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Pajé Zeneida Lima: "Que o enredo ajude a cuidar da Amazônia!"

Em entrevista exclusiva ao Grupo Liberal, a ambientalista e escritora fala sobre a emoção de ter sua vida como ativista em defesa da cultura amazônica enfocada no enredo 2027 da escola de samba Beija-Flor de Nilópolis

Eduardo Rocha

Aos 91 anos de idade, a pajé, ambientalista e escritora paraense Zeneida Lima começa a viver um ano de 2026 de forma intensa. Isso porque a trajetória de vida dessa cidadã amazônida vai ser contada na avenida Marquês de Sapucaí, no Rio de Janeiro, a partir do enredo 2027 da escola de samba Beija-Flor de Nilópolis. No dia 8 deste mês, a agremiação carnavalesca anunciou o enredo "Zeneida: O Sopro do Pó de Louro", tudo em conexão direta com a pajé. Em entrevista exclusiva ao Grupo Liberal, ela fala sobre esse momento da vida e como ele pode contribuir para a conscientização das pessoas sobre a necessidade de preservação do meio ambiente na Amazônia e no mundo, assunto que move Zeneida por toda a vida. 

"Eu espero que a Beija-Flor leve a minha história para a avenida e que o povo se conscientize de tratar melhor a natureza e ter cuidado. Tenha cuidado com a natureza, porque nós estamos, o nosso planeta está doente, tá morrendo, e ninguém está vendo' ", enfatiza Zeneida Lima. Ela declara que ficou muito feliz, emocionada com o novo enredo da escola. "A minha relação com a Beija-Flor já vem de muito tempo, desde 1998. Então, de lá para cá, eu sempre frequentei a casa do patrono da escola, senhor Anísio Abraão, e agora esse enredo foi uma surpresa para mim, um presente dos meus 91 anos". Ela relata que olhou as energias (forças da natureza no ambiente amazônico) e, então, aceitou a proposta da escola de samba. Zeneida é uma das últimas pajés do Arquipélago do Marajó, no norte do Estado do Pará. 

image Zeneida Lima: amor pela Amazônia vai ser mostrado no Carnaval 2027 do Rio de Janeiro (Foto: Wagner Santana / O Liberal)

Desde muito jovem, Zeneida tem uma atuação corajosa em defesa da Amazônia. Ela conta que foi criada na fazenda Independência, do pai, Angelino Lima, e, então, "desde criança sempre fui alucinada pela natureza, porque o meu pai me ensinou a amar a natureza". "Ele dizia assim: "Olha, a natureza é a grande mãe, é a origem e o fim de todas as coisas. Não podemos violentá-la, porque estamos violando a nós mesmos. Quem viola a natureza é punido pela Anhanga (espírito protetor da natureza), e se o agressor da natureza não pagar por si, seus descendentes farão. O respeito à natureza, a integridade dos seus elementos é a lei maior. Dentro desse princípio, se tratarmos bem a natureza, ela nos ajuda em tudo". Daí, ela ia plantar caroços de manga e de açaí, por exemplo, e cuidava dessas sementes para elas germinarem. "Sem a natureza, não há vida no planeta. O homem não acordou ainda para pensar nisso. Ele só pensa em guerra. Ele tem de pensar que sem a natureza não há vida. Nós vamos morrer numa grande solidão", ressalta.

Depois que a Beija-Flor foi campeã do Carnaval 1998 com um enredo fundamentado no livro de Zeneida Lima, intitulado "O Mundo Místico dos Caruanas da Ilha do Marajó" , a pajé intensificou a relação dela com o meio ambiente, abrindo a ONG Instituição Caruanas do Marajó Cultura e Ecologia (ICME), a partir de uma parceria com a escritora Rachel de Queiroz, "para ensinar esse amor para os jovens, amar a natureza" por meio de uma escola em Soure, onde Zeneida nasceu e mora. "Eu canto para a natureza, eu ensino a eles a plantar, eu ensino eles a comerem a verdura, digo de onde vem, que, então, precisa ter cuidado com a Terra". 

Zeneida Lima tem clareza quanto ao lado místico da floresta. "O pajé é uma missão séria, de respeito, até por respeito pelos nossos povos indígenas". Ela explica que o pajé é um médico, o curador que sabe tratar de doenças a partir dos recursos naturais da floresta. Zeneida conta que, aos 11 anos, ela estava em um mangal para apanhar açaí e, aí, quando estava debulhando o fruto, ela avistou dois vultos de pele azul da cor do céu, como diz, que deram a Zeneida uma fruta para comer. Ao fazer isso, ela acabou dormindo, e, ao acordar, estava em um outro lugar, um cocal (coqueiral) do pai dela. Ela novamente recebeu as frutinhas, e se encontrou depois em outro 

Pessoas passaram a buscar por ela, seguindo rastros de Zeneida. Foram 17 dias nesse processo, e, quando ela foi encontrada, tinha quase todo o corpo tatuado e o cabelo todo cortado. Em contato com um pajé, na sequência dos fatos, ele disse que Zeneida tinha o dom de curandeira e que era preciso um trabalho de pajelança para tratá-la. 

"Eu fui sentada Pajé aos 11 anos de idade, passei um ano e 6 meses na casa do Pajé, aprendendo a mexer com as ervas, a mexer com as borboletas, a tirar o pó das asas da borboleta morta para fazer remédio e a ver o sopro do vento, que eu tinha de tratar do leste, norte, sul, oeste, tinha de me embrenhar na mata para fazer as pajelanças". Essa prática ela mantém hoje, prestes a completar 92 anos de idade em julho.

Para Zeneida, fala-se muito em tomar conta, zelar pela Amazônia, mas ela não constata isso na prática. Então, ela mantém o trabalho de conscientização com as crianças em Soure, inclusive compondo e cantando canções com meninos e meninas. (Confira no vídeo em anexo). Zeneida anuncia que em breve deverá estar de volta com uma coluna em O Liberal acerca da energia da cura. 

A pajé diz que o enredo 2027 da Beija-Flor tem uma abrangência grande. "Esse enredo não é meu, é do nosso Pará, da nossa Ilha do Marajó, da Amazônia e de todos os índios", enfatiza Zeneida Lima, que pretende participar do desfile da escola de samba no Rio de Janeiro.

Enredo 

O enredo 2027 mobiliza toda a Beija-Flor de Nilópolis. Uma equipe de pesquisadores atua nesse sentido e é formada pelos pesquisadores Vivian Pereira, Bruno Laurato, Guilherme Negro e pelo carnavalesco João Vitor Araújo. "Nós formamos esse time que produz, que compõe o enredo, e a gente faz a pesquisa iconográfica que vai servir para o João desenhar as fantasias e alegorias, e a gente também pesquisa em documentos, bibliografias, para poder compor as justificativas dessas fantasias e alegorias que vão para a mão dos jurados", detalha Vivian.

Ela destaca: "A Dona Zeneida é a última pagé da linhagem dela, da linhagem dos Sacacas. E ela resume o que é a cultura amazônica, a cultura que se integra à natureza, que entende a natureza como um ser vivo e defende essa natureza. E a Dona Zeneida resume o que é o nosso Brasil. Ela resume o povo brasileiro, um povo que não desiste, um povo que luta pelo que quer e que se mantém firme no seu propósito".

Para Vivian Pereira, "Dona Zeneida é uma mulher à frente de seu tempo". "Além dos dons espirituais, ela é uma mulher com muita força e, desde muito nova, percebia algumas questões sociais e, quando ela cresce, quando ela tem a possibilidade, ela começa a lutar por essas causas, educação, proteção dessas crianças. Ela mostra uma preocupação muito grande com o futuro das crianças e, além disso, a manutenção da cultura marajoara. Ela monta uma escola que resgata a cerâmica marajoara e vai ser a primeira escola também, uma das primeiras escolas do Brasil também que inclui no seu currículo a cultura. Mesmo antes de ter uma lei que obrigasse as escolas a fazer isso, a escola da Dona Zeneida já fazia isso com excelência há muito tempo. Então, é isso que encanta, essa paixão dela pela vida, a luta dela. No alto dos seus mais de 90 anos, ela continua apaixonada pelo que ela faz", enfatiza a pesquisadora.

O carnavalesco João Vitor Araújo destaca que não se trata da reedição do Carnaval de 1998, mas, "a intenção é pegar a importância da história de vida de Dona Zeneida, desde a iniciação, a pajelança, até os dias de hoje como educadora, e essa grande curandeira e essa figura feminina tão representativa do norte do país". "A gente quer falar da história dessa mulher guerreira, e a gente quer falar de futuro, o qual ela preserva muito bem, fazendo um belíssimo trabalho com as crianças da região", completa.

Já a diretora de Marketing, Raphaella Reis, explicou que o teaser (peça publicitária) gravado em Belém e em Soure faz parte do trabalho para "gerar assunto, para que as pessoas cada vez mais se interessem, pesquisem, estejam por dentro da história de Dona Zeneida". 

 

 

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