Guerra no Oriente Médio ameaça elevar custos e reduzir competitividade das exportações do Pará

Conflito entre EUA, Irã e Israel pressiona fretes, seguros e logística, impactando minério, soja e carne bovina exportados pelo estado

Jéssica Nascimento
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A guerra no Oriente Médio, envolvendo Estados Unidos, Irã e Israel, acendeu um alerta entre os exportadores do Pará. Produtos estratégicos como minério de ferro, soja e carne bovina, com destinos principais na China, Israel e Emirados Árabes Unidos, podem sofrer aumento de custos e atrasos, pressionando margens de lucro e competitividade internacional.

A instabilidade geopolítica preocupa principalmente pela possibilidade de encarecimento de fretes, combustíveis e seguros marítimos. “Temos necessidade do fluxo de combustíveis e de adubos minerais, além de nossas exportações que viabilizam a balança comercial do Pará”, observa Guilherme Minssen, diretor da Faepa (Federação da Agricultura e Pecuária do Pará). Ele alerta para a atenção especial durante o “inverno Amazônico”, quando estradas precárias já dificultam a logística interna.

Custos logísticos sob pressão

Segundo Nélio Bordalo, economista paraense e membro do Corecon PA/AP (Conselho Regional de Economia do Pará e Amapá), o conflito tem três impactos econômicos diretos para o estado:

  • Aumento nos custos de logística – “Com fretes marítimos mais altos e seguros mais caros, o custo total de exportação por tonelada embarcada sobe. Isso reduz as margens de lucro e pode pressionar para baixo os preços líquidos recebidos pelo minério, soja e carne bovina”, explicou o economista.
  • Perda de competitividade relativa – Exportadores brasileiros podem se tornar menos competitivos frente a países que enfrentam menores custos logísticos, afetando mercados estratégicos como China, Israel e Emirados Árabes.
  • Riscos de atraso e penalidades contratuais – “Maiores tempos de trânsito e incerteza sobre horários podem afetar a confiabilidade das entregas, algo crítico em contratos de commodities”, alerta Bordalo.

Ele ainda ressalta que, para mitigar impactos, será necessário otimizar cadeias logísticas, negociar melhores condições de seguro e diversificar mercados e rotas.

Impactos sobre proteínas e minério

Ribamar Braun, cientista político e pesquisador da UFPA, detalha o efeito específico no setor de proteínas.

“A perda de 1,4 bilhão de dólares no comércio com o Irã afeta cerca de 30% das exportações de carne bovina do Pará. A instabilidade no Estreito de Hormuz pode encarecer custos e reduzir a demanda, pressionando os preços internos desses produtos”, analisou.

No setor mineral, ele acrescenta que o fluxo de minério para China e Oriente Médio pode ser freado, com impacto na previsão de crescimento das exportações.

“Para 2026, o cenário é de estabilidade ou decréscimo, mesmo que muitos contratos já estejam fechados e pagamentos realizados”, avaliou.

Seguro e confiança do investidor

Para Mário Tito, professor de Relações Internacionais, a guerra gera uma retração momentânea, mais ligada à instabilidade e aos custos de seguro do que ao fim das atividades comerciais:

“O investidor gosta de estabilidade nas relações comerciais. Uma guerra sempre desestabiliza os processos econômicos. Haverá uma pausa para avaliação dos riscos, mas não acredito que as atividades deixem de ocorrer por muito tempo, porque os produtos do Pará são essenciais para esses países”, destacou.

Combustíveis também podem sentir o impacto

O advogado Pietro Gasparetto, do Sindicombustíveis Pará, alerta que a instabilidade no Oriente Médio pode repercutir diretamente nos preços de combustíveis no estado.

“O Oriente Médio concentra parte relevante da produção mundial de petróleo e das principais rotas de escoamento da commodity. Mesmo que não haja interrupção imediata na produção, o simples temor de escassez já eleva os contratos internacionais, adicionando ao preço o chamado ‘prêmio de risco’”, explica Pietro.

Ele ressalta que, apesar do Brasil produzir petróleo, ainda depende da importação de combustíveis refinados, o que torna o país sensível às oscilações internacionais.

“Quando o barril sobe no mercado externo, o valor de referência interno também é impactado. Além disso, a elevação internacional encarece as importações, aumentando o custo de reposição no mercado nacional”, disse.

Pietro também destacou que os postos revendedores não têm influência sobre os preços internacionais ou os definidos por refinarias e distribuidoras.

“A precificação é livre, cabendo apenas aos postos definir o preço de venda, sem vinculação a anúncios da Petrobras. O Sindicato seguirá acompanhando os desdobramentos do cenário internacional, defendendo transparência e equilíbrio nas relações comerciais, a fim de evitar distorções que prejudiquem o consumidor e a economia paraense”, completou.

 

 

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