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Fiepa aposta no petróleo da margem equatorial para transformar o Pará em hub industrial e energético

Entidade defende que exploração na margem equatorial é estratégica para o desenvolvimento regional e para a autossuficiência energética do país

Maycon Marte
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A Federação das Indústrias do Estado do Pará (Fiepa) criou o Núcleo de Óleo e Gás como resposta antecipada às perspectivas de exploração petrolífera na margem equatorial, na costa da região Norte. Segundo o presidente da entidade, Alex Carvalho, a iniciativa se apoia nos 25 anos de experiência da Rede Fiepa no desenvolvimento de fornecedores locais, historicamente voltada à mineração e à geração de energia elétrica, e tem como objetivo preparar empresas da região, incluindo micro e pequenas, para atender a demanda de uma cadeia produtiva que o estado ainda não conhece. Para isso, a Fiepa mantém contato com entidades e outros estados que já acumulam a experiência de lidar com esse segmento.

Os impactos esperados na economia regional incluem a formação de um polo metalmecânico, a retomada da construção naval e a criação de mais de 50 mil postos de trabalho na região Norte, com os royalties beneficiando diretamente os municípios costeiros. Carvalho defende que o Pará reúne condições estratégicas únicas: posição geográfica, base acadêmica em geociências e tradição industrial, para se tornar um hub de distribuição e inovação no setor. O presidente também destacou que a exploração petrolífera seria compatível com a transição energética, desde que os recursos gerados sejam direcionados ao desenvolvimento de combustíveis renováveis como biodiesel, etanol e biogás.

Na avaliação da Fiepa, os entraves à campanha exploratória na margem equatorial têm caráter ideológico e representam risco concreto à autossuficiência energética do Brasil, que, segundo Carvalho, deixará de ser autossuficiente em petróleo a partir de 2032 caso a exploração continue postergada. O dirigente reconhece a necessidade de rigor ambiental e respeito às comunidades tradicionais, mas critica o que classifica como uso instrumental do ambientalismo para bloquear atividades produtivas. Como alternativa ao cenário em que a exploração não se concretize, a entidade aposta no fortalecimento da cadeia de renováveis como vetor de crescimento econômico para o estado.

Qual foi a motivação da Fiepa para criar esse núcleo específico de óleo e gás? Há alguma justificativa do momento atual?

A rede Fiepa é uma iniciativa que já completou recentemente 25 anos e se especializou como uma iniciativa que trouxe, como pilar central, o desenvolvimento de fornecedores locais para atender grandes demandas. Isso teve um eixo muito focado nas grandes mineradoras, nos grandes projetos de geração de energia elétrica, nas hidrelétricas, mais recentemente nos frigoríficos, equipamentos industriais, plantas industriais com bastante pujança e que demandam grandes compras, o que faz com que haja uma participação mais efetiva de empresas locais.

Com a chegada da margem equatorial, um assunto em voga, e com as perspectivas que entendemos como positivas em relação ao resultado dessa prospecção, dessa campanha exploratória, no sentido de que haverá reservas de petróleo na costa do Estado do Pará, isso nos levará para um novo capítulo de oportunidades para as nossas empresas, desde as micro e pequenas, associando o Sebrae nessa esteira, e trazendo a expertise que a rede Fiepa já adquiriu ao longo desses 25 anos para termos mais assertividade no atendimento dessas demandas.

É um mercado novo, uma cadeia produtiva que nós não conhecemos, nunca tivemos a possibilidade de uma exploração petrolífera no nosso território. O que estamos fazendo é nos antecipar, seja no letramento, no conhecimento dessa cadeia produtiva, mas também, ao conhecê-la melhor, identificar em que podemos contribuir. E uma das melhores formas de contribuir é internalizando, fazendo com que a circulação de negócios, de compra e venda de produtos e serviços demandados por essas empresas, seja a Petrobras, sejam as companhias petrolíferas ou todas as atividades dessa cadeia produtiva, que é gigante, nos ofereça a melhor e maior possibilidade de atender.

Por que a margem equatorial é tão estratégica para o Brasil?

Para além do fomento a negócios locais, temos também, dentro de uma perspectiva mais ampla, a geração de 52 mil novos postos de trabalho. Quem se notabilizou por qualificar e fazer a formação profissional industrial é o Senai. Isso nos traz a responsabilidade de já preparar, fazer boas parcerias e alianças. Não por acaso, estamos há dois anos participando da OTC, que é a maior feira de óleo e gás do mundo, em Houston, no Texas. Estamos participando de feiras no Rio de Janeiro e buscando esse entrelaçamento com o Estado do Rio, com a Firjan, com o Senai do Rio e com outros entes institucionais especializados, que já viveram, experimentaram os sucessos e insucessos, para trazer essa troca de conhecimento e experiência e sermos mais bem-sucedidos nessa nova fronteira.

Trazendo para o recorte regional, que é o que nos interessa sobretudo: quais setores vocês avaliam que mais se beneficiariam dessas mais de 50 mil vagas geradas?

Vai criar automaticamente um polo metalmecânico fantástico na nossa região. Fazer com que sejamos esse hub de distribuição, de conhecimento e de excelência num polo metalmecânico para um estado que já tem uma história exitosa de desenvolvimento territorial advindo da mineração, na qual esse polo metalmecânico também é característica. Isso coloca o Pará de maneira estratégica muito importante. Além da geração de divisas que uma eventual descoberta de reservas trará, mantendo o Brasil na autossuficiência da produção de petróleo, outras cadeias poderão ser muito bem aquinhoadas e beneficiadas.

Falo de resgatar um polo naval, de construção naval, área em que o Estado do Pará tem expertise. E o Pará também é renomado mundialmente como gerador de conhecimento em pesquisas, a Universidade Federal do Pará (UFPA) está aí para mostrar isso na parte de geofísica e geociências. Isso também é uma grande oportunidade de valorizar esse manancial de conhecimento.

Quando temos oportunidades de mercado e a capacidade de internalizar desenvolvimento de pesquisas e inovação, podemos estar diante de uma grande oportunidade de o Pará se transformar na grande prática da transição energética justa. Com o recurso que a atividade vai nos propiciar, se formos inteligentes o suficiente, endereçaremos esse recurso para que mais pesquisas sejam aplicadas, de modo que tenhamos outras fontes de geração de energia que possam, no futuro, substituir os combustíveis fósseis, porque é um recurso finito.

O Pará já se coloca como grande potencialidade na ampliação de combustíveis renováveis, como etanol e biodiesel. Uma fonte acaba alimentando essa transitoriedade de forma mais veloz e mais assertiva, com conhecimento e excelência, por meio dos nossos polos, academias, universidades e ecossistemas de inovação. Teremos uma grande chance de oxigenar, de forma muito capilar, os vários elos dessa cadeia produtiva.

Esse número de mais de 50 mil postos de trabalho é nacional ou regional? E conseguimos estimar quantos seriam para o Pará?

Se não estou equivocado, os 50 mil são para a região, distribuídos entre os estados. A composição estratégica definirá a concentração. Mas o Pará já sai na frente com alguns ativos importantes, o principal deles é o conhecimento técnico. Temos um corpo de profissionais de pesquisa e docentes reconhecido, o que nos coloca em condição privilegiada. A posição geográfica estratégica também nos favorece: dentro da Amazônia, somos naturalmente esse hub de distribuição para vários estados, a oeste, a norte e a leste.

Sendo um pouco catastrófico e, considerando que a exploração ainda não comece ou que não se encontre petróleo, quais outros setores continuariam crescendo? Quais seriam os planos B e C para o Estado e a região?

Os combustíveis renováveis. A gente vai tratar muito sobre isso no Amazon Energy. A primeira edição foi muito centrada na possibilidade do óleo e gás. Mas, usando um pouco de realidade, pode ser que não aconteça, ou que se postergue a ponto de perder a janela de oportunidade. Mesmo assim, o Pará pode continuar num processo de crescimento significativo, experimentando novas plantas de processamento de biodiesel e etanol, estabelecendo-se como ativo importante na geração de combustíveis renováveis.

Temos uma matriz energética diante de nós pouquíssimo explorada, que é o biogás. Desperdiçamos muito esse potencial, temos pouquíssimos atores centrais. É um grande ativo a ser avançado. Por que não investir nisso prioritariamente? Por que ainda não compete, ainda é muito caro fazer uso dessas matrizes, que são insuficientes para a demanda. Então a expectativa é usar o recurso do petróleo para financiar essa transição. É como uma mixagem: sair de um e entrar no outro de forma fluída, harmônica, sem quebrar o ritmo.

É possível afirmar com certeza que na Amazônia dá para trabalhar com combustíveis renováveis e ao mesmo tempo explorar o petróleo de maneira sustentável?

Muito bom ter colocado isso. Não estamos fazendo uma defesa dos combustíveis fósseis. Reconhecemos que é uma fonte mais poluente. Só que o que está diante de nós é o seguinte: os estudos sísmicos indicam que, se descoberto petróleo aqui, assim como ocorreu no Pré-Sal, teremos uma fonte de combustível fóssil muito menos poluente do que a produzida, por exemplo, nos Estados Unidos (EUA), que advém de óleos de xisto, ou em outros países produtores cujo petróleo contém mais hidrocarbonetos e polui mais do que o que o Brasil produz.

A decisão é: queremos trabalhar em prol do clima e tentar minimizar os efeitos das mudanças climáticas? Sim, queremos. Por isso entendemos que não se trata de querer ou não determinada matriz, mas nós vamos precisar dela. Então, além de importar petróleo de outros países, ainda vamos comprar petróleo que polui mais do que o que poderíamos produzir? Essa é a pergunta que deixamos para as autoridades que, ideologicamente, insistem em postergar o avanço dessa campanha exploratória.

Como vocês avaliam o andamento dessa discussão sobre a margem equatorial? Ainda está sendo muito politizado ou já estamos caminhando na direção certa?

Não diria politizado, mas está sendo conduzido ainda com muito idealismo, com uma ideologia que pode prejudicar muito o Brasil. O país já corre risco, porque, ao se descobrir que há reservas e ao se implantar a produção, são necessários pelo menos de seis a oito anos nas condições normais de temperatura e pressão. Já se sabe que, a partir de 2032, o Brasil deixará de ser autossuficiente na produção de petróleo. Estamos correndo esse risco, e já fomos impactados por excesso de rigor ideológico.

Não se trata de questões técnicas nem de um ativismo ambiental legítimo. Digo isso com ênfase: preservar e conservar o meio ambiente e as comunidades tradicionais, isso nós também defendemos categoricamente. Mas usar isso para barrar atividades ou para drenar o máximo de recursos financeiros para bancar ações que vivem dessa sistemática de preservação não pode desequilibrar esse ecossistema.

O que vimos é que já houve desequilíbrio. Precisa haver pé no chão. Assim como não podemos correr riscos e soltar licenças para qualquer empresa explorar a margem equatorial desenfreadamente, também não podemos, por subjetivismo, criar embaraços e postergar o que é uma necessidade do povo brasileiro.

Onde entra o Núcleo de Óleo e Gás nessa articulação? E o que será apresentado no Amazon Energy?

Quanto mais conseguirmos amplificar a presença da indústria do território do Pará, aquela indústria que respeita o ambiente, que respeita a nossa gente, que traz oportunidade de trabalho, de negócio, de crescimento e de desenvolvimento sustentável, será sempre bem-vinda. Vamos defender isso sob chuva, sol ou tempestade, e fazer o máximo para atrair esse investimento. É nossa convicção que assim vamos sair da dependência de um estado que ainda majoritariamente depende de programas de assistência e transferência de renda.

Precisamos trazer para o estado o máximo possível de emprego, e a indústria tem um papel peculiar nisso. Historicamente, são empregos que começam na base e vão ascendendo ao longo do tempo, trazendo benefícios, porque são empregos formais, com carteira assinada, que garantem direitos e promovem a ascensão da renda familiar, além de dignidade, porque você tem perspectiva de vida, perspectiva de construir um ambiente familiar lastreado num emprego que traga segurança, que é um dos principais valores de cada indivíduo.

Encontrando o petróleo e com a exploração aprovada, quais seriam os primeiros efeitos na economia paraense e da região Norte? O que percebemos de imediato?

Pela experiência que a gente tem aqui no Pará, sabemos que quando o setor público recebe royalties e aplica bem o recurso, a sociedade toda sai beneficiada. Cria-se no município um ambiente de negócios: investe-se nos serviços básicos de saúde, na mobilidade urbana, na organização da cidade, na coleta de lixo e, com efeito em espiral positiva, começa a atrair negócios e a propiciar um crescimento ordenado e sustentável. Quando o recurso não é bem aplicado, a coisa não sai bem.

O primeiro ente a ser beneficiado serão as prefeituras. Esses recursos farão com que prefeituras que talvez, ao longo de cinco décadas, nunca tenham acumulado tanto quanto receberão em um único ano de royalties. Será um crescimento exponencial na geração de receita que nunca experimentaram.

Para que isso não crie uma euforia a ser frustrada, é necessário letramento e preparação desses municípios em governança e aplicação de recursos públicos, como estamos fazendo, bebendo da fonte para saber o que deu certo e o que não deu. O Rio de Janeiro está aí para mostrar quais municípios fizeram seu dever de casa e se tornaram grandes hubs de excelência, não apenas lastreados no óleo e gás, mas criando interfaces que pensam no dia de amanhã.

A maioria desses municípios é extremamente dependente do setor público, as pessoas ou trabalham diretamente nas prefeituras e órgãos públicos, ou dependem de algum negócio ligado a elas. Se essas prefeituras crescerem em arrecadação por meio de royalties e investirem bem no município, a população local tende muito a se beneficiar. Não há como não pensar nisso com uma perspectiva positiva, tudo, claro, com o mais rigoroso cuidado em relação às questões ambientais.

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