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25 anos da morte de Renato Russo: relembre carreira e vida do cantor e compositor

Parentes, amigos e músicos também descrevem a intimidade com o músico

Agências Brasil e Estado

Há 25 anos, a voz marcante, poética e profunda de Renato Russo se calava. O cantor e compositor, dono de músicas como Eduardo e Mônica, Ainda é Cedo e Pais e Filhos, morreu precocemente aos 36 anos, em 11 de outubro de 1996, após uma longa carreira na banda Legião Urbana e, principalmente, com uma vida repleta de momentos marcantes.

Mesmo com essas mais de duas décadas de ausência, Renato ainda é celebrado por conta de suas músicas com letras fortes, que falam com vários públicos. É a indignação de Que País É Este, o grito sufocado de Pais e Filhos, a história de amor com pessoas comuns de Eduardo e Mônica ou, ainda, a epopeia amorosa-musical de Faroeste Caboclo.

Foi em meio a risadas de uma mãe em pleno trabalho de parto que veio ao mundo aquele que, para muitos, é o maior dos poetas do rock brasileiro. De tão inusitado, o caso chegou a ser analisado por um comitê de médicos, conforme lembra a própria mãe.

“Ninguém acredita, mas eu dei à luz dando risadas, enquanto me dava conta de que o parto seria bem mais fácil do que dizia uma guria que fez curso de pré-natal comigo”, lembra Carmen Manfredini, dona Carminha – a mãe que trouxe ao mundo o pequeno Júnior, mais conhecido como Renato Russo.

A obra de Renato Manfredini Júnior continua viva e atemporal para aqueles que tanto se identificam com suas letras e reflexões sobre a “tchurma”, termo que ele costumava usar para o grupo de amigos com quem conviveu a adolescência e a juventude; sobre as cidades onde viveu, em especial, a musa Brasília dos anos 70 e 80; sobre o Brasil; e sobre os sentimentos que fazem, de cada um de nós, humanos.

Parte das lembranças e memórias deixadas por Junior a sua família e pelo Renato “Manfredo” aos amigos foi contada com exclusividade à Agência Brasil por familiares, amigos, músicos e profissionais que tiveram o privilégio de conhecer, de perto, a pessoa, o artista e a obra de Renato Russo, líder da Legião Urbana.

Júnior

“Foi uma gravidez e um parto tranquilíssimos, apesar da minha inexperiência. Não tinha a menor ideia de nada sobre isso, motivo pelo qual fiz um curso de pré-natal. E me assustava quando diziam que eu sentiria muita dor e que seria necessário fazer muita força para o bebê nascer. No entanto, bastaram três ou quatro contrações para ele pular fora. Em meio às contrações, eu não parava de rir ao lembrar disso. Foi uma sensação muito boa”, conta dona Carminha ao recordar o marcante 27 de março de 1960.

A mãe do poeta que acabara de nascer diz que seu filho sempre foi “um menino fora de série”, que “não criava caso com nada”, a ponto de sequer precisar de babás ou empregadas. “Era um menino exemplar, excepcional no colégio, alegre, comunicativo e brincalhão, principalmente com os primos e com a irmã”, acrescenta.

“E assim foi até entrar no bendito rock”, complementa em tom de brincadeira, uma vez que, até o final da vida, Renato continuava sendo, para a mãe, “o rapaz doce que sempre foi”.

O gosto pela música já se manifestava quando ele tinha seis ou sete meses de idade, ainda dentro do berço onde, entre os brinquedos, havia um pequeno rádio de pilha tocando “as músicas brasileiras de ótima qualidade da Rádio Tupi”.

“Um dia, me deparei com ele em pé, pulando e segurando na grade do berço. Eu fiquei preocupada, mas a cara dele era alegre. Descobri que era por causa da música porque, quando eu tirava o rádio da cama, ele chiava. O rádio foi a melhor babá que podia existir para meu filho”, recorda dona Carminha.

Livros e discos foram objetos muito presentes na vida do Júnior. “O pai [Renato Manfredini] também era intelectual. Aos domingos, ficávamos todos em uma saleta, cada um com um livro na mão. Escutávamos músicas clássicas e músicas americanas que estavam na moda, em uma vitrola baixa daquelas com pé palito”.

Um dia, os Manfredini foram surpreendidos ao verem o Júnior, aos 2 anos, tirando um disco da vitrola e, com todo cuidado, colocando-o certinho na capa correspondente.

“Não tinha nada na capa. Só nome de artista. Em seguida, ele pegou outro disco e o colocou na vitrola. Ficamos muito impressionados porque ele era muito pequenino para fazer aquilo. Dali em diante, sempre que queria ouvir música ele ia lá colocava o que queria. E sempre guardando na capa certa”, detalha dona Carminha.

“Nunca contei isso a ninguém da família porque achava chato esse negócio de historinha bonitinha de filho”, acrescentou.

“Opípero”

Aos 5 anos, o pequeno Renato escreveu seu primeiro livro. “Um livrinho com ilustração e índice. Era a história de um príncipe que tinha ido no castelo para um jantar ‘opípero’. Eu me surpreendi porque não conhecia essa palavra. O pai então me explicou que era um ‘jantar grandioso, com muita comida’. Aprendi essa palavra com meu filho”.

Uma outra pessoa que aprendeu muita coisa com o Júnior foi a irmã, Carmen Teresa. “A coisa mais marcante que tenho do meu irmão é o fato de ele gostar de me explicar as coisas. Principalmente a parte cultural: literatura, música, arte, teatro, cinema. Aprendi quase tudo com ele. E também as preocupações que ele tinha com relação à carreira que eu iria escolher. Aquela história do ‘o que você vai ser quando você crescer?’. Ele era muito atento ao que me interessava”, lembra Carmen Teresa que, hoje, é professora de inglês e cantora.

As primeiras lembranças que tem do irmão são de cuidados, proteções e as manifestações de afeto e carinho tanto com ela quanto com a mãe. “Mas ele sempre foi muito generoso com todas as pessoas. Tinha uma empatia fora do comum. Era uma pessoa boa, honesta e muito espiritualizada. Ouvia e seguia a própria consciência como ninguém. Inclusive com relação à música. Ele jamais faria música por dinheiro”.

Essa personalidade “doce” se manifestava também na vida amorosa, principalmente com as namoradas. “Sim, ele namorou muito com mulheres, e sempre de uma forma muito respeitosa”, diz a irmã. Segundo Carmen Teresa, Renato tinha uma predileção por mulheres de personalidade forte, a exemplo da personagem Mônica, da música Eduardo e Mônica, e da personagem cantada na música Ainda é Cedo.

“Ele não se sentia atraído por mulheres submissas ou dependentes, e isso também pode ser percebido na música Submissa, dos tempos de Aborto Elétrico, quando ele usa a palavra ‘submissa’ até em tom depreciativo. As amigas e namoradas dele, em geral, eram mais velhas e inteligentes, já com personalidade e carreira própria”.

Na opinião da irmã, Renato gostava de se relacionar tanto com homens quanto com mulheres. “Meu irmão era, na verdade, bissexual. Essa impressão foi inclusive corroborada pelo psiquiatra dele, de que o Renato queria, até do ponto de vista artístico, levantar a bandeira em favor da liberdade de as pessoas serem o que quiserem ser”.

Relembre os principais momentos de sua vida e obra:

Antes de ser Renato Russo

Apesar de ser conhecido como um ícone do rock de Brasília, Renato nasceu no Rio de Janeiro, morou por lá até os seis anos, na Ilha do Governador, zona norte da cidade, quando se mudou com a família para Nova York. Foi apenas em 1973, bem no início da adolescência, que Renato chegou em Brasília com sua família. Até entrar de vez no mundo da música, fez de tudo um pouco: estudou inglês e, logo depois, se tornou professor do idioma. Além disso, trabalhou como locutor numa rádio, apresentando programas de jazz e sobre os Beatles.

Doença óssea

Aos 15 anos, em Brasília, Renato passou por um momento difícil ao ser diagnosticado como portador da epifisiólise, uma doença óssea. Para o tratamento, precisou implantar três pinos de platina na bacia e, depois, passou por uma recuperação difícil: ficou seis meses de cama quase sem se movimentar e a recuperação dos movimentos durou mais de um ano e meio.

O novo nome

Foi justamente nesse período de recuperação que Renato teve a ideia de aposentar o Manfredini e adotar o nome artístico Renato Russo. Segundo ele próprio, foi homenagem ao inglês Bertrand Russell e aos franceses Jean-Jacques Rousseau e Henri Rousseau.



Começo da carreira

Cinco anos depois de chegar na capital brasileira, em 1978, Renato Russo conheceu Fê Lemos. Esse encontro foi a semente que faltava para começarem uma banda: Aborto Elétrico. Com clara influência do punk rock americano, a banda conseguiu certo reconhecimento na região de Brasília, integrando o Turma da Colina, movimento de bandas do Planalto Central criadas durante esse período. Mas uma briga entre Renato Russo com Fê Lemos acabou colocando um ponto final no grupo e abrindo espaço para o Legião.

Legião Urbana

Com o fim precoce do Aborto Elétrico, Renato Russo se juntou a Marcelo Bonfá, Eduardo Paraná e Paulo Guimarães - e posteriormente com Dado Villa-Lobos assumindo a guitarra do grupo - para formar a banda Legião Urbana, em 1982. Nessa década, eles lançaram algumas das músicas mais tocadas em rádios no período, como Será, de 1985; Eduardo e Mônica, de 1986; Que País é Esse, de 1987; e Pais e Filhos, de 1989. Assim, rapidamente, a banda saiu da capital federal e ganhou reconhecimento em todo o território nacional.

Giuliano Manfredini

O único filho de Renato Russo é Giuliano Manfredini, fruto de um envolvimento do cantor e compositor com uma fã, Raphaela Manuel Bueno. Ela teria engravidado de Renato no começo do relacionamento dos dois, mas não teve contato com o vocalista do Legião Urbana durante a gestação. Voltou na vida de Renato apenas quando Giuliano já estava com três meses. Por conta da morte de Renato e da mãe, vítima de um acidente de carro, Giuliano Manfredini acabou sendo criado pela família de Renato até a sua maioridade.

Morte de Renato Russo

Renato Russo morreu na madrugada de 11 de outubro de 1996 por conta de doença pulmonar obstrutiva crônica, septicemia e infecção urinária - consequências da aids. Renato tinha HIV positivo desde 1989, mas nunca assumiu publicamente a doença.



Homenagens

Desde sua morte, nesses 25 anos de ausência de Renato Russo, são inúmeras as homenagens já prestadas ao cantor e compositor. Sua trajetória inspirou filmes como Faroeste Caboclo (2013), dirigido por René Sampaio, e Somos Tão Jovens (2013), de Antonio Carlos da Fontoura. Em 2006, vários artistas participaram do CD Renato Russo - Uma Celebração, contando com suas composições mais celebradas. Ele também foi tema de uma exposição no Museu da Imagem e do Som (MIS) e já foi tema de livros, como a biografia Renato Russo: O Filho da Revolução e Discobiografia Legionária, sobre Legião.

Músicas póstumas

Em 2020, policiais do Rio encontraram relatórios que apontam a existência de músicas inéditas gravadas por Renato Russo. Agentes da Delegacia de Repressão aos Crimes Contra a Propriedade Imaterial (DRCPIM), da Polícia Civil do Rio, realizaram a Operação "Será?", que buscou identificar e localizar possíveis obras inéditas do cantor e compositor.

Foram encontrados documentos que mostram a existência das versões deixadas pelo artista, mas não, ainda, as gravações. A ação é resultado de um ano de investigações que apontam que o proprietário de um estúdio de gravação do Rio de Janeiro estaria ocultando músicas inéditas do artista.

O estúdio foi usado por Renato Russo em seus últimos anos de vida. Depois, a Operação Tempo Perdido foi ativada para apreender mais materiais que, segundo a polícia, deveriam estar em posse de Giuliano - filho de Renato. Cerca de 91 fitas master estavam guardadas no depósito da Iron Montain, empresa de arquivamento usada pelas gravadoras. O material, segundo a polícia, traz gravações inéditas, como uma versão de Faroeste Caboclo em ritmo de reggae e uma canção inédita, Helicóptero.



Filho versus Banda

Por fim, vale lembrar da disputa jurídica entre Giuliano Manfredini e os integrantes vivos da Legião Urbana, Dado Villa-Lobos e Marcelo Bonfá - um caso que caminha há quase dez anos na Justiça. Além de começar a fazer marcações firmes com relação ao uso do nome Legião Urbana em shows que os dois fizeram, como as comemorações pelos aniversários dos álbuns Dois e Que País É Esse?, Manfredini passou também a investir contra qualquer projeto que pudesse levar o nome da Legião. Ou que, em seu entendimento, pudesse se tornar um projeto um dia.

No entanto, em julho de 2021, a Quarta Turma do Superior Tribunal de Justiça (STJ) manteve a sentença que permitiu a eles usarem o nome Legião Urbana mesmo sem autorização de Giuliano Manfredini, podendo voltar a fazer shows como banda.

Música
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