Financiamento imobiliário ganha força no início do ano e exige planejamento
Procura cresce em janeiro de 2026, com atenção aos juros, renda e mudanças no mercado
O início do ano costuma ser um período simbólico para quem decide tirar projetos do papel, e isso também se reflete no mercado imobiliário. Em janeiro de 2026, a busca por financiamento de imóveis voltou a ganhar força, impulsionada pelo planejamento financeiro típico do começo do ano, pela retomada da rotina após as festas e por mudanças recentes nas regras de crédito. Especialistas apontam que, apesar do cenário de juros elevados, ainda há oportunidades, desde que o comprador avalie com cuidado sua renda, o perfil dos bancos e os custos envolvidos no processo.
Segundo o corretor de imóveis Seldon Soares, o aumento da procura nos primeiros meses do ano segue um padrão observado em outros períodos. “O início do ano é um momento em que as pessoas tendem a realizar projetos, realizar sonhos que ficaram esquecidos no ano anterior. Elas se planejam e se programam para colocar isso em prática. Então, sim, é um período em que há mais procura por financiamento imobiliário, principalmente para a compra do primeiro imóvel”, afirma. De acordo com ele, já na metade de janeiro é possível perceber a retomada do interesse, após o intervalo das férias e das despesas de fim de ano.
Mesmo com o patamar elevado da taxa de juros, Soares avalia que adiar indefinidamente a compra pode não ser a melhor estratégia. “Os clientes sempre perguntam qual é o melhor momento de comprar um imóvel. E eu sempre respondo que o melhor momento é agora. Um imóvel nunca desvaloriza. O cenário econômico influencia a taxa de juros, mas, a longo prazo, o cliente ganha com a valorização do bem”, explica. Ele destaca ainda uma mudança recente nas condições de financiamento que facilitou a entrada no mercado: a redução do valor mínimo da entrada, que voltou a ser de 20% do preço do imóvel, após um período em que era exigido 30%. “Isso diminui o recurso inicial necessário e ajuda quem estava esperando uma condição mais acessível”, diz.
As diferenças entre bancos públicos e privados também pesam na decisão. De acordo com o corretor, não existe uma opção única que seja melhor para todos os compradores. “O banco público tende a oferecer taxas de juros menores e prazos mais longos, o que costuma ser mais vantajoso para quem está comprando o primeiro imóvel. Em contrapartida, o processo pode ser mais burocrático e demorado”, afirma. Já os bancos privados, embora geralmente pratiquem juros um pouco mais altos e prazos menores, conseguem oferecer condições personalizadas, de acordo com o perfil e o relacionamento do cliente com a instituição. “Tudo depende do momento de vida da pessoa e da capacidade de pagamento”, resume.
O impacto direto da taxa de juros aparece principalmente no valor das parcelas. Para Soares, esse é um dos pontos que mais exigem cautela. “Com juros mais altos, a parcela tende a ficar maior. Por isso, o principal cuidado é fazer um planejamento financeiro detalhado para que o valor não fique pesado no orçamento”, alerta. Além da prestação mensal, ele chama atenção para despesas que muitas vezes são subestimadas, como custos de documentação, registros e impostos. “É fundamental rastrear todos os custos envolvidos no processo, para não ser pego de surpresa depois”, completa.
Mudanças recentes na economia também começam a ser observadas pelo setor. O reajuste de renda, segundo o corretor, influencia diretamente a liberação de crédito. “Rendas maiores permitem créditos maiores. Isso impacta tanto quem busca financiamento quanto a forma como os bancos analisam os pedidos”, explica. Já em relação à reforma tributária, que entrou emzo vigência em 1º de janeiro de 2026, ele avalia que os efeitos ainda estão sendo assimilados. “O mercado está se adaptando. No setor de locação, por exemplo, a tendência é de maior fiscalização, com rastreamento mais rigoroso da Receita Federal, o que pode reduzir práticas de sonegação que eram comuns”, afirma.
O que pensam os compradores
Quem está do outro lado do balcão, buscando o financiamento, confirma que o cenário exige análise cuidadosa. Um paraense de 33 anos, que iniciou o processo de financiamento em janeiro de 2026 e pediu para não ser identificado, por questões pessoais, conta que a decisão foi motivada principalmente pelo valor do imóvel. “O preço estava muito justo, o que compensava os juros altos. Não vi vantagem específica no financiamento em si, mas no mercado, porque o imóvel estava abaixo do valor praticado”, relata. O entrevistado diz que o reajuste salarial não influenciou na decisão, já que atua como profissional liberal.
Antes de avançar no processo, o comprador afirma que comparou as condições oferecidas por diferentes instituições financeiras. “Fiz o comparativo entre vários bancos e, hoje, a Caixa oferece uma taxa um pouco menor”, diz. Ainda assim, ele destaca que o caminho até a aprovação não é simples. “A maior dificuldade é a aprovação do crédito. Depois, vem a avaliação do engenheiro, que precisa estar de acordo com o valor do imóvel, e a verificação de toda a documentação, que precisa estar apta para ser financiada”, explica.
Cuidados antes de assinar o contrato
Do ponto de vista jurídico, o advogado Daniel Farias, especialista no mercado imobiliário, aponta que alguns cuidados são indispensáveis antes da assinatura do contrato. Entre eles estão a diligência do imóvel, para verificar a existência de ônus ou restrições, e a diligência do vendedor, com a checagem de ações judiciais ou dívidas que possam comprometer a negociação. “Também é fundamental analisar o Custo Efetivo Total (CET), para entender o custo real da operação, a taxa de juros praticada e o valor das prestações mensais”, afirma.
Segundo o advogado, algumas cláusulas costumam gerar mais dúvidas ou problemas para os compradores. “As mais sensíveis são as de alienação fiduciária, em que o imóvel fica em garantia até a quitação; as cláusulas de mora, que tratam de juros, multa e encargos em caso de atraso; e as de vencimento antecipado, que permitem ao banco exigir o saldo total da dívida em determinadas situações”, explica. Ele destaca que, embora a base jurídica dos contratos seja semelhante, há diferenças práticas entre bancos públicos e privados: “O ponto-chave da comparação deve ser o CET, as regras de correção e as consequências do atraso, e não apenas a taxa nominal”.
Farias também alerta para os riscos em caso de dificuldades de pagamento. “Na alienação fiduciária, a inadimplência pode levar à consolidação da propriedade em nome do credor e à perda do imóvel, além de despesas e juros adicionais”, afirma. Por isso, a recomendação é agir de forma preventiva: “O ideal é buscar renegociação antes que o atraso se torne recorrente”.
Para quem pretende financiar um imóvel sem comprometer a renda, o advogado orienta um planejamento financeiro conservador, com parcelas que deixem folga no orçamento, além da comparação detalhada das propostas e da verificação minuciosa da documentação e das cláusulas contratuais.
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