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O poder da representatividade: Majur fala sobre álbum 'Ojunifé' e orgulho LGBTQIA+

Mulher trans e negra, artista da Bahia apadrinhada por Caetano Veloso e Paula Lavigne reflete sofre discurso afrofuturista e para onde a comunidade deve caminhar com o discurso de luta

Lucas Costa

Majur se tornou um ícone recentemente, tanto na música quanto na representatividade LGBTQIA+. A cantora baiana tem uma trajetória que começa cantando em barzinhos, passando por encontros com ídolos da música, até ser agenciada pela dupla Paula Lavigne e Caetano Veloso.

Em maio deste ano, Majur lançou seu primeiro disco completo, intitulado “Ojunifé”. O nome vem do idioma iorubá e significa “olhos do amor”, simbolizando o amadurecimento pessoal e artístico da cantora soteropolitana, e dando o tom do atual momento de sua carreira. Com participações de Luedji Luna e Liniker, produção assinada por Ubunto e Dadi e direção musical da própria artista, o álbum explora as diversas facetas dessa nova Majur, indo a fundo em suas vivências, amores e reflexões.

“‘Ojunifé’ é um processo criativo que acontece há dois anos, quando comecei a escrever as primeiras músicas. Em 2018, escrevi o primeiro EP que falava sobre eu me encontrar, e aí em 20019 comecei a querer escrever sobre o pós encontro comigo mesma. É quando começa a história de ‘Ojunifé’”, contou Majur em entrevista exclusiva a O Liberal.

(Guilherme Nabhan/Divulgação)

Com canções biográficas, a artista fala do que viveu nesse tempo. Na primeira faixa, “Agô”, a cantora repete “Majur chegou!”, o que pode representar um movimento de escancarar as portas. Mulher negra e trans, aqui ela fala sobre seus processos, desde a conexão com a ancestralidade até o encontro com o afeto.

“Enquanto corpo trans, sempre busquei encontrar a minha essência, e falando de essência em corpo trans é algo bem mais complicado porque a gente precisa primeiro entender nosso corpo, entender nossa existência e depois começar a destrinchar isso. Quando falo que ‘Majur chegou’, é porque hoje sinto completude, tenho certeza de quem eu sou, tenho certeza da minha caminhada”, descreve.

Majur canta desde os cinco anos. Cria de projetos sociais de Salvador, ela também chegou a cursar a faculdade de Design, fase que também representa uma virada em seu processo de descobrimento próprio. Na música, ela lembra que do tempo em que cantava em barzinhos tinha Liniker como grande referência, e foi um contato com a cantora paulista que acabou trazendo uma virada na carreira.

Depois de um encontro que renderia roteiro para mais um reboot de “Nasce Uma Estrela”, Majur foi convidada por Liniker para subir ao palco durante um show, para que cantassem juntas a música “Tua”, sucesso da paulista. Depois daquela noite ela virou notícia na cidade, foi então que vieram oportunidades de conhecer Paula Lavige e Caetano Veloso num futuro próximo.

O próximo passo do movimento LGBTQIA+

Majur soma a um time de artistas transgênero que defendem os mais diversos gêneros na música brasileira, alçada ao posto de ícone, já que qualquer representatividade LGBTQIA+ em espaços historicamente negados a essa comunidade, se torna um grande passo. Majur teve uma projeção maior ainda depois de participar do single e videoclipe “Amarelo”, de Emicida, onde também divide os vocais com Pabllo Vittar em uma potente composição de empoderamento.

Hoje, Majur diz que entende o poder de sua representatividade. “A gente se torna um exemplo quando nosso corpo, que não é bem vindo, começa a acessar lugares que não são predispostos. Sendo afrofuturista, a gente começa a acessar coisas que não são dispostas, e assim começa essa representatividade”, explica.

 (Guilherme Nabhan/Divulgação)

“Eu represento milhões mulheres trans, pessoas trans no geral, pessoas negras, mulheres negras. São muitos recortes, e isso é um fluxo que veio acontecendo de acordo com a visibilidade da minha carreira. A gente sabe que não são muitos artistas negros que são populares e globais. É muito difícil. Então quando uma pessoa chega nesse lugar, as outras já se sentem representadas”, complementa.

O afrofuturismo, termo diz respeito a criação de projeções de futuros de prosperidade para pessoas negras, atravessa o trabalho de Majur, desta vez como um exercício de ocupar locais que não são predispostos a corpos negros e trans.

“Afrofuturismo é toda pessoa negra que está fora do seu espaço condicionado. A gente sabe que nossa sociedade já separa e condiciona o lugar para cada tipo de corpo, e eu nunca fui uma pessoa que foi confirmada com o espaço que me deram. Não é à toa que fui parar numa faculdade sendo travesti, e isso é uma coisa que não acontece com tanta facilidade. Eu já entendi que meu corpo era afrofuturista por estar num espaço que não me era condicionado”, explica.

 (Guilherme Nabhan/Divulgação)

No mês do orgulho LGBTQIA+, Majur reforça o coro já iniciado por outros grandes nomes da luta da comunidade: o de que o debate precisa caminhar. Recentemente, nomes como a cantora Linn da Quebrada e a atriz Dominique Jackson (Pose), engrossaram a narrativa de que precisamos ir além do discurso do pedido de respeito para a comunidade, assim como repetir sobre a importância da representatividade.

“Esse ano, no mês do orgulho, não estou em lives falando de solicitação de respeito, ou pedindo para as pessoas entenderem o que é diversidade. O conhecimento é algo que tem que ser buscado”, destaca.

“A gente já falou muito, já se fala muito sobre diversidade, todo mundo já entende que LGBTQIA+ é uma sigla que entra gênero e sexualidade, todo mundo já entende que existem diversas pessoas diferentes, e a gente tem que entender esses corpos. Realmente não dá mais para estarmos aqui falando o tempo inteiro para pessoas adultas e que sabem o que estão fazendo”, defende Majur.

 (Guilherme Nabhan/Divulgação)

A artista destaca ainda outros exemplos, como a paraense Leona Vingativa. Majur fala que é um exemplo de que crianças trans existem, e também precisam fazer parte do debate. 

“Eu não consigo viver sozinha nisso, não quero ser a única trans a estar nos espaços. Também não quero ser a única pessoa negra a estar nos espaços. Quero que isso vire uma revolução, e que pessoas sejam pessoas em todos os lugares, independente de cor, etnia, religião. Acho que a gente tem que respeitar todas as pessoas, e se estamos falando de representatividade, sobre inclusão, todas as pessoas merecem estar neste lugar”, defende Majur.

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