Em artigo exclusivo para O Liberal, Gretchen fala sobre amor e preconceito

Maria Gretchen

No princípio, foi a confusão.

O medo da discriminação, da violência. O medo de que meu filho fosse maltratado.

Mas, feliz da mulher que recebe de Deus a dádiva de ser mãe de um filho trans. Sei de todos os sentimentos controversos que passamos para chegar a essa conclusão.

Sei porque enfrentei todos eles.

Sentimento de surpresa,

Sentimento de susto,

Sentimento de indecisão,

Sentimento de culpa,

Sentimento de incapacidade,

Sentimento de compreensão,

Sentimento de entendimento,

E depois, a alegria da  aceitação, do amor e, definitivamente, da paz. Ah, como essa transição é complexa, mas, ao mesmo tempo, tão compensadora.

Cada momento, uma descoberta de amadurecimento e amor incondicional. Ser mãe de trans é saber que o amor não tem sexo, não tem medidas, não tem regras, só certificação de amor sem fim.

Mas sei também que nem tudo é um mar de rosas.

Ainda hoje, ao ver demonstrações de ódio, eu me pergunto: o mundo precisa ser dessa forma? Por que é tão difícil para alguns que se julgam donos da verdade compreender que a maior de todas as verdades está no amor e na tolerância? Por que simplesmente não vivem e deixam viver?

As declarações do Papa Francisco, feitas na semana passada, chegaram como um bálsamo ao meu coração de mãe. Alegraram minha alma. Não precisamos de autorização para sermos quem somos, mas as recentes palavras do líder católico devem servir para iluminar mentes que ainda hoje vivem sob o signo do obscurantismo.

O que me entristece é que, enquanto o Papa Francisco nos traz uma mensagem de tolerância afirmando que todos os filhos de Deus têm direito à família, a Advocacia Geral da União parece querer tomar o rumo da escuridão, pedindo a suspensão da decisão do Supremo que coloca a homofobia no mesmo patamar do crime de racismo. Por quê? No País onde homossexuais e transexuais são vítimas de violência todos os dias, qual o sentido de um movimento nesse sentido? Penso que só a ignorância pode explicar tal tentativa.

Não estou aqui apenas como mãe, defendendo um filho. Estou aqui como um ser humano, defendo o direito de que todos lutem pela felicidade, desde que esta luta não busque eliminar o outro.

A minha experiência com meu filho Thammy foi decisiva para que eu me tornasse o ser humano que sou hoje. E me orgulho disso. Hoje, sou mais tolerante. Busco respeitar e compreender o outro.

Queria que todas as mães que têm essa experiência pudessem sentir o que sinto. Queria que elas se sentissem abraçadas por mim. O mundo pode sim ser melhor se formos mais tolerantes com o outro, se procurarmos ser mais empáticos.

Por trás de um homem trans ou de uma mulher trans, há, antes de tudo, um ser humano, lutando contra medos, fragilidades, dúvidas. Por que aumentar a carga dessas pessoas apenas por intolerância e ignorância?

É natural termos medo daquilo que não conhecemos, mas não podemos permitir que o desconhecimento nos cegue a ponto de não enxergar, no outro, um irmão. Ser mãe de um filho trans é aprender a verdadeira definição do que é respeito. É vivenciar uma experiência única de aceitação do ser humano como ele realmente é. Ser mãe de trans é um presente de Deus.

Triste de quem não entendeu isso ainda.

Cultura
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