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Empregabilidade trans: no Pará, 90% da comunidade tem o mercado informal como fonte de renda

Percentual é equivalente ao estimado no Brasil, segundo atual presidente da ABGLT

Natália Mello

Sem quantificação prevista nos indicadores do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), as pessoas trans enfrentam uma série de dificuldades para ingressar no mercado de trabalho. Uma pesquisa do Google revela que 90% da comunidade trans têm o mercado informal como fonte de renda e única possibilidade de subsistência. No Pará, esse índice não é diferente, segundo a atual presidente da Associação Brasileira de Gays, Lésbicas, Bissexuais, Travestis, Transexuais e Intersexos (ABGLT), Symmy Larrat.

À frente da organização LGBTQIA+ mais antiga do País, Symmy enumera as dificuldades da comunidade. “As dificuldades, a questão da barreira, são as mesmas em todos os lugares. As pessoas não querem contratar pessoas trans primeiro porque, como elas já sofreram com a exclusão desde a escola, desde a família, muitas vezes elas não têm qualificação, geralmente trabalharam com a prostituição e isso dificulta. Mas, mesmo que a pessoa transgênero tenha uma megaqualificação, o mercado não quer, porque não quer contratar uma pessoa trans por preconceito”, afirma.

Vulnerabilidade

Com as dificuldades por falta de oportunidade de emprego, milhões de pessoas vivem uma condição de vulnerabilidade extrema. Os números de disparidade de gênero, raça e orientação sexual no ambiente corporativo vêm sendo trazidos para a pauta de discussão em diversos segmentos da sociedade. No Estado, a falta de políticas públicas voltadas para essas pessoas é o principal entrave, segundo Symmy.

“No Pará tem uma especificidade que é a falta de política pública para que as pessoas permaneçam na escola, para não sejam abandonadas e consigam chegar numa qualificação para poder ter emprego. No estado, esse abandono leva a pessoa a migrar para o mercado do sexo inclusive para outros estados, como São Paulo, Goiânia, Curitiba, e lá vão viver mais dificuldades, mais desamparo. O problema do Pará é a ausência de política pública que estimula esse processo por conta da sobrevivência. O estado é um dos que mais exporta travesti e transexual por conta da dificuldade de permanência e sobrevivência dessa pessoa no seu local”, detalha.

Sol Sousa Estevam, de 40 anos, é professora-substituta da Universidade Federal do Pará (UFPA), e conta que conseguiu ingressar por meio de um processo seletivo. Sendo feita uma prova, o que estaria em análise seria sua capacitação, sua formação, o que não seria um empecilho, mas ela pontua algumas questões que dificultam a convivência com as pessoas no ambiente de trabalho, como a falta de um tratamento com naturalidade por parte dos colegas, além do emprego incorreto de pronomes, por exemplo.

“Para nós, que fazemos terapia hormonal e tudo mais, já temos o nosso emocional muito abalado, então realmente qualquer coisa já serve de gatilho para a gente e assim a dificuldade realmente que eu encontro são com as pessoas mais velhas. O aluno já é uma questão didática minha e eu consigo lidar muito bem com eles, a aceitação deles. Eu também sou professora do ensino fundamental em Marituba e lá são as mesmas questões. Os problemas realmente estão nas pessoas que são meus pares ou que estão em algum cargo acima do meu, que não conseguem direcionar fala, direcionar uma palavra direita comigo”, relata.

Sol afirma que, inclusive, muitas vezes, sente um tipo de perseguição, no sentido de que os colegas esperam um erro dela para que seja enfatizado. A sensação que ela descreve ter é a de precisar se esforçar muito mais do que os demais companheiros de trabalho para não sofrer com esse tipo de preconceito.

“O meu corpo provoca uma mudança dentro da instituição, é um corpo que você não vê no alunado por exemplo. Eu não tenho alunas trans no ensino médio, no ensino fundamental, na educação de jovens e adultos onde eu dou aula também. A dificuldade se dá por conta disso e isso já faz um gancho sobre as pessoas todas estarem no mercado informal. A gente tem problemas muito sérios dentro da escola, de transfobia, de ataques diretos. Isso são questões de banheiro, são questões de convivência interpessoal mesmo”, explica.

Campanhas para normatizar a convivência

Para melhorar, Sol acredita que são necessárias campanhas para normatizar a convivência e, para isso, pessoas trans precisariam estar ocupando vários lugares na sociedade, seja em comerciais, em jornais, nos espaços públicos, para que, a cada dia, mais a comunidade esteja inserida na sociedade e, assim, o compartilhamento de um espaço não seja um acontecimento, e sim faça parte de uma rotina.

“É difícil você ver pessoas trans, inclusive andando no dia a dia, em ônibus, em supermercado. A ida no supermercado é um acontecimento para uma pessoa trans, porque as pessoas que estão ao nosso redor elas estão sempre nos olhando com olhos de julgamento. A gente tem vários casos de pessoas que foram atacadas em lugares públicos apenas por estarem passando”, diz. “O que a gente tá buscando não é aceitação de ninguém, é só o respeito mesmo e a naturalização dos nossos corpos que que não sejam um acontecimento. Isso afasta a gente da escola e faz com que a gente seja empurrada cada vez mais para o mercado informal”, finaliza.

Confirmando estatística

Thiago Souza, de 22 anos, é um homem trans e integra a estatística dos que atuam no trabalho informal, como barbeiro, em um estúdio pensado para empregar outras pessoas trans. Ele reforça a afirmativa de que a empregabilidade trans passa por uma dificuldade de acesso ao mercado pela fragilidade de políticas que garantam vivências básicas sociais. O jovem lembra que, se não fosse pelos familiares ou amigos, ele não teria a oportunidade de um trabalho, mesmo que informal.

Thiago Souza afirma que no mercado informal há mais respeito (Filipe Bispo / O Liberal)

“Vejo que a maior dificuldade é a falta de senso e respeito (que passado, não?!). É comum que ou uma pessoa te chama por um nome e/ou gênero que você não se identifica, ou elas te observam constantemente como se houvesse algo de anormal em você ou no seu corpo. Isso ocorre quando se tem a possibilidade a uma entrevista, quando não te descartam logo de imediato por aspectos físicos, e até mesmo de escolaridade, já que é outra grande dificuldade de nós enquanto pessoas trans é conseguir estar numa escola e conseguir avançar no grau escolar”, destaca.

Thiago confirma que o emprego informal é, muitas vezes, a saída para garantir um espaço no mercado, especialmente pela simplicidade nos processos, já que é nesses espaços que ele diz ter seu nome respeitado, seu pronome utilizado de forma adequada, e levadas em conta as suas necessidades.

“É nesses espaços que podemos só existir como qualquer outra pessoa que precisa daquilo, que não seremos cobrados de reproduzir atitudes que não convém as nossas vivências e pressões estabelecidas”, ressalta. “Muitas vezes a solução que vejo é produzir cada dia mais, falar cada vez mais, para que venham as possibilidades para pessoas trans e as travestis empreenderem, sejam diretoras e organizadoras desses espaços, porque só assim podemos ter essa visibilidade, considerando que não é desse ano ou de 5 anos atrás que pedimos e queremos a normalização dos nossos corpos, o que é imprescindível para um ser humano que muitas vezes não tem um lar, um apoio familiar, ensino, um prato de almoço, um pão no café da manhã e quem sabe se tem uma roupa para vestir”, questiona.

Gabriela Luz, de 27 anos, é professora de artes e produtora cultural, e ela afirma que foi um desafio conseguir ter acesso a um lugar no mundo profissional. A primeira dificuldade, ela garante, é a oportunidade, o que faz a qualificação ser o principal caminho para que as pessoas trans desenvolvam suas habilidades e, assim, consigam adentrar os espaços.

“É preciso ser muito boa no que a gente faz, a gente é cobrada muito mais e tem que ser duas vezes melhor no que a gente faz e tão difícil quanto o acesso é a permanência. As dificuldades normalmente estão em torno do cotidiano, da presença, da relação que se cria, que nem sempre é uma relação amistosa. São lugares que no geral são muito interessantes, mas que ainda não sabem nos acolher ou preparar as pessoas para lidar com a gente. As pessoas se prepararem significa primeiro estar disposto, não só conviver, mas a entender, a conversar, se relacionar realmente”, descreve.

Incentivo de mercado

A Google lançou, recentemente, um programa para, até 2026, distribuir 500 mil bolsas de estudo para a formação de jovens em áreas de atuação altamente demandadas pelo mercado de trabalho, como Suporte de TI, Análise de Dados, Gerenciamento de Projetos e Design UX. Também fazem parte dessas iniciativas uma campanha de comunicação que apresenta histórias de sucesso de profissionais trans de diferentes áreas.

O vídeo, inspirado nas famosas ballrooms, espaços de acolhimento e performance onde pessoas trans podiam ser o que quisessem, é uma ode à cultura do voguing e suas diferentes vertentes e um convite para que as empresas sejam tão inclusivas quanto esses lugares. Para mais informações sobre as melhores práticas de inclusão de pessoas trans nas empresas, assim como uma lista de perfis de profissionais trans, acesse o site da plataforma https://www.transempregos.com.br/.

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