Filé chega a R$ 100 e puxa consumo de carnes nobres em Belém

Pesquisa do Dieese Pará indica que preços de cortes selecionados variam até 58% na capital

Gabriel da Mota e Thaline Silva*

A procura por carnes nobres registrou expansão nos últimos 12 meses em Belém. O crescimento desse mercado é impulsionado por consumidores de média e alta renda em supermercados de grande porte e açougues especializados da Região Metropolitana. A busca por atributos específicos como maciez, marmoreio e padronização dos cortes premium, combinada com o alcance de vídeos informativos na internet e canais do YouTube, sustenta o avanço do setor.

O monitoramento de preços do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese Pará) confirma que o segmento segue aquecido na capital. "Os cortes nobres mais comercializados e procurados em Belém continuam sendo picanha, filé, contra-filé, alcatra, patinho e chã. Nós pesquisamos semanalmente os preços destes produtos e encontramos diferenças significativas entre os cortes nobres e os cortes de segunda", destaca o supervisor técnico da instituição, Everson Costa. De acordo com a entidade, o quilo do filé lidera os valores com média de R$ 100,20, preço 187% superior ao da carne de segunda com osso, cotada a R$ 31,03. 

A pesquisa semanal também indica oscilações expressivas entre as redes de supermercados e feiras da capital paraense. A picanha registrou a maior variação encontrada pelo órgão, atingindo 58% de diferença entre o estabelecimento mais caro e o mais barato. Já o contra-filé apresentou uma oscilação de 30,5%, enquanto a alcatra variou 29,5% na cidade. 

Assador detalha preferências dos consumidores na capital paraense

No segmento de eventos, a exigência por qualidade reconfigurou o cardápio dos buffets tradicionais. Marcelo Pimentel, assador e sócio-proprietário da Steakhouse Belém, que atua no ramo há cinco anos, confirma as mudanças no perfil do público no período de um ano.

"O público que procura esse tipo de carne é mais específico. São pessoas que conhecem os cortes, entendem os diferentes tipos e também os valores. A procura ainda é moderada, mas vem crescendo ao longo dos últimos 12 meses", relata Pimentel.

image Marcelo Pimentel, assador e sócio-proprietário da Steakhouse Belém (Thiago Gomes / O Liberal)

Segundo ele, opções como o bife ancho, o bife chorizo e a fraldinha passaram a liderar a preferência dos clientes, deixando a picanha em segundo plano.

O mercado local também absorve carnes importadas da Argentina, Uruguai e Estados Unidos, voltadas a um público restrito de maior poder aquisitivo. Produtos de linhagens selecionadas como Angus e Wagyu — cujo quilo da peça japonesa pode alcançar R$ 900 em boutiques exclusivas — chegam ao estado sob encomenda. "Dependendo dos cortes escolhidos pelo cliente, o custo final do serviço pode aumentar em mais de 50%", revela Pimentel, destacando que o preço de seu buffet com carnes nobres varia de R$ 150 a R$ 200 por pessoa, gerando uma margem de rentabilidade de 25% a 35%.

Desde a pandemia de covid-19, quando deixou de operar em um espaço próprio, a Steakhouse Belém passou a concentrar as atividades em eventos externos e parcerias com buffets. "Hoje atendemos tanto levando toda a estrutura até o local escolhido pelo cliente quanto por meio de espaços parceiros. Depois da pandemia, percebemos que esse modelo era mais eficiente. Um dos locais onde realizamos eventos é um buffet no bairro da Marex, em Belém", afirma Pimentel.

image Contrafilé (bife chorizo) e picanha (angus) são exemplos dos cortes nobres mais consumidos em Belém (Thiago Gomes / O Liberal)

Empreendedores investem em kits de churrasco com entrega em domicílio

A expansão do setor motivou o surgimento de novos modelos de negócios na região metropolitana da capital, como os serviços especializados de entrega de kits de churrasco prontos. Há três meses no mercado, a empresa MPES Carnes Nobres fornece combos com valores entre R$ 180 e R$ 250, com foco na comodidade. A sócia-proprietária Eduarda Santos destaca o alcance da marca: "Temos alcançado vários perfis de clientes porque nossos preços são compatíveis com diferentes públicos, sem abrir mão de um padrão de carne diferenciado".

A intenção de facilitar o consumo em reuniões familiares e confraternizações direcionou a criação do serviço de delivery. O sócio-proprietário Millkir Pires explica que a oportunidade surgiu ao notar a necessidade dos clientes de forma prática:

"O que nos levou a investir nesse nicho foi perceber a necessidade de mais conforto para o cliente. Eu mesmo já quis fazer um churrasco com amigos e encontrei o supermercado fechado. Então vimos a oportunidade de oferecer essa comodidade, levando os kits diretamente para a casa do cliente, em confraternizações, aniversários e outras ocasiões".

Pires ressalta que, por trabalhar com distribuição e atacado, a empresa garante uma base de 80% de lucro em cada kit.

image Procura por carnes nobres tem crescido na capital paraense (Thiago Gomes / O Liberal)

Custos de transporte rodoviário e sazonalidade impactam preços finais

Toda a estrutura de preços do setor na capital é impactada por fatores logísticos e pela sazonalidade regional. "Temos abastecimento de carne local e também de carnes que chegam ao Pará principalmente por transporte rodoviário refrigerado, oriundas dos principais pólos pecuários do centro-oeste, sudeste e sul do país", explica Everson Costa. O supervisor técnico do Dieese Pará ressalta que entre os fatores explicativos dos preços elevados, estão os custos com transporte refrigerado até a Região Norte, com peso e carga expressivos, além de despesas logísticas e de armazenagem.

A variação da oferta ao longo do ano também altera a rotina dos trabalhadores do segmento.

"Em julho e agosto, alguns cortes praticamente desaparecem, porque a demanda é direcionada ao interior, aos restaurantes e às áreas de praia. Em dezembro acontece a mesma coisa, principalmente com a picanha e o filé, já que esses cortes são reservados para as confraternizações", finaliza o assador Marcelo Pimentel.

Preços médios (quilo) de carnes nobres em Belém

  • Filé: R$ 100,20
  • Picanha: R$ 62,44
  • Contra-filé: R$ 56,09
  • Alcatra: R$ 52,72
  • Patinho (cabeça de lombo): R$ 48,36
  • Chã (coxão mole): R$ 48,30

Cortes tradicionais e de segunda

  • Paulista (coxão duro): R$ 43,53
  • Carne de 2ª sem osso: R$ 34,95
  • Carne de 2ª com osso: R$ 31,03

Fonte: Dieese Pará

Valores de kits de churrasco domiciliar

  • Kit 1 Completo (até 8 pessoas): R$ 250 (inclui picanha, maminha, contra-filé, linguiça e queijo em espetinhos)
  • Kit 2 Tradicional: R$ 200 (inclui picanha, maminha, linguiça toscana e pão de alho de brinde)
  • Kit 3 Econômico: R$ 180 (inclui maminha, contra-filé, linguiça toscana e pacote de carvão)

Fonte: MPES Carnes Nobres

(*Estagiária de Jornalismo, sob supervisão de Keila Ferreira, coordenadora do núcleo de Política e Economia)

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