Com 145 mil kg vendidos por mês, coco se reinventa em confeitarias e docerias de Belém
Do protagonismo nas receitas clássicas ao uso estratégico na produção em escala, coco natural perde espaço, mas segue presente no paladar paraense
Ingrediente marcante da confeitaria paraense, o coco já ocupou lugar de destaque em doces e pães tradicionais, rivalizando com sabores regionais e clássicos. Hoje, porém, divide espaço com versões industrializadas que ganharam força pela praticidade, durabilidade e padronização — fatores decisivos para padarias e confeitarias de Belém.
Dados de comercialização e relatos de profissionais do setor mostram que o coco não desapareceu das receitas, mas passou por uma adaptação às novas dinâmicas de produção e consumo, em que custo e logística pesam tanto quanto o sabor.
Entre o fresco e o industrial: escolha é estratégica
Para quem vive da produção em larga escala, o coco natural já não é mais a principal opção. O confeiteiro e coordenador de cursos de uma rede especializada em produtos para sorveteria Paulo Freitas explica que a alta perecibilidade do produto in natura é um entrave importante.
“O coco fresco tem uma procura não tão alta para quem trabalha com grande produção, justamente por ser um produto muito perecível. A indústria vem justamente para auxiliar esse processo e atender as necessidades desses profissionais”, afirma.
Segundo ele, o leite de coco e o coco ralado industrializado são hoje os mais utilizados, tanto na confeitaria quanto na culinária regional.
“O leite de coco está muito presente, tanto na confeitaria quanto na cozinha quente. Já o coco ralado industrial ainda é o mais procurado”, completa.
A dificuldade de encontrar o coco fresco de qualidade também pesa na decisão. “Tem vezes que você demora a achar ou encontra produto que deteriorou com facilidade. Como vem do interior, o transporte pode comprometer a qualidade”, diz.
Custo e durabilidade influenciam cardápios
Na prática dos estabelecimentos, a escolha do tipo de coco é, muitas vezes, uma equação entre qualidade e viabilidade econômica.
A confeiteira Jéssica Câmara afirma que utiliza tanto o coco fresco quanto o industrializado, mas com critérios bem definidos.
“O coco fresco entra principalmente quando queremos mais sabor e textura. Porém, temos dado preferência para o industrializado pela praticidade, valor e principalmente validade”, analisou.
Ela destaca que o impacto no custo final dos produtos é direto. “O coco fresco é bem mais caro e dura menos. Então precisamos equilibrar qualidade com viabilidade no dia a dia”, disse.
Já a empresária Vânia Bordalo opta exclusivamente pelo industrializado.
“A durabilidade é o principal motivo pela escolha. A relação custo-benefício vale muito a pena”, afirma, acrescentando que seus clientes não percebem diferença significativa no sabor.
Dados apontam estabilidade com nuances
De acordo com Denivaldo Pinheiro, diretor técnico da Ceasa (Central de Abastecimento do Pará), Belém comercializa mensalmente cerca de 61.314 kg de coco seco e 84.036 de coco verde, o que resulta em 145 mil kg de coco vendidos todo mês.
Entre 2020 e 2025, houve um leve aumento no volume de coco seco (740,75 kg), enquanto o coco verde apresentou queda de mais de 23 mil quilos — uma redução de 18,62%.
Os preços também refletem a acessibilidade do produto: em abril, o quilo do coco seco sai, em média, a R$ 4,46, enquanto o coco verde custa cerca de R$ 1,47/kg.
Mudança de paladar ou adaptação?
Apesar da praticidade dominar a produção, o sabor do coco fresco ainda é reconhecido por consumidores.
A dona de casa Helena Viana percebe claramente a diferença.
“O coco fresco deixa um sabor mais acentuado, mais saboroso. Mas no dia a dia uso o industrializado pela facilidade”, destacou.
Já o empresário Eberth Wanghon concorda quanto ao sabor, mas admite que isso não interfere na escolha.
“O coco fresco tem sabor mais forte e textura mais macia. Mas, na hora de escolher, isso não influencia, até porque visualmente não dá para perceber”, declarou.
Tradição resiste, mas com menos protagonismo
Para Paulo Freitas, o coco não desapareceu da confeitaria paraense, mas perdeu parte do protagonismo ao longo do tempo.
“Hoje a gente não vê mais com tanta frequência doces como o olho de sogra, mas o beijinho ainda está presente. Acho que o coco deu uma sumida desse processo histórico, muito mais por mudança de paladar”, explicou.
Ainda assim, ele destaca que o ingrediente segue relevante em diversos produtos: “Pão de coco, beijinho, bolo de prestígio e a Maria Izabel continuam sendo clássicos.”
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