Exportações de minério de ferro caem, mas cobre bate recorde no Pará
Especialistas aponta desaceleração da China e conflitos internacionais como fatores que impactam as exportações
O Pará é reconhecido mundialmente como um dos maiores exportadores de minérios do mundo, pelo fato de abrigar grandes jazidas, como é o caso da Serra dos Carajás. No entanto, dados da Plataforma Comex Stat, do Ministério da Indústria e Comércio, revelam uma queda na exportação do minério de ferro, no período de janeiro a maio, em comparação com o mesmo período no ano passado, uma redução que pode gerar preocupação na balança comercial do estado.
De acordo com o levantamento da Comex Stat, o valor das exportações do minério de ferro caiu 2,8% no acumulado de janeiro a maio deste ano, registrando US$ 680,7 milhões em maio, número bem inferior ao registrado em maio de 2025, que foi de US$ 807,9 milhões. O pico da série histórica ocorreu em agosto de 2021, quando as exportações do minério de ferro atingiram US$ 2,8 bilhões.
Por outro lado, a exportação de minério de cobre subiu 80% no acumulado de janeiro a maio e atingiu o pico da série histórica, com o valor de US$ 822,7 milhões em maio.
A China é o principal parceiro comercial dos produtos exportados do Pará, com participação de 41,2% somente no mês de maio. Em segundo lugar vem a Alemanha, com 9,1%, e, em seguida, a Suécia, com 8,3%.
Para compreender o impacto dessas variações que ocorrem nas exportações dos minérios do Pará, o Grupo Liberal conversou com Cassandra Lobato, gerente do Centro Internacional de Negócios da FIEPA. Ela explica que fatores externos envolvendo conflitos e atividades econômicas de outros países são alguns dos motivos para a queda no minério de ferro.
“A redução de 2,8% nas exportações de minério de ferro entre janeiro e maio de 2026 pode ser explicada, principalmente, pela desaceleração da demanda externa, com destaque para a China, maior importadora mundial da commodity. A diminuição da atividade econômica chinesa, especialmente nos setores de construção civil e produção de aço, reduziu a necessidade de importação do minério. Além disso, o atual conflito no Oriente Médio contribui para esse cenário ao elevar os custos logísticos internacionais, especialmente em rotas estratégicas como o Estreito de Ormuz. O aumento do preço do petróleo encarece o frete marítimo e o transporte global de cargas. Esse encarecimento reduz a competitividade do produto brasileiro em determinados mercados, podendo favorecer fornecedores alternativos, como a Austrália, que, embora ofereçam minério de menor qualidade, podem apresentar vantagens logísticas, o que reduz o volume exportado pelo Pará”, pontua Cassandra.
Para o economista e professor da Unama, João Cláudio Arroyo, um outro fator que explica essa queda é o aumento da oferta de outras fontes de minério de ferro.
“Considerando essa queda, que é expressiva, uma das principais causas apontada pelos analistas é uma queda na construção civil chinesa, a China é a principal compradora do ferro de Carajás, então com essa crise na imobiliária chinesa a demanda pelo ferro diminuiu. Um outro componente é o aumento da oferta de outras fontes de minério de ferro, como a da Guiné, então aumenta a oferta e diminui a demanda, é óbvio que vai haver uma oscilação no mercado. Alguns analistas acham que mercado vai se recompor, outros acreditam que essa recomposição vai demorar, porque essa crise no mercado imobiliário chinês deve perdurar por algum tempo”, reforça o professor.
Equilíbrio internacional
Ao avaliar o mesmo período em comparação ao ano passado, a gerente Cassandra Lobato afirma que, embora tenha apresentado redução, o mercado se mantém estável, graças ao equilíbrio dos preços internacionais.
“No período de janeiro a maio de 2026, apesar da queda no volume das exportações de minério de ferro em relação a 2025, o valor exportado não apresentou variação significativa, mantendo-se estável. Isso ocorre porque, mesmo com a redução na quantidade de toneladas exportadas, os preços internacionais contribuíram para compensar essa queda. Observa-se que, no contexto mais amplo do setor mineral, houve um aumento de aproximadamente 6,18% no valor global, indicando que outros fatores e produtos minerais também contribuíram para sustentar a receita total. Dessa forma, é possível avaliar que, em comparação a 2025, o ano de 2026 apresenta um cenário de estabilidade, marcado por uma redução no volume exportado, mas com manutenção do valor, demonstrando um processo de ajuste do mercado internacional”, ressalta.
A profissional acredita que manutenções e possíveis quedas nas exportações ainda podem acontecer, em função dos conflitos internacionais que mexem com toda a cadeia de exportação dos minérios paraenses.
“A expectativa para os próximos meses em relação às exportações de minério de ferro é de continuidade de um cenário de instabilidade, com tendência de manutenção ou leve queda nos volumes exportados. Esse comportamento está associado às incertezas no cenário internacional, especialmente em função dos conflitos geopolíticos, como a guerra política e econômica no Oriente Médio. Esses conflitos tendem a manter elevados os custos logísticos internacionais, devido ao aumento do preço do petróleo e do frete marítimo, o que reduz a competitividade das exportações brasileiras. Além disso, a instabilidade global pode desacelerar o comércio internacional, impactando negativamente a demanda por commodities minerais. Por outro lado, pode haver certa estabilidade no valor exportado, caso os preços internacionais do minério de ferro se mantenham ou apresentem pequenas variações positivas. Dessa forma, espera-se um cenário de ajuste do mercado, com volumes ainda pressionados, mas com possibilidade de manutenção da receita em função do comportamento dos preços”.
Para finalizar, Cassandra ressalta a importância dos minérios para a economia paraense, que são os principais produtos de exportação do estado.
“As exportações de minério de ferro e cobre exercem papel fundamental na balança comercial do estado do Pará, uma vez que esses produtos representam a maior parte da pauta exportadora estadual. A soma desses minerais é de aproximadamente US$ 6,53 bilhões. Nesse contexto, quando há queda nas exportações de minério de ferro, seja em volume ou valor, há impacto na balança comercial. Por outro lado, o crescimento das exportações de cobre contribui para compensar parcialmente essa perda, fortalecendo a diversificação da pauta de produtos exportados. A balança comercial paraense é dependente do desempenho do minério de ferro, sendo sensível às variações do mercado internacional. Enquanto o minério de ferro exerce maior peso e impacto estrutural, o cobre atua como um elemento de suporte, ajudando a mitigar oscilações e sustentar o saldo positivo do estado”, conclui.
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