Alta do cacau pressiona preços e desafia docerias no Pará, maior produtor do país
Inflação do chocolate no último ano superou 10%, acima da média geral, alerta o Dieese Pará

A disparada do preço do cacau no mercado internacional, que chegou a patamares recordes desde 2023, vem pressionando o bolso do consumidor e a margem de lucro de empresas no Brasil. O Pará, maior produtor nacional, alcançou em 2024 a marca de mais de 150 mil toneladas — mais da metade da safra do país — e ocupa posição estratégica nesse cenário: enquanto a produção cresce na Transamazônica, a indústria e o comércio locais enfrentam reajustes constantes nos custos. O resultado aparece tanto no preço do chocolate consumido nos lares quanto na rotina de docerias de Belém, que precisam se reinventar para não perder clientes.
De acordo com dados internacionais, os contratos futuros de cacau ainda giram em torno de US$ 8 mil a US$ 9 mil por tonelada — quase quatro vezes mais que os US$ 2,3 mil de três anos atrás. A tendência, segundo analistas, é de estabilização em patamares elevados, próximos de US$ 6 mil a tonelada nos próximos anos. No Brasil, isso se refletiu diretamente na Páscoa de 2025, quando os preços médios do chocolate subiram 18,9%, o maior aumento em 13 anos.
Para o supervisor técnico do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese) do Pará, Everson Costa, o impacto da alta internacional é inevitável. “Mesmo o Pará sendo um grande produtor de cacau, esse produto é uma commodity e é negociado em dólar. Quando o real se desvaloriza frente à moeda americana, isso encarece o custo da matéria-prima e chega ao consumidor final”, explica.
Ele enfatiza que os preços no Pará seguem a lógica global, reforçada pela elevação de outros insumos. "Na Páscoa de 2025, foram identificados produtos até 20% mais caros. Não foi só o cacau, mas também leite, açúcar e embalagens. A inflação do chocolate nos últimos 12 meses superou 10%, bem acima da média geral”.
As consequências aparecem tanto no consumo doméstico quanto na produção. Segundo pesquisa da Worldpanel by Numerator, o consumo domiciliar de chocolate no Brasil caiu 19% em volume no primeiro trimestre de 2025. Para driblar o cenário, a indústria tem adotado estratégias como reduzir o peso das embalagens sem baixar preços.
“Os tabletes de chocolate que eram de 300 gramas hoje não chegam a isso, e caixas de bombons que tinham 350 gramas estão menores. Quem vende precisa diminuir margens ou reduzir o tamanho do produto para continuar competitivo”, observa Costa.
Produção e relevância do Pará
A força da cultura cacaueira paraense contrasta com os entraves da cadeia do chocolate. Enquanto a produção avança na Transamazônica, entre Medicilândia e Uruará, indústria e comércio lidam com reajustes constantes nos custos. A atuação de cooperativas e o avanço das pesquisas consolidam o Pará como referência no setor, embora a logística e a agregação de valor ainda representem obstáculos.
“Hoje o Pará tem uma cadeia mais organizada, com menos atravessadores e com inovação aplicada na lavoura. Isso garante qualidade e competitividade, mas os preços internacionais ainda ditam o ritmo do mercado”, ressalta Costa. Para ele, os preços altos devem permanecer até pelo menos 2026, enquanto a África Ocidental — maior fornecedora mundial — enfrenta problemas climáticos e surtos de doenças nas lavouras.
O impacto para docerias de Belém
Na outra ponta da cadeia, o impacto chega às cozinhas das docerias e confeitarias de Belém. A empreendedora Vânia Bordallo, dona de uma loja de sobremesas na Travessa Perebebuí, no bairro do Marco, confirma que o aumento no custo do chocolate mudou a rotina da produção.
“Hoje, cerca de 80% dos nossos doces levam chocolate. Isso afeta diretamente o custo e, inevitavelmente, o repasse para o cliente. Como alternativa, negociamos com fornecedores que estejam com produtos em promoção e compramos em grande quantidade, dessa forma, conseguimos negociar um desconto. Hoje, nós estamos usando barras de dois quilos, que, proporcionalmente, fica melhor em custo", conta Bordallo.
A empreendedora explica que o chocolate utilizado na doceria não é comprado em supermercados, mas em casas especializadas de confeitaria. Embora tivesse o desejo de usar o produto regional, a produção limitada em quantidade e o caráter mais artesanal tornam o chocolate paraense mais caro, o que inviabiliza a absorção desse custo.
Além do cacau, ela conta que outros ingredientes encareceram, como a castanha-do-pará, essencial em várias receitas regionais.
Mesmo diante de um cenário desafiador, Vânia afirma que possui uma clientela fiel e que não houve perda de consumidores da loja. A estratégia foi reduzir a margem de lucro.
“Nós não mudamos a receita, não mexemos na qualidade. Houve aumento, mas diminuímos a nossa margem para continuar oferecendo o mesmo produto. Os clientes percebem, mas entendem que é consequência do custo dos ingredientes”, conclui.
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