Alexandre David celebra 40 anos de carreira com papéis opostos na TV e no streaming
No ar como o acolhedor cozinheiro Cláudio, em ‘Coração Acelerado’, o artista detalha a transição entre o humor da novela das 19h e o peso de seu papel anterior como um detetive da ditadura militar na série ‘Rio Connection’
O ator Alexandre David, bacharel em Teatro e pós-graduado em Direção Teatral pela Faculdade CAL de Teatro, com formação complementar pela UniverCidade do Rio de Janeiro e pelo Conservatoire National Supérieur d'Art Dramatique (PSL), em Paris, tem destaque nacional e internacional com atuações em inglês e francês.
Atualmente interpretando o cozinheiro Cláudio na novela das 19h da Globo, ‘Coração Acelerado’, Alexandre David apresenta uma atuação focada em momentos sensíveis junto ao núcleo principal. O papel estabelece um contraste com seu trabalho anterior na série ‘Rio Connection’, do Globoplay, na qual interpretou Batista, um chefe de polícia rigoroso durante o período da ditadura militar no Brasil. A variação entre esses personagens exemplifica a amplitude de repertório exigida dos artistas no setor audiovisual.
“O divertido da profissão de ator é isso: você fazer personagens distintos, opostos, diferentes de você mesmo”, retrata Alexandre David ao falar sobre o tema. “Foi muito rico fazer um vilão, um policial que trabalhava para a ditadura nos anos 70, sanguinário, corrupto, violento, numa série adulta e em inglês; foi outro desafio, já que toda a interpretação em ‘Rio Connection’ era em inglês. E agora fazer o Cláudio, que é alguém amoroso, um cara que escuta, com empatia, que está ali para dar atenção, carinho, tentando aconselhar no meio dos turbilhões de paixões do mocinho e da mocinha, um personagem muito bom de se fazer”, afirma.
Com 40 anos de carreira, o ator detalha ainda mais essas distinções técnicas entre os personagens, o processo de construção de cada papel e os critérios que definem suas preferências de atuação. Para compor Batista, Alexandre se inspirou em um personagem real da história brasileira: “Tinha um chefe de polícia conhecido da época, Sergio Fleury. Chamavam-no de Delegado Fleury. Ele atuou no Departamento de Ordem Política e Social de São Paulo durante a Ditadura Militar no Brasil. Era chamado de ‘Papa’, pois sempre se vestia de branco e as pessoas iam até ele para pedir favores. O livro ‘Autópsia do Medo’, de Percival de Souza, foi de grande utilidade por retratar a época e as práticas de interrogatórios utilizadas pela polícia a serviço da ditadura.”
Com Cláudio, que faz parte do núcleo principal na mansão e também no rancho, o personagem acaba se envolvendo em muitas cenas com humor; algo que o ator gosta de fazer, além de realizar uma ponte, em alguns momentos, da relação entre Walmir (Antonio Calloni) e o filho, o protagonista João Raul (Filipe Bragança).
“Ele troca muitas informações sobre o Walmir com o João Raul, observando e tomando conta do que está acontecendo na casa. Ele funciona como amparo ali, avisa a um e a outro sobre os últimos acontecimentos. Às vezes se atrapalha, tem algumas situações engraçadas; fico muito animado, pois posso mostrar mais da minha veia humorística. Ele se atrapalha, mas sempre com o intuito de ajudar no bem-estar da casa e no caso de amor de João Raul e da Agrado”, comenta Alexandre.
Particularmente, o ator diz ter uma preferência específica de atuação. “Prefiro os personagens voltados à comédia. Eu gosto muito de comédia, adoro ver e fazer, seja no teatro, na televisão ou no cinema. Gosto do cômico, mas também é muito bacana fazer tipos sérios e dramáticos. Ainda assim, acho que o riso é mágico, realmente uma energia que limpa a alma, algo dos deuses mesmo, se assim posso dizer! Eu gosto muito de rir e de fazer rir. Inclusive, nas pausas das gravações de ‘Coração Acelerado’, estou fazendo um curso de palhaçaria. É muito difícil, mas está muito bacana e é libertador”, conta.
Para dar vida ao cozinheiro da novela da autora Izabel de Oliveira, ele se preparou em um restaurante próximo a sua casa. “Vi muitos vídeos e marquei um laboratório em um restaurante aqui perto de casa para poder atender e ver como funciona a cozinha”. Além disso, o ator conta que usou referências de outras pessoas da sua vida.
"Para fazer o Cláudio, eu fiz um misto na minha cabeça: lembrei da minha avó que cozinhava, de uma tia-avó também, irmã da minha avó, que era muito engraçada, gente boa demais. A gente fazia almoços aos domingos na casa dela; ela era uma pessoa muito divertida e acolhedora, recebia a gente e fazia a comida com muito gosto. Também tive como referências pessoas que passaram pela minha vida, que têm a comida como doação de afeto, como ‘contato’ de afeto. Gosto muito do chef francês Troisgros; acho-o divertido, simpático, recebe os convidados com tanto carinho, tem tanto amor pelo Brasil, pela comida brasileira", diz.
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Alexandre também aborda a relação do Brasil com a comida, a memória que a culinária remete a cada local e as relações familiares.
"Sempre assisto a programas de culinária para entender como a comida está ligada às raízes mais profundas de um país, de uma região. É muito afeto misturado com a essência da comida brasileira. Na questão da vida mesmo, a comida é o que mantém a gente vivo; porém, além disso, é o que mostra a história de cada região, de cada local, de cada família. Tem as receitas de família, os livros de família que passam de geração em geração, e isso é muito bonito. Uma história, um jeito antigo de fazer comida que vai passando de avô para neto, para filho, e a história vai se perpetuando ali através da comida. Realmente é um laço de afeto muito potente", comenta.
Além da cozinha, outro ponto a ser aprendido para a novela foi a questão do sotaque, dito pelo ator como a segunda dificuldade. “Outro desafio grande foi o do sotaque, de fazer na medida certa, com respeito ao povo goiano, não fazer caricato. É um sotaque que lembra o mineiro, então isso foi um trabalho onde tivemos um longo treinamento com uma preparadora de prosódia da Globo. Foi muito divertido descobrir mais detalhes e informações sobre a região. Esses dois, especificamente, foram pontos que tive que trabalhar bastante”, pontua.
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