Círio de Nazaré impulsiona vendas e produção de microempreendedores em Belém
Camisas personalizadas, cartazes decorados e outros artigos religiosos ganham espaço entre os produtos mais procurados no período
A chegada do Círio de Nazaré movimenta não apenas a fé dos paraenses, mas também uma cadeia de negócios que ganha força nos meses que antecedem a procissão. Em Belém, microempreendedores aproveitam o período para ampliar a produção e comercializar artigos que unem religiosidade, cultura e identidade paraense. Entre eles estão Erberth Barros e Bernadete Verderosa, que encontraram nos produtos relacionados à festividade uma oportunidade de renda e expansão dos próprios negócios.
Há 14 anos, Erberth Barros começou a produzir camisas para o Círio ao lado da irmã e da sobrinha. A atividade surgiu depois que elas observaram a procura por peças personalizadas em uma loja no comércio de Belém. Na época, as estampas eram feitas manualmente, com tinta para tecido.
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As primeiras duas camisas foram produzidas em casa e colocadas à venda entre amigos e conhecidos. A divulgação boca a boca fez os pedidos aumentarem rapidamente. Segundo Erberth, no mesmo dia em que as primeiras peças foram comercializadas, a família recebeu cerca de 20 encomendas.“ Foi o momento que eu falei vamos investir nisso, porque é uma grande forma de a gente conseguir uma renda".
Durante aproximadamente três anos, o trabalho foi realizado com pintura manual. A mudança veio quando Erberth conheceu a técnica de sublimação e decidiu se especializar. "Para isso, fiz cursos de computação e passou a trabalhar com ferramentas de edição gráfica, vetorização e criação de estampas".
Erberth Barros (O Liberal/ Igor Mota)Com o tempo, a família passou a produzir as próprias peças. "Fiquei responsável pela criação das artes, a irmã pela costura e a sobrinha pela divulgação na internet", disse. O negócio também incorporou outros familiares e profissionais, incluindo um designer e um responsável pela produção audiovisual.
Atualmente, segundo Erberth, já foram produzidas mais de 400 camisas para o Círio deste ano, sem contar as peças customizadas com pedrarias "Os valores variam conforme o modelo e o nível de personalização, com camisas entre R$ 40 e R$ 60", explicou.
A família também atende grupos que participam da procissão na corda. São oito equipes de corda entre os clientes, de acordo com Erberth, com grupos que reúnem de 20 a 40 pessoas. O trabalho inclui a criação de estampas exclusivas para as equipes.
Produção antecipada
O aumento da procura fez com que a preparação para o Círio começasse cada vez mais cedo. Erberth conta que a produção, que inicialmente começava um mês antes da festividade, passou para dois meses e chegou a quase quatro meses no ano passado. “Quando acabou o Círio do ano passado, nós já estávamos pensando nas ideias para este ano.”
Para o Círio deste ano, a família começou a desenvolver as novas artes cerca de cinco meses antes da celebração. O planejamento também envolve a escolha dos tecidos, levando em consideração o clima quente de Belém.
(O Liberal/ Igor Mota)Segundo Erberth, a família passou a testar diferentes tipos de tecido para buscar materiais mais confortáveis para os clientes. O planejamento antecipado também é utilizado para garantir matéria-prima e evitar problemas com fornecedores durante o período de maior procura.
Entre os principais materiais estão tecidos, pedrarias, aviamentos e itens utilizados nos acabamentos. Além das camisas, a produção se diversificou. No ano passado, Erberth confeccionou pela primeira vez um manto de Nossa Senhora para uma equipe da corda. A experiência abriu espaço para novas encomendas e, neste ano, seis mantos estão em produção.O crescimento dos pedidos também ampliou a necessidade de mão de obra. A família passou a contratar costureiras de outros bairros e motoboys para realizar entregas.
Artesanato e fonte de renda
Para Bernadete Verderosa, a produção de artigos para o Círio começou durante a pandemia: "Passei a confeccionar peças para familiares e amigos e, como já trabalhava com um armarinho e tinha afinidade com trabalhos manuais, então comecei a decorar os cartazes oficiais da festividade com pedrarias e outros materiais".
A atividade ganhou novos clientes e, atualmente, os cartazes são o principal produto comercializado por ela. Os preços começam em R$ 50 e variam conforme a quantidade de pedrarias, fitas e outros elementos utilizados na decoração.
A preparação para o Círio começa ainda no primeiro semestre, quando Bernadete pesquisa e compra materiais específicos para formar o estoque. “Minha organização começa ainda no primeiro semestre, quando busco por pedrarias especiais para a ocasião e monto um estoque”, afirma.
Com o aumento dos pedidos, a empreendedora também ampliou o catálogo e passou a confeccionar centros de mesa e outros artigos relacionados ao Círio. Para este ano, a expectativa é dobrar a quantidade de encomendas e, em um cenário de maior procura, chegar a três vezes o volume registrado anteriormente.
Parte dos pedidos também vem de fora do Pará. Segundo Bernadete, clientes de outros estados já fazem encomendas para manter a tradição de decorar as casas com artigos relacionados ao Círio.
Demanda impulsiona pequenos negócios
O impacto do Círio também se estende a uma rede de profissionais que participa indiretamente da produção. No caso de Erberth, o negócio envolve costureiras de outros bairros, fornecedores de tecidos e pedrarias, gráficas, profissionais de design, divulgação e entregas. Para acompanhar o período de maior movimento, ele mantém estoque de materiais e antecipa a produção.
A expansão também ultrapassou o mercado paraense. Segundo o empreendedor, clientes de outros estados passaram a fazer encomendas para o período da festividade, enquanto grupos que participam da corda procuram a família para produzir peças personalizadas.
O trabalho ganhou ainda um caráter social. Entre as encomendas está uma camisa criada para uma equipe da corda com referência à causa do autismo. A ideia partiu de uma mãe integrante do grupo e foi incorporada à produção.
Para os empreendedores, o Círio representa, assim, uma oportunidade de ampliar as vendas e diversificar os negócios, mas também de envolver outros trabalhadores na cadeia de produção. “A gente se dedica muito, faz com amor e coloca o nosso amor nisso. A união da família também faz muita diferença", disse Erberth Barros.
*Thaline Silva, estagiária de jornalismo, sob supervisão de Keila Ferreira, coordenadora do núcleo de Política e Economia
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