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Paraense é destaque na Bienal de Artes de São Paulo

Programação apresenta obras de Uýra Sodoma, que levantam principalmente a questão do meio ambiente e dos indígenas

Camila Martins, Especial para O Liberal

Em meio a preconceitos, incêndios recentes e pressões, a 34ª Bienal de Artes São Paulo, que está aberta até o dia 28 de novembro, aquece o tema da resiliência humana, que até hoje circulam pelo mundo como símbolo de justiça e resistência, reconhecendo a urgência dos problemas no mundo atual.

O título “Faz Escuro Mas Eu Canto”, vem de um verso do poeta amazonense Thiago de Mello publicado em 1965, escolhido pelo curador principal da mostra: Jacopo Crivelli Visconti, em conjunto com Paulo Miyada (curador adjunto) e os curadores convidados Carla Zaccagnini, Francesco Stocchi e Ruth Esteves.

Em 70 anos, a maior Bienal de arte contemporânea do hemisfério sul, inclui a maior presença de arte indígena já vista em coletiva. "Algumas obras serão vistas de forma mais clara, outras mais opacas; algumas mensagens soarão como gritos, outras chegarão como ecos”, afirma Jacopo Crivelli Visconti.

Entre os trabalhos apresentados está a da artista santarena Uýra Sodoma, que associa suas obras ao modo de viver herdado da cultura eurocêntrica. Uýra é uma entidade híbrida, vinculada às sabedorias ancestrais indígenas com a incumbência de proteger as florestas - mesmo que o cenário de caos pareça só aumentar. Enxerga muito o verde e a esperança, a partir de um cenário crescente de caos, violência, terras e reservas indígenas que estão sendo ameaçadas. Retrata-se em suas obras, ações de denúncia e a conjunção de seres ancestrais ou futuristas, entre o ilusório ou o fictício de uma beleza, caótica e perturbadora.

Aos seis anos, Emerson Pontes, nome de batismo de Uýra Sodoma, mudou-se com sua família de Santarém para Manaus e, desde então, vivem em uma ocupação entrecortada por dezenas de riachos e afluentes do Rio Negro. No entanto, pratica ’metamorfose' com sementes, ramagens e outros materiais para pedir mais proteção aos recursos naturais. 

Uýra desenvolveu uma série especial para a 34ª Bienal de Sao Paulo. "Nestas fotografias, Uýra aparece em locais de Manaus que, seja por sua história e função social ou por suas características arquitetônicas, podem ser associados aos modos de viver herdados da cultura eurocêntrica. Mas o que a aparição de Uýra desperta, aquilo que nos faz ver, são as plantas que, aos poucos, vão retomando o espaço que já lhes pertenceu", analisa Jacopo Crívelli Visconti.

Em resposta à violência física, aos questionamentos pessoais e à convulsão nacional de um momento, em 2016 quando debatia-se a crise politica. Emerson, batizou seu nome para Uýra, que significa “árvore que anda”. Até então, a descendente do povo indígena Munduruku estudou, por seis anos, anfíbios e répteis; quase sempre em espaços científicos

"Ela chama as plantas por seus nomes populares em latim, e assim evoca suas propriedades medicinais, seus gostos, seus cheiros, seus poderes. O resultado é uma compreensão complexa e intrincada da mata, um emaranhado de conhecimentos”, relata Criveli.

A artista propõe em sua estética, sementes, ramagens e outros materiais naturais que colhe. Apesar de fazer Letras na faculdade, um professor a incentivou a seguir Biologia — carreira que cursou fazendo trabalhos temporários e que prosseguiu, com pós-graduação em Ecologia.

Ela passou a expressar sua arte por meio de performances fotográficas, maquiagens e camuflagens, além de textos e instalações. Viaja com frequência para pequenas comunidades fluviais para educar e falar sobre conservação ambiental.

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