'Do ventre à cabeça', com Luiza Braga, expõe em Belém as raízes da Amazônia
Monólogo da atriz paraense fala de memórias que contam da vida ribeirinha em interação com a encantaria da região e será apresentado na Caixa Cultural Belém nesta
A atriz paraense Luiza Braga, 37 anos, vive um momento muito especial em sua carreira artística. Após uma temporada intensa no cinema, audiovisual e TV, ela retorna ao teatro. Esse retorno ocorre nesta quarta-feira (26), na quinta (27) e na sexta (28), às 16h e às 19h, no palco da Caixa Cultural Belém, com o espetáculo “Do ventre à cabeça”. Com isso, Luiza está feliz duplamente: pelo retorno aos palcos e à cidade em que nasceu e, pela primeira vez, interpretando um monólogo em que conta como a vida ribeirinha e a encantaria caminham juntas na Amazônia. Por isso, a atriz pretende compartilhar essa emoção com o público da sua terra.
Luiza formou-se pela Escola de Teatro e Dança da UFPA há 17 anos. “Sempre trabalhando. Comecei trabalhando aqui em Belém bastante com teatro. Trabalhei muito com o Grupo Cuíra, trabalhei muito com Saulo Sisnando. Depois, eu fui para São Paulo, onde estou atualmente, e lá comecei a trabalhar prioritariamente com TV e cinema. Então, fiquei muitos anos fazendo TV e cinema, e esse espetáculo agora é uma volta ao teatro”, conta.
O título “Do ventre à cabeça” veio pelo fato de que o espetáculo fala muito de memória. “É um espetáculo em que eu falo da trajetória da minha avó (Raimunda Braga), que é uma mulher ribeirinha da cidade de Cametá. O meu avô era turco e eu sou da encantaria; então, a gente vai costurando um pouco narrativas da minha avó como mulher ribeirinha com saberes da cabocla encantada Mariana, que é turca, que é da encantaria do Pará. A gente chama de ’Do ventre à cabeça’ porque é esse caminho do que veio antes da gente, de onde a gente nasceu, de onde a gente nasce e como que a gente compreende e coloca isso no mundo”, explica Luiza.
“Tem uma coisa importante. A gente não tem como seguir adiante se a gente não sabe de onde a gente veio. Então, é lembrar um pouco de onde a gente vem para poder seguir adiante, e aí o espetáculo está fazendo essa trajetória”, acrescenta.
Encantaria
No espetáculo, como salienta Luiza Braga, aborda-se a encantaria não apenas como uma vertente religiosa, mística da Amazônia. “É falar sobre um modo de vida, porque eu acho que a gente na Amazônia, de uma maneira geral, a gente convive com a a chuva que está caindo aqui agora, é o rio que está muito perto. Então, Belém é uma cidade supergrande, cada vez mais desenvolvida, mas em que a gente tem um modo de vida que está muito conectado com o lugar, com a natureza, e eu acho que a encantaria é muito forte exatamente por isso, porque eu não preciso ir lá dentro de um espaço de culto necessariamente”, pontua.
“Eu cultuo no momento em que eu respeito o rio, em que eu respeito a chuva, em que eu respeito a fauna, a flora. Então, eu acho que o objetivo do espetáculo é mostrar o quanto esses saberes, que são saberes populares, ancestrais da nossa região, estão presentes no cotidiano das pessoas”, ressalta Luiza.
A atriz exemplifica isso, afirmando que a sua avó, uma mulher da cidade de Cametá, no nordeste paraense, não tem nada a ver diretamente com a encantaria, mas não toma banho de rio às 6h da tarde, porque ela fala que pode encantar. Mesmo sendo de uma religião cristã. Luiza Braga segue a religião Tambor de Mina, de matriz africana. A encantaria revela todo um cruzamento de história e cultura dos povos indígenas, negros e ribeirinhos, o que forma a identidade amazônica. “É o jeito como a gente vive”.
Em seu primeiro monólogo, Luiza conta a história da avó, Dona Raimunda. “Ela vai contando passagens da vida dela, como era a casa dela quando ela era criança, coisas que ela fazia. Então, é um espetáculo muito delicado e muito engraçado. Uma coisa que a minha avó tem, que as populações ribeirinhas têm muito, que é lidar com as coisas e com as adversidades da vida com humor”.
“Então, tu vais ouvir histórias dessa mulher e, ao longo dessas narrativas, vai se apresentando essa força ancestral feminina, representada pela Cabocla Mariana, que guia a minha família e, em muitos momentos, as histórias da minha avó se conectam com histórias que são míticas da dona Mariana”, diz Luiza.
“Por exemplo, a Dona Mariana, dentro do saber do Tambor de Mina, é uma princesa turca. A minha avó casou com um homem turco. O grande amor da vida da Dona Mariana é uma outra figura da encantaria que chama Marinheiro Fernando. O meu pai era marinheiro. Aí tem uma discussão: se a Dona Mariana se encantou nos Lençóis Maranhenses ou se ela se encantou na Praia de Joanes, no Marajó. Tem terreiros que falam que e nos Lençóis, tem terreiros que falam que é na Ilha do Marajó. A família do meu pai é toda do Marajó’.
“A gente vai construindo, pegando um pouco esses pontos de interseção da vida da minha avó, da minha família, com as histórias da Dona Mariana. Então, a Dona Mariana vai aparecendo conforme a minha avó vai narrando, e eu acho que mostrando o quanto essas forças ancestrais femininas deram força para ela”.
Essas narrativas em “Do ventre à cabeça” contam com muita música ao vivo, com a percussionista Gisele Souza, poesia e dança, com a também bailarina Luiza Braga. O espetáculo foi construído com o Coletivo Filhos de Iracema, formado por artistas e população tradicional de terreiros.
Serviço:
‘Do ventre à cabeça’, com atuação de Luiza Braga
Na Caixa Cultural Belém, na Avenida Marechal Hermes, S/N - Armazém 6A - Reduto (Porto Futuro II), Belém
Em 26 a 28 de agosto de 2026, sessões às 16h e 19h
Ingressos: R$ 15 (inteira) e R$ 7,50 (meia-entrada para os públicos previstos em lei e clientes Caixa)
Vendas de ingressos: a partir de 18 de agosto na bilheteria e no site da Caixa Cultural
Informações: site da Caixa Cultural e Instagram @caixaculturalbelem
Acesso para pessoas com deficiência.
Palavras-chave
COMPARTILHE ESSA NOTÍCIA