Cenário de incertezas exige estratégia redobrada de investidores em 2026

Atual contexto combina risco fiscal, eleições e tensões externas, elevando volatilidade e reforçando importância de diversificação e planejamento

Jéssica Nascimento
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Em meio a um ambiente econômico marcado por incertezas internas e externas, investidores brasileiros enfrentam em 2026 um cenário mais volátil e menos previsível. A combinação de risco fiscal, ano eleitoral e tensões geopolíticas, como o conflito entre Estados Unidos e Irã, pressiona juros, câmbio e inflação, exigindo uma abordagem mais estratégica na alocação de recursos.

Economista e investidor ouvidos pelo Grupo Liberal apontam que, diante desse contexto, a escolha de ativos deve vir acompanhada de gestão de risco, diversificação — inclusive internacional — e definição clara de objetivos, com destaque para o papel dos pós-fixados no curto prazo e dos títulos atrelados à inflação na proteção do poder de compra.

Menos previsibilidade, mais estratégia

Para o economista Nélio Bordalo, membro do Conselho Regional de Economia do Pará e Amapá (Corecon PA-AP), a redução da previsibilidade é o principal desafio enfrentado pelos investidores neste momento.

Segundo Bordalo, o contexto atual exige mais do que simplesmente escolher bons ativos.

“Em 2026, há combinação de incerteza fiscal, eleições e choques externos em decorrência da guerra EUA x Irã, o que tende a aumentar a volatilidade de juros, câmbio e inflação”, afirma.

Ele destaca que decisões baseadas apenas em um cenário central se tornam mais arriscadas. “Estratégia passa a ser tão importante quanto a escolha do ativo, principalmente gestão de prazo, liquidez e risco”, completa.

Pós-fixados ganham espaço, mas com cautela

Com a taxa Selic ainda em patamar elevado, os ativos pós-fixados aparecem como relevante, especialmente no curto prazo. Bordalo avalia que esse tipo de investimento pode oferecer proteção em um ambiente de juros altos. 

Os ativos pós-fixados são investimentos de renda fixa cuja rentabilidade não é conhecida no momento da compra, pois está atrelada a um indexador econômico, como taxa Selic ou CDI (Certificado de Depósito Interbancário).

“Faz sentido como posição tática. Com a Selic ainda em patamar elevado e incertezas sobre o ritmo de queda, os ativos pós-fixados oferecem proteção e carregam bem o cenário”, explica.

No entanto, ele faz uma ressalva: “Não necessariamente devem ser exclusivos, porque parte do ciclo de juros já pode estar perto do pico”.

Proteção contra inflação segue essencial

Os títulos indexados à inflação continuam sendo uma ferramenta importante para preservar o poder de compra, especialmente em um cenário de maior volatilidade.

“O ponto central é que esses títulos garantem ganho real, ou seja, rendimento acima da inflação”, diz Bordalo. “Em um ambiente como o de 2026, com risco fiscal, pressão cambial e impacto de commodities, a inflação tende a ser mais volátil.”

Diversificação internacional como proteção

A diversificação fora do Brasil também ganha importância em momentos de instabilidade. Para Bordalo, investir em ativos internacionais é uma forma de reduzir a exposição a riscos locais.

“Quando o investidor investe só no Brasil, fica totalmente exposto ao que acontece aqui, como juros, inflação, política e câmbio”, afirma.

Nesse contexto, o dólar e o ouro desempenham papéis específicos. “O dólar ajuda a compensar perdas locais, já que o real tende a se desvalorizar em momentos de crise”, explica. Já o ouro, segundo ele, é visto como um ativo de segurança: “Funciona como reserva de valor e tende a se valorizar em períodos de tensão global”.

Isenção fiscal mantém LCIs e LCAs atrativas — com ressalvas

Mesmo em um cenário de juros elevados, investimentos isentos de Imposto de Renda, como LCIs e LCAs, continuam relevantes, embora exijam maior análise por parte do investidor.

“A isenção de IR mantém esses papéis atrativos frente a alternativas tributadas, especialmente em prazos mais curtos e médios”, diz Bordalo.

No entanto, ele alerta que a decisão não deve se basear apenas no benefício fiscal.

“Existem CDBs e outros títulos pagando taxas mais altas que, mesmo com imposto, podem entregar um resultado final semelhante ou até superior”.

Outro ponto importante é a liquidez. “Essas aplicações têm características específicas, como prazos mínimos e menor liquidez em alguns casos, o que exige planejamento do investidor”, conclui.

A LCI (Letra de Crédito Imobiliário) e a LCA (Letra de Crédito do Agronegócio) são investimentos de renda fixa, emitidos por bancos para financiar os setores imobiliário e agrícola, respectivamente. 

Planejamento vem antes da escolha dos ativos

Para o assessor de investimentos e educador financeiro Leonardo Macedo, o ponto de partida não deve ser o produto financeiro em si, mas os objetivos do investidor.

Macedo defende que a decisão de investir deve seguir uma lógica estruturada. “Acredito que a gente deve olhar ‘de trás pra frente’. Olhar para o produto no qual irá investir é a última etapa”, afirma.

Segundo ele, o primeiro passo é definir metas claras. “Para cada objetivo, existe um investimento que fará mais sentido”, explica. Ele cita como exemplo a formação de uma reserva de emergência, em que ativos pós-fixados tendem a ser mais adequados.

“Produtos pós-fixados, como o Tesouro Selic, são mais recomendados, pois possuem liquidez diária e permitem resgate sem penalidades, pagando apenas o imposto de renda sobre a rentabilidade”, diz.

Renda variável depende do perfil do investidor

Diante da volatilidade, muitos investidores consideram reduzir exposição a ativos de maior risco. Para Macedo, no entanto, essa decisão depende de fatores individuais.

“Como quase tudo no mercado, depende. Depende do perfil do investidor e do seu apetite a risco”, afirma.

Ele ressalta que momentos de incerteza também trazem oportunidades. “Cenários de tensão sempre carregam oportunidades para quem pode manter o investimento por mais tempo”, diz.

Ainda assim, o especialista chama atenção para a atratividade da renda fixa no Brasil. “O prêmio para investir em renda fixa é muito elevado, com rentabilidade real entre as maiores do mundo, sem grandes oscilações.”

Perigo das decisões impulsivas

Um dos principais riscos em períodos turbulentos é agir por impulso, especialmente sem uma estratégia bem definida.

“Isso acontece muito em momentos de alta. As pessoas entram na euforia e, quando o mercado cai, vendem seus ativos a qualquer preço por medo de perder tudo”, explica.

Para evitar esse comportamento, ele recomenda disciplina. “Em momentos de turbulência, é importante revisitar os motivos pelos quais você fez o investimento.”

Macedo também reforça a importância de enxergar oportunidades nas quedas. “Se fazia sentido comprar um ativo a R$ 100, por que não faria a R$ 80? Comprar mais barato é sempre melhor”, afirma. E resume: “No mercado financeiro, o dinheiro muda de mão, das pessoas mais impacientes para as mais pacientes”.

 

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