Conscientização contra a violência ao idoso é tema central da campanha Junho Violeta

Assistente social explica as principais formas de violência que a pessoa idosa pode sofrer

Elisa Vaz

O cuidado com a saúde mental e física da pessoa idosa se tornou mais importante do que nunca durante a pandemia do novo coronavírus, já que essas pessoas fazem parte de um dos principais grupos de risco da doença. Para além da enfermidade, também é preciso estar atento a outros fatores, como a violência.

Dados da Secretaria de Estado de Segurança Pública e Defesa Social (Segup) mostraram que os casos de agressão aos idosos não acabaram durante o período do isolamento social. Entre janeiro e maio deste ano, foram registradas 516 ocorrências de violência contra a pessoa idosa no Pará. Esse número é bem menor do que o ocorrido no mesmo período do ano passado – um total de 3.863 –, mas ainda requer atenção.

Celebrado no próximo dia 15 de junho, o Dia Mundial da Conscientização da Violência contra a Pessoa Idosa foi instituído pela Organização das Nações Unidas (ONU) e marca a campanha Junho Violeta, que tem o objetivo de levantar um debate intenso sobre o assunto. A finalidade é reconhecer as pessoas idosas como sujeitos com direitos e garantir a efetiva proteção a esse público.

Conforme explicou a assistente social Amanda Costa, existem várias formas de violências praticadas contra a população idosa, como a psicológica, física e sexual, além do abandono e a negligência. A física consiste em todo ato violento com uso da força física de forma intencional, não acidental, praticada com o objetivo de ferir uma pessoa, podendo ou não deixar marcas evidentes em seu corpo e, muitas vezes, até provocando a morte.

A violência psicológica, por sua vez, corresponde a qualquer forma de menosprezo, desprezo, preconceito e discriminação, incluindo agressões verbais ou gestuais, com o objetivo de aterrorizar, humilhar, restringir a liberdade ou isolar a pessoa idosa do convívio social. Pode resultar em tristeza, isolamento, solidão, sofrimento mental e depressão.

Já a violência sexual é qualquer ação na qual uma pessoa, fazendo uso de poder, força física, coerção, intimidação ou influência psicológica, obriga outra pessoa, de qualquer sexo, a ter, presenciar ou participar de interações sexuais contra a sua vontade.

Há, ainda, a negligência, quando há a omissão por familiares ou instituições responsáveis pelos cuidados básicos para o desenvolvimento físico, emocional e social do idoso, como privação de medicamentos, descuido com a higiene e saúde, e ausência de proteção contra o frio e o calor. O abandono é uma forma extrema de negligência. Por último, a violência econômica, financeira e patrimonial consiste no desfrute impróprio ou ilegal dos bens dos idosos, e no uso não consentido por eles de seus recursos financeiros e patrimoniais.

Amanda explica que, nesses tipos de violência citados, é possível observar os sinais, conforme aponta a Organização Mundial da Saúde (OMS), sendo eles: hematomas, cicatrizes, marcas de restrição dos movimentos, como pulsos, pernas e outras partes; alterações de humor e de comportamento, murmúrios, pouca comunicação e outros; lesões nos órgãos genitais, infecções sem motivo aparente, sangramentos; desnutrição, desidratação, pouca higiene, doenças provenientes da ausência de cuidados básicos, falta de administração correta dos medicamentos; entre outros.

Segundo a assistente social, as principais necessidades da população idosa estão relacionadas à classe social a que pertence. “Uma grande parte das pessoas idosas está em situação de vulnerabilidade socioeconômica. Isso significa a necessidade de inclusão em programas de benefícios e a defesa do seu direito à saúde, nos casos em que se tem dificuldade de acesso ao sistema público. Mas uma grande demanda tem sido, ainda, a violência contra a pessoa idosa nas duas diferentes facetas, que é resultado, também, da fragilidade ou ruptura dos vínculos familiares. A família, pensada como fonte de apoio e proteção durante a velhice, torna-se fator de risco para o bem-estar do idoso, e há uma dificuldade em ver os descendentes ou responsáveis legais como violadores de direitos”, comentou.

Há uma série de desafios quando se trata dessa população, segundo a especialista. Um deles está relacionado à redução de recursos para a área social, que se materializam em políticas públicas, por exemplo. Segundo ela, há uma quantidade reduzida de pessoas que estão capacitadas e formadas para lidar com os idosos de maneira específica, atendendo suas demandas particulares. “Quando existem iniciativas para acolher essas pessoas no processo de garantia dos seus direitos, esses desafios podem ser enfrentados”, argumentou Amanda.

No Pará, a Secretaria de Estado de Assistência Social, Trabalho, Emprego e Renda (Seaster) tem atualmente dois abrigos estaduais voltados para pessoas idosas. São 79 acolhidos nos dois espaços. Em alusão ao Junho Violeta, haverá programação com ciclo de palestras e rodas de conversa, ações que serão desenvolvidas ao longo do mês em grupos de cinco idosos, conforme as orientações médicas e as regras de distanciamento social.

O Conselho Estadual dos Direitos da Pessoa Idosa também criou uma programação alusiva à campanha que conscientiza a população sobre como denunciar os diversos tipos de violência contra idosos. Em virtude da pandemia, as ações são online e começaram ontem (10), com debate sobre esse tema na página da Frente Norte de Fortalecimento à ILPI, espaço de articulação e fomento de ações no apoio, sem fins lucrativos, às Instituições de Longa Permanência para Idosos (ILPIs). Na próxima segunda-feira (15), será apresentado um vídeo institucional mostrando como identificar e denunciar o crime.

De acordo com a terapeuta ocupacional da Secretaria de Estado de Justiça e Direitos Humanos (Sejudh), Milenne Afonso, que representa o órgão no Conselho Estadual, “o objetivo é conscientizar a população sobre as diversas formas de violência que a pessoa idosa sofre. A maioria dos crimes é cometida dentro de casa, e a sociedade não vê. A pior violência é quando eu e você ficamos em silêncio. Denunciar é preciso”, destacou.

As denúncias de violência contra idosos podem ser feitas pelo Disque 100, que funciona diariamente, a qualquer hora do dia, incluindo sábados, domingos e feriados. As ligações podem ser feitas de todo o Brasil por meio de discagem gratuita, de qualquer terminal telefônico fixo ou celular.

Associação orienta idosos na pandemia

Há três décadas, a Associação dos Idosos do Pará (Assipa) atua com mecanismos para defender a população idosa e proporcionar momentos de lazer, com orientações, palestras, consultas médicas e ações como oficinas de artes cênicas, dança, canto, expressão corporal e facial, respiração, laboratório teatral, dramatização história do teatro, história do Brasil e outros temas.

De acordo com a presidente da Assipa, Selma Quintela, durante o período de isolamento social, como a população idosa faz parte do grupo de risco da covid-19, as ações presenciais estão suspensas. Para continuar o acompanhamento com os idosos do grupo, a equipe está investimento no atendimento online. “Todos os dias eu falo no nosso grupo de celular, pergunto como estão, dou orientações, ou ligo para quem não tem o aplicativo de mensagem. É uma forma de se comunicar, já que não sabemos quando isso vai acabar e não podemos nos expor a esse risco”, conta.

Quando ao tema da campanha, Selma afirma que estão sendo feitas, como sempre, orientações sobre a violência sexual, apontando os cuidados e como deve ser a atenção, além de assuntos como a sexualidade na terceira idade e doenças transmissíveis. “A gente estimula, é uma forma de se sentir. Agora não estamos fazendo por causa do isolamento, mas sempre temos mesas redondas com psicólogos e sexólogos. E quando eles têm algum problema podem se consultar com o médico geriatra que atende a associação, ele está fazendo consultas online e eu também repasso suas orientações”, diz Selma.

Além disso, ela tem repassado dicas de ginástica e dança, para que as pessoas que fazem parte da população idosa não fiquem paradas na quarentena. A presidente da Assipa contou, também, que todos têm cumprido as orientações da OMS sobre distanciamento social e higienização. Segundo o Ministério da Saúde, o número de idosos, em 2030, deve superar o de crianças e adolescentes de 0 a 14 anos. Isso pode ser explicado por conta da média de vida do brasileiro, que, nas últimas sete décadas, aumentou 30 anos, saindo de 45,4 anos, em 1940, para 75,4 anos, em 2015.

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