economista paraense Nélio Bordalo Filho, nasceu de uma necessidade pontual e operacional, sem efeitos diretos sobre os principais indicadores da economia. Criada em meio ao cenário atípico da pandemia, a medida buscava reduzir custos de emissão e facilitar o armazenamento de grandes volumes de dinheiro físico diante da incerteza e do aumento da demanda por numerário. “Não gera impacto direto sobre crescimento, inflação ou renda”, avalia o especialista, ao destacar o caráter técnico da decisão.
Passados alguns anos, com a utilidade prática da nota questionada, Bordalo aponta que o avanço da inflação até poderia justificar a existência de cédulas de maior valor, mas o comportamento do consumidor mudou de forma significativa. O uso de dinheiro em espécie caiu, especialmente após a popularização de meios digitais de pagamento, o que esvaziou a relevância da nota no cotidiano. Na prática, sua função tem sido mais logística: reduzir o volume físico de dinheiro em circulação, facilitar transporte e armazenamento por bancos e viabilizar transações em espécie de maior valor. Ainda assim, com baixa adesão no dia a dia.
Esse cenário se intensificou com a expansão do Banco Central do Brasil e a consolidação do sistema Pix, que reduziram fortemente a demanda por dinheiro físico. O economista aponta que instituições financeiras e setores que ainda operam com numerário foram os principais beneficiados pela cédula, enquanto consumidores e o varejo pouco aproveitaram, diante da dificuldade de troco e da baixa circulação.
Embora não descarte a retirada da nota no futuro, ele considera que a tendência provável é de manutenção formal, porém com uso cada vez mais residual, à medida que o dinheiro físico perde espaço na economia. “O mais provável é que ela continue existindo formalmente, porém com circulação cada vez menor. A retirada dependeria de uma decisão do Banco Central baseada em custo-benefício algo que tende a ganhar força se o uso de dinheiro físico continuar caindo”, defende o economista.
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