Juros altos, custos e avanço das compras online mudam estratégia de lojistas em Belém
Comércio local reduz estoques, controla despesas e amplia presença digital para enfrentar consumidor mais cauteloso e concorrência de grandes plataformas; entidades não veem, porém, crise generalizada no setor
O comércio de Belém atravessa um período de adaptação diante de um cenário de crédito mais caro, consumidores mais cautelosos e concorrência crescente das grandes plataformas de comércio eletrônico. Para os lojistas, a pressão sobre as margens vem de diferentes frentes, como energia elétrica, aluguel, folha de pagamento, combustíveis, tributos e logística, enquanto a possibilidade de repassar integralmente esses custos aos preços é limitada pelo comportamento de um consumidor que compara ofertas em tempo real.
A resposta tem sido uma gestão mais cuidadosa do caixa e dos estoques, além da busca por canais digitais. Segundo a Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo no Pará (Fecomércio-PA), o crédito mais caro tem levado empresários a reduzir a quantidade de mercadorias armazenadas, evitar capital imobilizado e reavaliar projetos de expansão e investimentos. A entidade aponta ainda os custos de energia, combustíveis, aluguéis e logística como fatores que pesam sobre as margens das empresas paraenses.
"Os custos com maiores pesos sobre as margens são a energia elétrica, que apesar de ser um dos maiores estados produtores do País, tem as maiores tarifas e que tem aumentado significativamente", afirma Sebastião Campos, presidente da Fecomércio-PA.
Segundo ele, os gastos com energia atingem diretamente lojas físicas, shoppings e centros comerciais. A isso se somam os custos com combustíveis, que afetam transporte e logística de mercadorias, os aluguéis e os efeitos da inflação sobre produtos e insumos.
O economista Nélio Bordalo, conselheiro do Conselho Regional de Economia da 9ª Região Pará/Amapá (Corecon-PA/AP), explica que a alta dos juros afeta simultaneamente as empresas e os consumidores. Para as companhias, o financiamento fica mais caro. Para as famílias, o comprometimento da renda com dívidas reduz a capacidade de assumir novas parcelas.
"Quando uma boa parte da renda mensal já está comprometida com dívidas, a família passa a priorizar alimentação, moradia, transporte e outros gastos essenciais, adiando a compra de bens duráveis", afirma.
O efeito aparece principalmente em segmentos como móveis, eletrodomésticos e eletrônicos, que dependem mais de crédito e parcelamento. Além de terem valor unitário mais elevado, esses produtos podem ter a compra adiada por alguns meses para não comprometer necessidades básicas da família.
"Assim, quando o crédito fica caro e a renda disponível diminui, esses produtos sofrem uma dupla pressão: queda da demanda e redução das margens", diz Bordalo.
A Fecomércio-PA também identifica eletroeletrônicos, eletrodomésticos, móveis e segmentos de bens não essenciais como os mais vulneráveis ao cenário atual. O Sindicato do Comércio Varejista e dos Lojistas (Sindilojas) de Belém acrescenta que setores dependentes de crédito e parcelamento, como veículos e alguns segmentos da construção, também tendem a sentir mais os juros elevados.
Para o sindicato patronal, porém, a vulnerabilidade não depende apenas do segmento de atuação. Empresas muito endividadas, com estoques elevados, custos fixos altos e pouco fluxo de caixa estão mais expostas.
"Não podemos confundir as dificuldades financeiras enfrentadas por algumas grandes redes nacionais com uma crise generalizada do comércio. O consumo continua existindo, mas o ambiente está mais desafiador e há menos espaço para erros de gestão", afirma, em nota, o Sindilojas Belém.
Menos estoque e mais presença digital
Nesse ambiente, manter grandes volumes de mercadorias parados pode representar um risco maior para os lojistas. A orientação das entidades é buscar maior velocidade de giro, ajustar as compras à demanda e preservar o caixa.
"O empresário está mais cauteloso. Estoque parado representa dinheiro imobilizado e, muitas vezes, financiado a um custo elevado. Por isso, há maior preocupação com giro de estoque, compras mais ajustadas, preservação do caixa e avaliação criteriosa de novos investimentos e expansão", diz o Sindilojas Belém.
A concorrência, entretanto, não vem apenas das condições financeiras. O consumidor também mudou a forma de pesquisar antes de comprar. De acordo com Bordalo, a expansão dos marketplaces representa uma transformação estrutural no varejo, já que o cliente pode comparar preços e produtos pela internet antes de decidir onde fará a compra.
Para o comércio paraense, o problema é agravado pelas características logísticas da região. A Fecomércio-PA aponta que a distância dos grandes centros distribuidores, os custos de transporte e a infraestrutura limitada reduzem a capacidade de competição das empresas locais com plataformas nacionais que operam em larga escala.
"Em muitas situações, marketplaces nacionais se destacam por oferecer preços mais baixos, sustentados pela escala e pela logística integrada", afirma a entidade.
O comércio físico, por outro lado, ainda possui vantagens que não são facilmente reproduzidas pelo ambiente virtual. Atendimento pessoal, possibilidade de ver e testar produtos, entrega imediata, facilidade de troca e relacionamento com o consumidor são apontados como diferenciais para os lojistas de Belém.
"O cenário não deve ser interpretado como uma substituição da loja física pelo marketplace. A tendência é de integração dos dois canais", avalia Bordalo.
A mudança já aparece nas estratégias recomendadas aos comerciantes. O Sindilojas Belém cita vendas por redes sociais e WhatsApp, condições de pagamento via Pix, entregas, ações de relacionamento e promoções mais direcionadas. A Fecomércio também aponta a digitalização, a renegociação de contratos, a redução de custos fixos e a racionalização dos estoques como medidas importantes para preservar as margens.
Caso 'Casas Bahia' expõe pressão sobre grandes redes
Embora as entidades não apontem uma crise generalizada do comércio paraense, o momento vivido por algumas grandes redes nacionais mostra como a combinação de juros, mudanças no consumo e reestruturação empresarial pode atingir o varejo físico.
No Pará, um dos casos mais evidentes é o das Casas Bahia. Segundo a Federação dos Trabalhadores no Comércio e Serviço do Pará e Amapá (Fetracom-PA/AP), a empresa mantinha 42 lojas da bandeira no Estado e, até junho, oito unidades haviam sido encerradas, com impacto estimado entre 150 e 200 trabalhadores.
Em Belém, a entidade prevê o fechamento de cinco unidades. Duas já encerraram as atividades, uma no Shopping Grão-Pará e outra na avenida Senador Lemos, no bairro do Telégrafo. A estimativa apresentada pela federação é de que as cinco lojas reúnam entre 120 e 130 trabalhadores.
A situação levou sindicatos do comércio de diferentes regiões do Estado a se reunirem para discutir os impactos dos desligamentos. Segundo José Francisco Pereira, presidente da Fetracom-PA/AP, 23 sindicatos participaram de um encontro realizado no dia 21 de agosto.
A entidade defende que o fechamento de unidades físicas não necessariamente precisa resultar na perda dos postos de trabalho. A proposta apresentada pelos trabalhadores é discutir com a empresa a redistribuição dos funcionários para outras lojas ou estruturas, preservando salário e benefícios.
"Nossa proposta é a reintegração de todos os trabalhadores, garantindo salário e ticket de alimentação", afirma Pereira.
Segundo o sindicalista, 70% ou mais dos trabalhadores das Casas Bahia seriam mulheres, muitas delas responsáveis pelo sustento dos filhos. Ele afirma ainda que uma parcela significativa teria menos de 30 anos.
A federação também participa da mobilização nacional em torno das demissões. Segundo Pereira, está prevista para o início de setembro uma reunião envolvendo a Confederação Nacional dos Trabalhadores no Comércio (CNTC), as Casas Bahia e o Ministério Público do Trabalho, com o objetivo de discutir um acordo sobre a situação dos trabalhadores.
A entidade sindical atribui parte importante das dificuldades das grandes empresas aos juros elevados e também aponta a transformação do modelo de vendas provocada pelo comércio eletrônico.
Transformação não significa fim do comércio físico
Apesar dos impactos sobre algumas empresas, a avaliação das entidades ouvidas é de que o comércio paraense ainda apresenta capacidade de adaptação. A própria Fetracom-PA/AP afirma não identificar, neste momento, outros casos semelhantes de fechamento de grandes redes nacionais no Estado além das Casas Bahia.
Para Bordalo, os sinais observados indicam uma combinação de fatores conjunturais e estruturais. Os juros elevados e o endividamento ajudam a explicar a dificuldade atual de consumidores e empresas, mas a digitalização do comércio e a mudança no comportamento de compra devem permanecer mesmo quando o custo do crédito diminuir.
"O que já parece estrutural é a mudança no comportamento do consumidor e no modelo de concorrência", afirma o economista.
Nesse cenário, o desafio para o comércio de Belém é combinar a presença física, que ainda oferece atendimento e conveniência ao consumidor, com ferramentas digitais capazes de aproximar as empresas do novo processo de compra.
Para a Fetracom-PA/AP, a transformação do varejo também não elimina a importância do comércio físico para a geração de emprego e renda no Estado. A entidade defende que, mesmo diante do fechamento de unidades, os trabalhadores sejam reaproveitados em outras estruturas das empresas, em vez de simplesmente desligados.
"A nossa proposta é alocar em outras lojas essas pessoas, produzirem mais para serem autossustentáveis", afirma José Francisco Pereira.
Para o Sindilojas Belém, o comércio local não está imune às mudanças do varejo nacional, mas possui capacidade de adaptação. O desafio, segundo a entidade, é permitir que os lojistas permaneçam competitivos e financeiramente saudáveis sem depender exclusivamente de aumento de preços ou de uma disputa permanente por descontos.
"Não é possível simplesmente aumentar preços, nem entrar permanentemente em uma guerra de descontos. É preciso melhorar a gestão e entregar mais valor ao consumidor", conclui o sindicato.
Palavras-chave
COMPARTILHE ESSA NOTÍCIA