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Belém recebe maior fórum sobre internet do país com debates sobre IA, regulação e Amazônia

Evento reúne mais de 1,4 mil participantes para discutir impactos das tecnologias digitais, conectividade na Amazônia e soberania de povos tradicionais

Maycon Marte
fonte

A capital paraense recebe a partir dessa segunda-feira (25/05) o 16º Fórum da Internet no Brasil (FIB16), com debates durante todo o dia, dos mais variados temas que envolvem a internet e seu momento atual. Das atualizações do Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) digital aos impactos da Inteligência Artificial (IA) nas eleições, o evento já possui mais de 1.400 inscritos para as mesas de discussão. Esse encontro anual é organizado pelo Comitê Gestor da Internet no Brasil (CGI.br) e já esteve em Belém em 2013, agora, retorna a Amazônia com questões mais atuais em torno do que há de novo no mundo digital.

O FIB 16 existe como uma preparação para um encontro maior, o Fórum de Governança da Internet (IGF), evento global promovido pela Organização das Nações Unidas (ONU). Em Belém, no Hangar Centro de Convenções, onde o evento está instalado, haverá 52 atividades ao longo dos cinco dias de evento. O evento, gratuito e aberto a todos os públicos, segue até o dia 29 e pode ser acompanhado presencialmente ou online, mediante inscrição prévia pelo site: fib.cgi.br.

Para a coordenadora do CGI.br, Renata Miele, a escolha da capital paraense para sediar o encontro foi uma decisão estratégica, especialmente no contexto pós-COP. "Consideramos de suma importância a realização deste evento na região Norte do país para debater os impactos da internet e das tecnologias digitais, não apenas na sociedade, mas em todo o Brasil", afirmou. Entre os temas centrais desta edição estão a regulação das plataformas digitais, a proteção de crianças e adolescentes no ambiente digital, com destaque para a vigência do ECA Digital, além dos impactos da inteligência artificial na educação, na saúde e no processo eleitoral.

A edição também coloca em pauta questões fundamentais para a Amazônia e para as populações tradicionais. A soberania digital indígena e quilombola figura entre os eixos de debate, reconhecendo a diversidade populacional brasileira. Outro ponto de destaque é a chamada "conectividade significativa", tema especialmente sensível para a região Norte, onde limitações geográficas ainda dificultam o acesso adequado à internet em diversas cidades e comunidades. A discussão busca apontar caminhos concretos para levar uma internet de qualidade capaz de impactar positivamente a vida das pessoas.

O caráter multissetorial do evento reúne representantes da sociedade civil, do setor privado, de pesquisadores, da academia e do governo, consolidando-o como o maior fórum sobre governança da internet no Brasil. As discussões produzidas no encontro alimentam os debates de organismos internacionais, incluindo a própria ONU.

Trocas

O Laboratório de Políticas Públicas e Internet (LAPIN), organização da sociedade civil, apresentou durante o Fórum da Internet no Brasil um artigo que analisa a instrumentalização do discurso de soberania nacional para justificar a expansão de infraestruturas digitais no país. Segundo Filipe Rocha, diretor do LAPIN, a pesquisa investiga os impactos concretos dessas estruturas no cotidiano da população brasileira, abrangendo o consumo de água e energia, a ocupação territorial e a atividade de mineração.

O estudo revela um cenário preocupante: há empreendimentos em operação no Brasil que consomem energia equivalente ao abastecimento de mais de 2 milhões de pessoas, sem que as comunidades diretamente afetadas sejam sequer consultadas. "A mensagem que pretendemos transmitir é a necessidade de ouvir, consultar e garantir a participação dos brasileiros no desenvolvimento dessas políticas", afirmou Rocha.

A denúncia ganha contornos ainda mais graves quando confrontada com a realidade vivida por povos originários. Áurea Anacé, liderança dos indígenas Anacé, residem no Ceará, relatou que sua comunidade enfrenta os impactos da construção de um data center em território indígena, empreendimento que não passou pelo processo de consulta prévia previsto em lei. O caso, segundo ela, não é isolado, outras situações semelhantes já ocorreram na região sem o devido protocolo de consulta.

Os efeitos já são sentidos no dia a dia: a pesca está prejudicada, o nível dos rios está caindo e as fontes de água utilizadas pelas comunidades estão secando progressivamente. "A escassez de água já afeta outras áreas de nossas atividades e da vida na comunidade", alertou a liderança indígena. Diante desse cenário, Áurea destacou que a comunidade busca se organizar com os recursos disponíveis para enfrentar os impactos crescentes.

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