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Canetas emagrecedoras mudam cardápios de restaurantes em Belém

Pesquisa nacional indica que mais de 60% dos restaurantes já notam mudanças no comportamento de clientes que usam esses medicamentos

Gabriel da Mota

O avanço no uso de canetas emagrecedoras provoca mudanças diretas no setor de alimentação fora do lar em Belém. Donos de estabelecimentos e especialistas na capital paraense registram uma alteração de comportamento dos clientes, que passaram a pedir porções menores e alternativas mais leves, exigindo adaptações nos cardápios para atender à nova demanda.

A transformação é amparada por dados nacionais do setor. Um levantamento da Associação Brasileira de Bares e Restaurantes (Abrasel) aponta que 61% dos empreendedores notaram mudanças de hábito nos clientes associadas ao uso de medicamentos como Ozempic e Mounjaro. Segundo a pesquisa, 64% dos empresários perceberam aumento nos pedidos de miniporções e mais de 70% observaram maior frequência de escolhas leves.

No Engenho Cozinha Brasileira, em Belém, a gerência observou aumento na procura por pratos mais leves, acompanhado da redução no consumo de comida. O gerente-geral do restaurante, Mateus Ribeiro, afirma que a demanda por combinações de proteínas brancas e saladas cresceu cerca de 15% nos últimos meses.

"Os clientes chegam pedindo adaptações nos pratos, como mais salada e menos proteína. É um comportamento que ficou mais evidente nos últimos três meses e mostra uma mudança no perfil de consumo", relata Ribeiro.

image Mateus Ribeiro, gerente de um restaurante em Belém (Thiago Gomes / O Liberal)

A adaptação a essa nova realidade exige que os restaurantes ofereçam opções saudáveis e atrativas para um público com menor apetite. No restaurante gerenciado por Mateus, o "Filhote Fitness", preparado com molho de maracujá e gengibre e acompanhado de legumes, tornou-se uma das alternativas para atender essa demanda.

"A proposta não é mudar a identidade do restaurante, mas ampliar as opções para acompanhar esse novo comportamento do consumidor", afirma o gerente. Segundo ele, esse público ainda representa cerca de 5% dos clientes da casa.

image O "Filhote Fitness" é preparado com molho de maracujá e gengibre e acompanhado de legumes; uma das alternativas para atender à demanda por porções menores no Engenho Cozinha Brasileira (Thiago Gomes / O Liberal)

Restaurantes criam porções reduzidas para evitar perdas

Para reduzir desperdícios e manter consumidores que passaram a comer menos, estabelecimentos da capital começaram a criar versões menores de pratos regionais. O empresário e fundador do grupo Ver-o-Açaí, Maurício Façanha, conta que a rede lançou porções reduzidas inspiradas no público bariátrico, além de novas opções como o filhote de forno com purê de macaxeira.

"Criamos uma versão que chamamos de 'gitita', com porções bem menores das comidas regionais. A ideia é atender quem quer manter a experiência da culinária paraense, mas já não consegue consumir grandes quantidades", explica.

A tendência de redução no consumo de bebidas alcoólicas também influenciou as decisões do grupo. Façanha afirma que encerrou as atividades de uma cervejaria na Batista Campos para abrir uma nova unidade do grupo, antecipando uma mudança que já vinha acompanhando.

"Percebemos, de uns dois anos para cá, que havia uma redução no consumo de álcool e entendemos que fazia mais sentido investir em um modelo voltado à alimentação. Foi uma decisão baseada nessa transformação do mercado", afirma.

A reportagem de O Liberal tentou contato com a representação da Abrasel no Pará para obter dados consolidados sobre o cenário do setor no Estado e verificar se as porcentagens locais acompanham as médias do levantamento nacional, mas não obteve retorno até o fechamento desta edição.

Nutricionista alerta para risco de perda de massa muscular e nutrientes

O rápido sentimento de saciedade e os episódios de enjoo estão entre as principais reações de quem utiliza medicamentos para perda de peso. A nutricionista do Engenho, Laís Santana, ressalta que esses remédios atuam sobre hormônios ligados à fome e podem aumentar a sensibilidade a cheiros e alimentos mais gordurosos.

"A saciedade aparece muito cedo. Muitas vezes, a pessoa faz poucas garfadas e já sente que não consegue continuar a refeição. Também é comum haver náuseas diante de alimentos gordurosos ou frituras", explica.

image Laís Santana, nutricionista do restaurante que Mateus gerencia (Thiago Gomes / O Liberal)

Como a perda de peso acelerada reduz tanto gordura quanto massa muscular, a alimentação precisa priorizar proteínas e alimentos ricos em micronutrientes. Segundo a nutricionista, a substituição de carboidratos simples por versões integrais também ajuda a manter uma digestão mais lenta e equilibrada.

"Esses medicamentos não fazem distinção entre gordura e massa muscular. Sem acompanhamento nutricional, o paciente pode perder tecido muscular e apresentar deficiência de vitaminas e minerais importantes", alerta.

A especialista destaca ainda que as bebidas sem álcool ganharam espaço como alternativa para quem deseja manter a vida social durante o tratamento.

"Hoje existem ‘mocktails’ [coquetéis sem álcool], blends de frutas e outras bebidas que preservam a experiência de sair com amigos sem a necessidade do consumo de álcool. É uma forma de incluir esse público sem abrir mão do convívio social", completa.

Mudança de hábitos à mesa

Dados nacionais revelam o impacto do uso de medicamentos emagrecedores no setor de alimentação fora do lar

  • 61% dos empresários notaram mudança geral de comportamento dos clientes;
  • 70% perceberam aumento na escolha por pratos mais leves;
  • 64% observaram maior saída de miniporções;
  • 65% constataram alteração nos pedidos de bebidas alcoólicas;
  • 53% registraram crescimento na procura por bebidas sem álcool.

Fonte: Abrasel

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