Escritores vão à Praça da República para se aproximar dos leitores

Veteranos e novatos na arte afirmam que venda direta ao público também é alternativa à crise do mercado editorial

Vito Gemaque

Desde a Grécia antiga as praças públicas são por excelência espaços em que a população de uma cidade, ou de determinada localidade, se encontra para o lazer, para trocas de mercadorias e de conhecimento. Ao pensar em todas essas características, a praça da República, no bairro da Campina, é o primeiro lugar que vem à cabeça de qualquer morador de Belém.

As sombras das centenárias árvores também servem de abrigo para escritores e amantes dos livros, aos domingos. Nesse dia, autores locais vendem seus livros diretamente para o público, sem intermediários. E, assim, conseguem manter acesa a paixão pelas letras e driblar a grave crise que o mercado editorial brasileiro atravessa.

Aos 79 anos, o autor de "Visagens e Assombrações de Belém" - uma das mais conhecidas obras de literatura paraense da atualidade -, o escritor Walcyr Monteiro também levou suas publicações à praça com o objetivo de conquistar novos leitores. "As livrarias, além de estarem fechando, cobram um percentual muito alto. Às vezes, é impagável, o que causaria prejuízo, e, nós, acabaríamos pagando para escrever", reclama.

A falência das livrarias é consequência de um movimento anticultural que tomou conta do Brasil, segundo Walcyr. "Está havendo um fenômeno anticultural no Brasil. É só você ver pelas bancas de revistas, quantas têm hoje? Ainda tem que se dar um jeito de comercializar os livros", reflete.

Por isso, Walcyr avalia ser vital as vendas em espaços públicos para incentivar a leitura. "Creio que não somente para mim, como para qualquer escritor, há uma maior interação dele com o seu leitor. É uma maneira também de aproximar o autor do leitor e, este, tirar suas dúvidas", declarou.

Bianca Leão reúne memórias e sentimentos em seu primeiro livro (Caroline Maciel/Divulgação)

Os novos escritores também veem na praça uma possibilidade de se aproximar de leitores. A jornalista e escritora Bianca Leão, de 31 anos, lançou o primeiro livro "Caleidoscópio de Memórias" no final de 2018. Após ser convidada por um amigo fotógrafo para ir à Praça da República, conseguiu comercializar aproximadamente 20 livros. "Eu cheguei lá na cara e na coragem. Fui perguntando como era que fazia para vender livros de minha autoria, arrumei minha barraquinha meio improvisada, mas fui", relembra.

Bianca foi durante dois domingos vender livros na praça da República. Para ela, aquele é um dos melhores locais para o "diálogo cultural". "A praça da República tem este histórico de ser o local em Belém do encontro. É o local até mesmo de política de ocupação do espaço público, um espaço que é da população, como escritora é muito importante ter o corpo presente ali", explica.

Mas Bianca considera que as livrarias ainda são muito importantes para os escritores por fazer chegar aos leitores a possibilidade de conhecerem outras obras. "As pessoas te encontram na praça. As pessoas que passam te veem e é um contato físico, mas na livraria, o teu livro vai estar presente para leitores que não te conhecem, junto com as diversas possibilidades de conhecimento que ali estão, meio que vale este custo da livraria. A praça é outro local, onde conheces a opinião dos leitores, conhece a história de vida deles", assegura.

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