Churrasco da Copa no Pará custa até 6 vezes mais do que no último título do Brasil, diz Dieese
Estudo compara preços, renda e consumo dos paraenses entre duas gerações de Copa
Há 24 anos, o Brasil conquistava o pentacampeonato mundial na Copa do Mundo de 2002. Na época em que Ronaldo, Rivaldo e Ronaldinho Gaúcho levantaram a taça na Coreia do Sul e no Japão, a realidade econômica dos paraenses era bem diferente da atual: o salário mínimo era de apenas R$ 200, o crédito ao consumidor ainda era limitado e boa parte das famílias fazia compras somente à vista. Agora, em 2026, o cenário mudou bastante — inclusive no bolso do torcedor. Segundo levantamento do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos no Pará (Dieese-PA), solicitado pela reportagem do Grupo Liberal, o tradicional churrasco para assistir aos jogos da Seleção Brasileira pode custar até seis vezes mais caro neste ano.
Em 2002, o Brasil enfrentava um período de forte instabilidade econômica. O país convivia com inflação elevada, crise cambial e dólar acima de R$ 3,50. No Pará, o impacto era sentido diretamente no poder de compra da população.
Naquele ano, o salário mínimo era de R$ 200. Já a cesta básica em Belém custava R$ 136,60 em dezembro, comprometendo cerca de 68% da renda do trabalhador. Na prática, um salário mínimo comprava apenas 1,46 cesta básica.
Além disso, o desemprego girava em torno de 9%, enquanto o crédito era muito mais restrito do que atualmente. O crédito consignado ainda não existia, cartões de crédito eram menos populares e financiamentos imobiliários alcançavam apenas uma parcela pequena da população.
Salário aumentou mais de 700% desde o último título mundial
Quando o Brasil conquistou o último título mundial, em 2002, o salário mínimo era de apenas R$ 200. Em 2026, o valor chegou a R$ 1.621, um aumento superior a 710% em pouco mais de duas décadas.
Mas, ao mesmo tempo em que a renda aumentou, o custo de vida também ficou mais alto. Em 2002, a cesta básica em Belém custava R$ 136,60 e consumia cerca de 68% do salário mínimo da época. Já em 2026, o conjunto de alimentos básicos passou a custar R$ 755,24, comprometendo aproximadamente 48,5% da renda mínima atual.
Isso significa que, apesar de a cesta básica ter ficado muito mais cara em valores absolutos, o salário cresceu proporcionalmente mais. Segundo o Dieese-PA, a inflação acumulada no período foi de aproximadamente 306,7%, o que indica ganho real no poder de compra dos trabalhadores ao longo dos anos, embora a alimentação continue entre os principais gastos das famílias paraenses.
Churrasco da Copa pode custar até seis vezes mais caro
Uma das comparações que mais chamam atenção envolve os tradicionais churrascos durante os jogos da Seleção Brasileira.
Em 2002, um churrasco para acompanhar a Copa custava entre R$ 40 e R$ 50. Já em 2026, o valor varia entre R$ 220 e R$ 300, dependendo dos itens escolhidos.
O preço da carne bovina, por exemplo, saltou de R$ 6,45 para R$ 45,06 o quilo. O pão francês passou de R$ 4,18 para R$ 16,92, enquanto refrigerantes, carvão e descartáveis também registraram altas expressivas.
TVs e camisas da Seleção ficaram mais acessíveis proporcionalmente
Apesar do aumento dos preços nominais, alguns produtos ficaram proporcionalmente mais acessíveis para os trabalhadores.
Em 2002, uma televisão de tubo de 29 polegadas custava entre cinco e sete salários mínimos. Hoje, uma Smart TV 4K de 50 polegadas pode ser encontrada por valores equivalentes a um ou dois salários mínimos.
A camisa oficial da Seleção Brasileira também passou a pesar menos no orçamento. Há 24 anos, o item representava até 75% do salário mínimo. Atualmente, o custo varia entre 22% e 28% da renda mínima mensal.
Crédito cresceu e endividamento bate recorde
Outra mudança significativa entre as duas Copas está no acesso ao crédito e na forma como as famílias passaram a consumir. Segundo o economista Everson Costa, supervisor técnico do Dieese-PA, em 2002 o crédito ainda era limitado e grande parte das compras era feita à vista.
“O crédito consignado ainda não havia sido implantado, o uso do cartão de crédito era menos disseminado e o volume de crédito disponível na economia era muito menor”, explica.
Atualmente, o crédito total já supera 50% do PIB brasileiro. Em contrapartida, cerca de 80,9% das famílias possuem algum tipo de dívida. Para Everson, o cenário mostra uma transformação importante no padrão de consumo da população.
“Hoje o paraense tem mais acesso ao consumo, à tecnologia e aos bens duráveis, mas grande parte desse consumo é financiada. Isso faz com que as famílias convivam com um orçamento mais complexo e pressionado pelo endividamento”, afirma.
Política
Naquele período, o Pará era governado por Almir Gabriel, do PSDB, que estava em seu segundo mandato. O ano de 2002 também marcou a eleição de Simão Jatene para o governo estadual, dando continuidade à gestão tucana no estado.
No cenário nacional, o Brasil vivia um momento político decisivo. A eleição presidencial daquele ano levou Luiz Inácio Lula da Silva à Presidência da República pela primeira vez, em meio a um contexto de instabilidade econômica, alta do dólar e inflação elevada.
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