Consignado pode custar muito mais: diferença nos juros supera três pontos ao mês; entenda

Economistas alertam que perfil do cliente, convênio e prazo influenciam nas taxas, enquanto consumidores relatam alívio imediato, mas também anos de renda comprometida

Jéssica Nascimento
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Contratar um empréstimo consignado sem pesquisar as condições oferecidas pelas instituições financeiras pode significar uma diferença de milhares de reais no valor pago ao final do contrato. Com taxas de juros que variam de cerca de 1,47% a quase 5% ao mês, dependendo do perfil do consumidor e da política de cada banco, Economistas alertam que olhar apenas para o valor da parcela é um dos erros mais comuns de quem busca crédito.

Embora continue sendo uma das modalidades de empréstimo mais baratas do mercado, o consignado exige atenção ao Custo Efetivo Total (CET), ao prazo do financiamento e a despesas adicionais, como seguros embutidos e tarifas. Para aposentados, pensionistas, servidores públicos e trabalhadores com carteira assinada, o crédito pode representar tanto uma solução para emergências quanto um comprometimento prolongado da renda.

Por que as taxas variam tanto?

Ao contrário do que muitos consumidores imaginam, não existe uma taxa única para o crédito consignado. Segundo o economista Genardo Oliveira, diversos fatores são considerados pelas instituições financeiras antes da definição dos juros.

"As taxas do consignado são determinadas por uma combinação de fatores como idade, renda, convênio, prazo e histórico de crédito. Não existe um único critério. Dois consumidores podem receber ofertas diferentes porque cada perfil apresenta riscos e garantias distintas para o banco", explica.

Entre os principais fatores estão o convênio firmado entre a instituição financeira e o empregador ou o INSS, a estabilidade da renda, a margem consignável disponível, o prazo escolhido e até o histórico financeiro do cliente.

De acordo com o economista, servidores públicos e aposentados do INSS costumam conseguir condições mais vantajosas devido à previsibilidade da renda. Já consumidores com parte significativa do salário ou benefício já comprometida podem encontrar taxas mais elevadas ou restrições ao valor disponível para empréstimo.

Além disso, cada banco possui políticas comerciais próprias, o que faz com que o mesmo cliente receba propostas diferentes dependendo da instituição consultada.

Consignado ainda é a opção mais barata?

Na comparação com modalidades como cheque especial, cartão de crédito rotativo e empréstimos pessoais convencionais, o consignado continua figurando entre as opções mais econômicas.

Segundo o economista André Cutrim, conselheiro do Conselho Regional de Economia do Pará e Amapá (Corecon PA-AP), isso acontece porque o desconto das parcelas diretamente na folha de pagamento ou no benefício reduz significativamente o risco de inadimplência para os bancos.

"O crédito consignado continua, em geral, entre as modalidades mais baratas do mercado. No entanto, isso não significa que ele será sempre a melhor opção, pois há situações em que outras linhas podem ser mais vantajosas, dependendo do prazo, do valor contratado, da taxa efetiva total e do perfil do consumidor", afirma.

O economista ressalta que o consumidor deve avaliar mais do que apenas o valor da prestação mensal.

"A principal armadilha está em observar apenas o valor da parcela, sem considerar o custo total da operação. Uma taxa aparentemente baixa pode pesar bastante quando o contrato se estende por vários anos, ainda mais em situações de refinanciamento, portabilidade pouco esclarecida, seguros embutidos ou contratação por impulso", alerta.

Atenção às armadilhas

Outro ponto que merece cuidado é a contratação de serviços adicionais.

Segundo Genardo Oliveira, muitos consumidores analisam apenas a taxa nominal de juros e deixam de verificar o Custo Efetivo Total, que reúne todas as despesas da operação, incluindo tarifas administrativas e seguros que podem ser incluídos no contrato.

Prazos muito longos também exigem atenção. Embora reduzam o valor das parcelas mensais, acabam aumentando o montante desembolsado ao final do financiamento.

A facilidade das contratações digitais também exige cautela. Com poucos cliques, o consumidor pode fechar um contrato sem comparar ofertas ou analisar todas as cláusulas.

Entre o alívio financeiro e a renda comprometida

Quem já utilizou o crédito consignado sabe que a modalidade pode representar tanto uma solução quanto um problema.

A aposentada Raimunda Almeida conta que recorreu ao empréstimo em um momento de necessidade, mas hoje evita repetir a experiência.

"Eu fiz consignado em um momento em que eu estava precisando. A gente faz porque precisa. Para mim, não é uma boa. Só se for em caso de muita necessidade, porque a gente fica preso durante anos, recebendo menos", relata.

Ela reconhece que aposentados costumam conseguir juros menores, mas afirma que o comprometimento da renda pesa no orçamento.

"Como eu e meu marido somos aposentados, temos uma renda fixa e os juros são mais baixos. Mas, sinceramente, para mim o consignado hoje é fora de cogitação. Só faria novamente em um caso de extrema necessidade”, admitiu. 

Experiência semelhante viveu o servidor público Roberto Rodrigues. Ele afirma que o consignado foi essencial em um momento difícil, mas também trouxe consequências para o orçamento familiar.

"Sou servidor público e já recorri algumas vezes a essa modalidade de crédito. Em uma ocasião cheguei a ficar com o orçamento comprometido com parcelas a perder de vista e foi um sufoco”, relatou.

Apesar disso, ele reconhece que o empréstimo teve um papel importante quando enfrentou dificuldades financeiras.

"Também teve o lado positivo. Foi a salvação da lavoura em um momento de aperto financeiro e necessidade para causas justas. Aprendi que o segredo é não exagerar no valor solicitado para não se apertar depois, até porque as instituições bancárias não têm coração e nunca perdem", conclui.

 

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