Do octógono ao palco, lutador Maurício Buda batalha no rap

Lutador profissional de MMA Maurício lançou música na Rádio Liberal FM com o nome artístico 'Buda nos Falantes'

Vito Gemaque

Acostumado com socos, chutes, estrangulamentos e finalizações, o lutador de artes marciais mistas (MMA – sigla em inglês) Maurício Buda resolveu travar uma nova batalha desde o ano passado. Com 29 anos, o lutador que já foi bicampeão paraense de Muay Thai começou a trilhar uma carreira no rap. Desde a infância do bairro da Cabanagem, periferia da capital paraense, Maurício Alves de Souza aprendeu a superar os desafios impostos a si. Antes de ir para as plataformas digitais, a primeira música de Buda “O Ordinário e a Princesa” estreou para o mundo pela rádio Liberal FM. A superação de obstáculos cotidianos como o desemprego, a falta de oportunidade, serviços públicos precários, falta de educação e criminalidade viraram a letra de suas músicas.

Com uma vida estabilizada em Joinville, Santa Catarina, para onde se mudou em 2012, o lutador profissional se tornou o ‘Buda nos Falantes’, nome artístico nas plataformas digitais. “Vivi muita coisa e estou vivendo muita coisa na luta, mas na música é tudo novo, são novas sensações. Precisa estar inspirado para fazer músicas a cada dia. Todos os dias estou escrevendo uma música. O meu grande objetivo hoje é estar mais dentro do estúdio fechado com um produtor na Cubo Mágico Estúdio e meter ficha fazendo muitas obras. Tenho bastante coisa para escrever e colocar para o mundo. Quero levar a Cabanagem, porque eu gosto de falar do meu lugar”, reflete.

Buda tem várias músicas produzidas e prontas para serem lançadas ao longo de 2020. O planejamento é lançar uma ou duas músicas a cada dois meses. Quem vê o rapper agora não percebe que isso era impensável há pouco tempo. Com a música ele quer levar a coragem e inspiração para as pessoas nas batalhas cotidianas, principalmente a juventude que luta para ficar longe da criminalidade. “É muito legal ter esse poder para falar como é a vida e passar uma visão boa para as pessoas. Não se envolver nas coisas erradas que podem levar você ao fracasso ou ao caixão. Essas coisas que você conhece bem em Belém”, destaca.

O começo na música foi como uma coincidência do destino. Ao visitar um amigo, proprietário de um estúdio, Buda ouviu algumas batidas e tomou coragem para escrever as letras. Ele gostou do resultado e entrou de cabeça. “Disse para ele ‘pô mano, não tens uma batida dessa para mim, deixa ver o que faço em cima da batida’. Ele mandou uma, depois disse para mandar outra. Ele mandou uma sequência de batidas e eu escrevi várias músicas. Depois que comecei a gostar já fui comprar várias batidas e a fazer em casa mesmo e quando chegava no estúdio mostrava para ele”, lembra.

A transformação de Maurício em Buda veio pelo esporte. O menino explosivo e estressado que arranjava brigas na rua virou uma pessoa que nunca mais brigou. A luta foi para dentro dos ringues onde alcançou vitórias. Quando volta para o antigo bairro, em visitas que faz a Belém, ele é inspiração para todos os amigos e conhecidos do bairro. “Todo mundo se orgulha muito de me ver uma outra pessoa. Quando eu morava na Cabanagem, falavam que ‘ah esse não vai passar dos 15 anos, é muito encrenqueiro’. Andava com umas amizades bem ruins”, revela.

Isso só foi possível graças a sua mãe Wasthy Alves de Souza, que faleceu em 2017, um mês antes do filho de Maurício nascer. Uma frase dela até entrou na música “Ei Maurício”, que deve ser um dos próximos lançamentos deste ano. A canção tem um mashup com o carimbo do mestre Verequete. A lembrança da mãe empregada doméstica analfabeta e fez de tudo para dar uma vida diferente para os filhos emociona o rapper lutador. “Cara, acabei de pegar um álbum com algumas fotos nossas no antigo baixo Reduto e deu uma crise de choro. Fiquei numa depressão quando ela morreu. Ainda bem que nasceu meu filho, senão eu não sei o que seria”, confessa. “Ela foi empregada doméstica lá. Eu sempre lutei para dar uma vida melhor para minha mãe. Sinto muita falta dela, mas ela fez o seu papel perfeitamente, foi até demais. Mulher guerreira”, agradece.

Para quem nasce na periferia, o esporte ou a arte são as válvulas de escape para a dura realidade que soca meninos e meninas ao nascerem. Agora Buda transportou a luta física para a intelectual com o rap. Ao lidar com essa realidade da periferia nos seus versos, “Buda Nos Falantes” tenta responder que você pode mudar a sua história e luta para conscientizar sobre a necessidade de uma vida digna para a população.

Para ele, há certa similaridade entre a carreira de lutador e cantor. “A carreira de lutador eu conheço muito bem. Tenho várias lutas, tenho sete lutas de MMA, sete de muya thai, várias de jiu-jitsu. A carreira de rapper é muito nova para falar, mas o foco é estar todo o dia buscando, evoluindo, treinando. Porque tudo é treino. Eu estou treinando minha escrita, cada dia melhorando, cada dia faço coisa nova, consigo lapidar para ficar melhor”, assegura.

Com o aprendizado da vida nas ruas da Cabanagem, ‘Buda Nos Falantes’ sabe que uma coisa é fundamental para determinar a vitória ou fracasso de qualquer projeto: o coração. “É luta literalmente todo dia para melhorar e evoluir. É muito parecido [com a luta] para ter disciplina no negócio, precisa botar o coração no jogo, nos dois. O talento não é tudo, o coração tem que ser forte para suportar o dia a dia”, ensina.

Música
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